O sucesso da série “O Gambito da Rainha” (Netflix) impulsionou exponencialmente o interesse sobre o xadrez no mundo e no Brasil nos últimos meses. Mas não foram só as curiosidades sobre o jogo em si que passaram a atrair a atenção de um enorme grupo de leigos. A trama ganhou desdobramentos no mundo real e levantou discussões sobre machismo e empoderamento feminino no esporte.

1 de 7 A personagem Beth Harmon é protagonista de série que impulsionou a prática do xadrez no mundo — Foto: Reprodução / Netflix

A personagem Beth Harmon é protagonista de série que impulsionou a prática do xadrez no mundo — Foto: Reprodução / Netflix

O nome original da série em inglês é “The Queen’s Gambit”, que numa tradução literal seria “O Gambito da Rainha”. Mas no mundo do xadrez a peça é chamada de Dama e, consequentemente, a famosa jogada de abertura também carrega este nome.

A apesar de se tratar de uma ficção, os atletas viram abordagens importantes levando em consideração à realidade do cenário do esporte. A própria escolha de uma mulher como protagonista levantou a discussão sobre o esporte ser tão dominado por homens e ainda marcado por preconceitos.

– Acho que ajuda bastante o xadrez feminino por ter uma protagonista mulher. Quando você está inserido em algo que tem predominância masculina é importante ter uma modelo, uma luz que diga que uma mulher é capaz. A ideia foi trazer o empoderamento feminino, mostrar que não precisa um homem ser protagonista, que é o que acontece na maioria das produções de xadrez – disse a número 1 do Brasil no feminino, Juliana Terao.

2 de 7 Juliana Terao é hexacampeã brasileira e lidera do ranking feminino do país — Foto: Arquivo Pessoal

Juliana Terao é hexacampeã brasileira e lidera do ranking feminino do país — Foto: Arquivo Pessoal

As mulheres representam cerca de 11% dos filiados à Federação Internacional de Xadrez, a Fide. No Brasil, são 644 contra 5475 homens registrados na entidade. Em potências como China e Rússia, casa das últimas campeãs olímpicas, este percentual é de 29% e 17%, respectivamente.

Com imensa dificuldade de obter patrocínio para custear até o básico, como passagens para competições, algumas das melhores atletas do país fundaram o projeto Damas em Ação – Rumo à Maestria. Além de realizarem rifas para levantar verba, elas se preocupam em divulgar os principais feitos das compatriotas numa tentativa de aumentar a visibilidade do feminino.

Nos anos 80, as maiores jogadoras da história, as irmãs húngaras Susan e Judit Polgar, sofreram muito com o descrédito dos homens. O pai delas era psicólogo e acreditava que ninguém nascia gênio, mas que poderia ser ensinado a ser um. E viu no xadrez e nas herdeiras a oportunidade de testar essa teoria. As duas se desenvolveram brilhantemente desde muito pequenas e foram as primeiras a obter o status de Grande-Mestre, o mais alto da Fide, em 1991. Mas o caminho até lá foi duro.

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Susan, a mais velha, foi a primeira mulher a se classificar para o Mundial Masculino de Xadrez, em 1986, quando tinha 17 anos. Foi impedida de participar, mas fez com que a Fide reavaliasse a limitação posteriormente. Mesmo quando foi autorizada a competir, a presença dela foi recebida com hostilidade.

3 de 7 A família Polgar nos anos 80: Susan (esq.) e Judit (centro) se tornaram Grandes Mestres de xadrez — Foto: Getty Images

A família Polgar nos anos 80: Susan (esq.) e Judit (centro) se tornaram Grandes Mestres de xadrez — Foto: Getty Images

– O sexismo que ela (Beth, personagem principal da série) enfrentou parecia um picnic comparado ao que enfrentei na vida real. (…) Tive muita sorte que meus pais acreditaram que a melhor resposta para tudo eram os resultados. Podem tentar me diminuir, me silenciar, mas no fim do dia se for perseverante o bastante, paciente o bastante, trabalhar e os resultados vierem, isso falará mais alto do que tudo – disse Susan ao site Forward.com.

A irmã caçula, Judit, tornou-se a maior da história. O título de grande mestre foi conquistado aos 15 anos, sendo a mais jovem entre homens e mulheres a alcança-lo. Também foi precoce ao quebrar a barreira dos 100 melhores do mundo e passou anos no top 10, sendo a única até hoje a chegar lá. Enquanto subia, era obrigada a ouvir comentários depreciativos como os do russo Garry Kasparov, por anos número 1 do ranking.

– Existe o xadrez real e o xadrez feminino. Algumas pessoas não gostam de ouvir, mas o xadrez não é para as mulheres. É uma luta. Uma grande luta. Não é para mulher. Sinto muito. Ela não tem chance se tem homens como adversários. É uma lógica simples. É a lógica de um lutador profissional, e mulheres são lutadoras fracas – disse o russo em entrevista à revista Playboy em 1989.

Kasparov de fato teve vantagem no confronto direto com Judit. Foram cinco vitórias e dois empates no xadrez clássico. Mas em 2002 a húngara o derrotou num confronto de xadrez rápido enquanto ele ocupava o posto de número 1 do mundo. Ela também superaria grandes nomes como Anatoly Karpov, Boris Spassky e Magnus Carlsen, atual campeão mundial.

