RIO – Uma música que parece vir de lugar nenhum — e de todos. O blues do Mississipi, o fado português, a música elétrica dos desertos africanos, boleros cubanos, trilhas de westerns italianos. Editado em abril, “Odeon Hotel” é o mais ambicioso e indefinível álbum do Dead Combo, grupo lisboeta formado em 2001 por Pedro Gonçalves (baixo e guitarra) e Tó Trips (guitarra). Primeiro lançamento internacional da dupla, o disco não estabelece destino para a música descolada do seu tempo (na verdade, de qualquer tempo) ou mesmo os estilos musicais.

— O que fazemos não tem definição, não cabe numa caixa. O que é bom e saudável, especialmente nas artes — orgulha-se Pedro Gonçalves, em entrevista por telefone, de Lisboa. — Somos uma banda instrumental, e nossa música pode ser de qualquer lugar do mundo, apesar de ter sempre alguma coisa que mostra que é portuguesa.

Agora, depois de 17 anos de atividade e de cinco álbuns aclamados em Portugal e bem comentados no exterior, o Dead Combo dá seus primeiros passos com o show do novo (e sexto) disco em sua caminhada pelo planeta. Dia 20, eles são atração da etapa portuguesa do festival brasileiro Mimo, na cidade de Amarante. E em novembro, repetem a participação na fase brasileira: dia 17 no Rio, e 20, em São Paulo.

Nascido na plateia de um show que o músico americano de indie-folk Howe Gelb fez em Lisboa — ao fim da apresentação, Tó pediu carona a Pedro, mas como este não tinha carro nem carteira, acabaram os dois seguindo a pé mesmo —, o Dead Combo tem raízes profundas em sua cidade e sua cultura (o projeto original da dupla de roqueiros era prestar um tributo a Carlos Paredes, gênio da guitarra portuguesa e do fado). O Odeon verdadeiro não é um hotel, mas um cinema do centro de Lisboa, fechado desde os anos 1990, que foi comprado para ser transformado num prédio de apartamentos de luxo — um símbolo da gentrificação em curso na capital portuguesa. Ali, Pedro e Tó ambientaram a ficção que orienta as músicas do disco.

— O Odeon é um hotel que já não existe mais, que hospedava pessoas de todos os extratos sociais e pontos geográficos. É também uma forma de pensar o que acontece com a nossa cidade — diz o músico, para quem o hotel também serve de metáfora para a própria música do Dead Combo. — Somos pessoas ecléticas. E nesse disco temos um pouco mais disso.

“Odeon Hotel” é o primeiro álbum do grupo que não foi produzido por ele próprio, mas pelo chileno Alain Johannes, que foi músico de apoio dos Queens of The Stone Age, tocou em discos de Chris Cornell e PJ Harvey e produziu álbuns do cantor Mark Lanegan.

— Queríamos alguém de fora que nos levasse a um lugar aonde não iríamos naturalmente. Estávamos aprisionados dentro das nossas próprias ideias, e com o Alain pudemos nos libertar. Acabou sendo um disco com uma portugalidade menos evidente — conta Pedro.

O que mudou também em “Odeon Hotel” foi a decisão do Dead Combo de trabalhar com mais músicos do que o de costume. Entraram a bateria vigorosa de Alexandre Frazão, a percussão de Mick Trovoada, a viola de Bruno Silva e os saxofones de João Cabrita. Ao vivo, eles contam com o acréscimo de Alexandre, de Gui (dos Xutos & Pontapés, nos sopros) e de António Quintino (baixo, guitarra e mellotron). Mark Lanegan (que, por sinal, os apresentou a Johannes) empresta sua voz gutural ao blues pesado “I know, I alone”.

— Encontramos Mark quando ele veio tocar em Lisboa, mostramos uns poemas do Fernando Pessoa, e ele disse que já conhecia o “Livro do desassossego”. E na hora de escolher um para fazer a música, ele separou “I know, I alone”, que é originalmente em inglês.

Com uma melancolia que atravessa todo o disco, o Dead Combo faz passeios pelo ska rancheiro “Theo’s walking”, o punk jazz-salsa “Desassossego” e a carnavalesca “As quica as you can”. A surf music abolerada “Dear Carmen Miranda” faz referência à grande estrela internacional da música brasileira. Que, como lembra Pedro, “era de origem portuguesa”.

Muito do fato de a música do Dead Combo ter ganhado asas se deveu ao cinema e à TV. Em 2015, eles tiveram duas músicas no filme “Golpe duplo”, estrelado por Will Smith. Antes, em 2012, foram os guias do (recém-falecido) chef Anthony Bourdain em Lisboa nas gravações do programa de TV “No Reservations” — o que lhes valeu a entrada no Top 10 dos discos de world music mais vendidos no iTunes norte-americano.