Uma das grandes polêmicas do ano acabou sendo o furor da mídia em cima de Coringa, novo filme da DC dirigido por Todd Phillips que coloca Joaquin Phoenix na pele do icônico vilão do Batman nos quadrinhos. É um filme pesado e que se separa de qualquer outra obra do gênero, apostando no estudo do personagem e na destruição moral de um indivíduo pela sociedade sórdida onde se encontra. Diversas vezes, o diretor revelou inspiração no cinema de Martin Scorsese, algo que é bem presente enquanto assistimos ao filme.

Porém, a mídia americana embarcou em uma viagem perigosa. Diversos jornalistas acusaram o filme de ser tóxico, moralmente perigoso e que serviria de “gatilho” para que as pessoas cometessem atos de extrema violência, e até mesmo atentados terroristas – até mesmo o uso de “incel” foi usado para descrever o protagonista, assim como aqueles que ousarem elogiar o filme de Phillips. É um fato curioso, já que nenhum outro filme mainstream havia recebido essa dose de atenção negativa por parte da mídia, que praticamente iniciou uma campanha de boicote antes mesmo do filme ser lançado nos cinemas. E isso, claramente, é uma grande besteira e não faz o menor sentido.

Infelizmente, diversos membros da imprensa recorrem a uma tragédia para suportar seus argumentos. Em 2012, os EUA tiveram mais uma trágica experiência com armas de fogo em Aurora, quando um atirador invadiu uma sessão de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e matou 12 pessoas. Como era um filme da DC e que havia introduzido o personagem do Coringa no filme anterior, a atenção deve ter se voltado especificamente para o filme de Phillips, especialmente pela abordagem do diretor ser vendida como mais “séria” e adulta do que a maioria dos filmes do gênero – dominados pela visão mais juvenil da Disney e Marvel Studios.

É uma grande hipocrisia, já que os mesmos defensores de que videogames não tornam as pessoas violentas (um argumento que sempre é usado pelos conservadores quando tiroteios eclodem nos EUA), estão agora afirmando que o filme do Coringa será um gatilho. A própria Warner Bros e os produtores do filme tiveram que vir a público defender o longa e garantir que ele não é um incentivo à violência, e Joaquin Phoenix trouxe a declaração perfeita a dizer que “a arte não tem a função de ensinar às pessoas o que é certo e o que é errado”, e que as pessoas são capazes de fazer isso por conta própria.

Para se ter ideia, algumas redes de cinemas americanos proibirão que os espectadores entrem com cosplay ou maquiagem inspirados no filme, e a mídia noticiou em peso como a polícia de Los Angeles e até mesmo o exército americano estariam em alerta para possíveis acontecimentos em sessões de cinema de Coringa. Obviamente, esperamos que nada aconteça, mas seria realmente responsabilidade do filme da DC? O problema a ser investigado é outro, envolvendo o controle da posse de armas de fogo no país. É um tempo de muita sensibilidade, mas que é compreensível considerando o problema com armas que os EUA sempre tiveram.

Mas assistindo a Coringa, podemos dizer que ele é tóxico, perigoso e vai fazer você querer comprar uma doze? Absolutamente não. Temos sim um filme violento, de atmosfera pesada e que mergulha na moral cinzenta e repreensível que seu personagem enfrenta, mas Phillips jamais glorifica esse comportamento e a figura perigosa na qual ele se transforma. Ao contrário do Coringa de Heath Ledger, que é uma figura carismática e que pode garantir uma certa admiração, o personagem de Phoenix é completamente assustador.

A empatia com sua figura é necessária no primeiro ato do filme, afinal estamos acompanhando um sujeito solitário que sofre com uma sociedade violenta e que constantemente o joga no chão. O Coringa é fruto dessa marginalização, além de sofrer de distúrbios mentais explícitos que o roteiro de Phillips e Scott Silver (assim como a performance de Phoenix) deixam bem claros.

Quando Arthur Fleck enfim aparece maquiado como o Coringa, dançando e correndo pelas ruas de Gotham, a sensação é a de que estamos acompanhando uma bomba-relógio. E o filme sabe disso, já que a excelente trilha sonora de Hildur Guðnadóttir está sempre presente com suas cordas tenebrosas para pontuar que essa jornada é, sim, uma tragédia. Estamos testemunhando o nascimento de uma figura perigosa e caótica, e a condução de Phillips deixa bem claro isso, até mesmo pela forma como retrata a violência nos assassinatos do Coringa – todas as sequências dessa natureza são frias e tenebrosas, indicando que o filme, obviamente, não glorifica nenhum desses atos.

Coringa traz o mesmo efeito que clássicos como Taxi Driver, Laranja Mecânica e Clube da Luta provocaram em suas respectivas épocas de lançamento. O fato de que Todd Phillips reacendeu essa conversa com seu novo filme só comprova que o diretor conseguiu o que queria: trazer uma obra de arte provocadora, e capaz de gerar discussões. Mas que fique bem claro: Coringa não é tóxico e nem glorifica a violência.