4 de 7 Magnus Carlsen, hoje campeão mundial, contra Judit Polgar em 2012 — Foto: Getty Images

Magnus Carlsen, hoje campeão mundial, contra Judit Polgar em 2012 — Foto: Getty Images

Anos depois Kasparov pediu desculpas pela declaração dada à Playboy. E tornou-se, ao lado de outro homem, o escritor e enxadrista Bruce Pandolfini, um dos consultores do Gambito da Rainha. Além de ensinarem o esporte aos atores os dois também colaboraram na produção das partidas jogadas ao longo dos episódios, todas reproduções de jogos reais.

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Hoje as mulheres podem competir junto com os homens na categoria absoluto. Mas há também uma categoria exclusiva para elas. O Mundial feminino de 2020 distribuiu 500 mil Euros em premiação. O Mundial absoluto, que foi interrompido por causa da pandemia, daria 2 milhões de Euros aos participantes.

Além de competições, há titulações exclusivas para mulheres. O que à primeira vista pode ser interpretado como uma nova faceta de segregação no geral é bem visto pelas jogadoras profissionais.

– Acho que é necessário. Para a gente atingir um certo equilíbrio precisa ir colocando escadas menores para as mulheres escalarem pouco a pouco, porque a discrepância entre os dois naipes ainda é muito alta.

– A titulação feminina também ajuda bastante no profissional. Ter um certificado eleva seu valor de mercado para dar aula, por exemplo, e agrega um valor ao seu nome como jogadora. Se não tivesse isso haveria muito menos mulheres tituladas no mundo. É um incentivo para que haja mais mulheres praticantes – disse Juliana Terao, que é Mestre Internacional no feminino, uma acima da titulação que tem no absoluto, de Mestre Fide.

5 de 7 Hou Yifan é a única mulher hoje a figurar entre os 100 melhores do mundo no ranking absoluto — Foto: Getty Images

Hou Yifan é a única mulher hoje a figurar entre os 100 melhores do mundo no ranking absoluto — Foto: Getty Images

O Brasil até hoje teve 14 Grandes Mestres homens e nenhuma mulher. No mundo, dentre os mais de 1700 Grandes Mestres, apenas 37 são mulheres. No top 100 absoluto da Fide atualmente há apenas uma mulher, a chinesa Hou Yifan, número 87 da lista.

Xadrez sofreu boom com a pandemia

O xadrez já experimentava um boom significativo com a pandemia. Confinadas em casa, as pessoas buscaram no esporte um entretenimento alternativo em seus computadores e celulares. A plataforma mais popular no mundo, o Chess.com, ganhou mais de 13 milhões de novos usuários em 2020, mais de 200% de acrescimento em relação ao ano anterior. E o lançamento da série gerou uma segunda onda, ainda mais forte, com recorde diário superior a 120 mil novos assinantes por dia.

Hoje o Brasil tem 1,25 milhão de jogadores no site, com uma média de 10 milhões de partidas jogadas todos os meses. Após o lançamento da série, no fim de outubro, esses números seguiram a tendência mundial e foram impulsionados. Em novembro foram 120 mil novos registros brasileiros e cerca de 16 milhões de partidas.

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Os principais enxadristas do país também sentiram o aumento do interesse. O Grande Mestre Rafael Leitão, número 1 do Brasil no absoluto, se assustou quando percebeu que o volume de acessos tinha quadruplicado de um mês para o outro.

6 de 7 Rafael Leitão é enxadrista o número 1 do Brasil — Foto: Reprodução / Instagram

Rafael Leitão é enxadrista o número 1 do Brasil — Foto: Reprodução / Instagram

– A procura do público em 2020 foi absurda. A pandemia já explodiu o interesse porque muita gente ficou mais tempo em casa. Mas a pandemia é fichinha perto do que aconteceu com a série, foi realmente inacreditável. Eu não acreditava no número de visitas e cheguei a perguntar aos programadores se havia algum problema, tentativa de ataque hacker, porque os números estavam estranhos. Mas era realmente reflexo da série.

A torcida da elite brasileira é que o boom de praticantes amadores online possa se converter em uma base sólida para impulsionar o número de jogadores do xadrez clássico presencial e, assim, aumentar o nível do esporte no Brasil. Atualmente viver dedicado exclusivamente a treinos e competições é quase inviável.

Tanto Rafael Leitão quanto Juliana Terao, os líderes do ranking brasileiro entre homens e mulheres, têm atividades paralelas para garantirem o próprio sustento – mesmo que estejam relacionadas ao xadrez, como aulas. E o fomento por parte da Confederação Brasileira de Xadrez e das autoridades ainda é limitado.

7 de 7 Estudantes competem no xadrez nos Jogos Escolares de 2018 — Foto: Washington Alves/Exemplus/COB

Estudantes competem no xadrez nos Jogos Escolares de 2018 — Foto: Washington Alves/Exemplus/COB

O xadrez fez parte do programa Bolsa Atleta do governo federal de 2010 a 2016, mas Juliana, por exemplo, sempre recebeu negativas quando aplicou. Acabou desistindo de tentar. Apenas 41 atletas conseguiram o benefício em todo o período, três deles em nível internacional e os outros 38 em nível estudantil, num investimento total de R$ 395.160,00 do governo federal.

A Secretaria Especial do Esporte, em resposta à reportagem, ressaltou que a prioridade é para atletas de esportes olímpicos e paralímpicos. O xadrez, que tem suas próprias Olimpíadas, é atendido numa fase secundária do programa. O único vínculo do esporte com o Comitê Olímpico do Brasil está a nível escolar. O xadrez faz parte do programa dos Jogos Escolares desde 2005.

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