O Metrópoles entrou na onda das listas de fim da década e elege os melhores filmes dos anos 2010. O levantamento procurou ser o mais variado possível, de cinema popular a experimental.

Organizado em ordem alfabética, o top 10 tem de tudo: de obras-primas tardias de veteranos como Martin Scorsese, Jean-Luc Godard, Abbas Kiarostami, Paul Schrader e Monte Hellman a obras contemporâneas elogiadíssimas assinadas por Claire Denis, Maren Ade, David Fincher, James Gray e Johnnie To.

P.S.: como reduzir uma década inteira a uma listinha acaba obviamente deixando dezenas de filmaços de fora – socorro! –, o crítico de cinema que assina o ranking adicionou duas menções honrosas ao final da galeria.

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage, 2014, Suíça/França), de Jean-Luc Godard. Formando uma tríade poderosa de ensaios ao lado de Filme Socialismo (2010) e Imagem e Palavra (2018), o longa representa um dos melhores trabalhos contemporâneos do veterano diretor de Acossado (1960) e O Demônio das Onze Horas (1965). Parte de um casal e um cachorro para propor reflexões instigantes e provocativas sobre o estado fragmentado da linguagem audiovisual na era de múltiplas telas, lentes e plataformas. Veja trailerDivulgação

Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love, 2012, Japão/França), de Abbas Kiarostami. Uma jovem paga os estudos por meio da prostituição e acaba desenvolvendo relação distinta com um de seus clientes, um acadêmico viúvo. O que poderia ser um mero drama romântico clichê e esquecível ganha contornos de obra-prima nas mãos de Kiarostami. Rara elegância visual e constante clima de estranhamento dedicados a uma homenagem discreta e autêntica ao cinema de relações humanas do mestre japonês Yasujiro Ozu. Veja trailerDivulgação

Bastardos (Les Salauds, 2013, França/Alemanha), de Claire Denis. Uma das maiores cineastas das últimas duas, três décadas, Denis mescla drama psicológico e thriller de vingança em um filme que ousa investigar a podridão da alma humana. Uma trama sem fatalismos cômodos, apoiada pela trilha enigmática da banda Tindersticks, colaboradora habitual da francesa. Vale lembrar que a diretora de Bom Trabalho (1999) e 35 Doses de Rum (2008) encerrou a década com High Life, filosófico longa espacial estrelado por Robert Pattinson. Veja trailerDivulgação

Caminho para o Nada (Road to Nowhere, 2010, EUA), de Monte Hellman. “Filme de aposentadoria” de Hellman – e o primeiro dele após duas décadas –, o longa leva a metalinguagem e o noir ao limite numa provocação subestimadíssima sobre Hollywood, Los Angeles e as ilusões e desgraças do mundo do cinema. Em termos talvez reducionistas, é Cidade dos Sonhos (2001) forjado pelo diretor de Corrida Sem Fim (1971). Veja trailerDivulgação

Drug War (Du Zhan, 2012, China/Hong Kong), de Johnnie To. A década do cinema de ação nos EUA foi deveras prolífica, com Mad Max: Estrada da Fúria (2015), renovação esilística na franquia Missão: Impossível, a trilogia John Wick, estrelada por Keanu Reeves, e títulos independentes (e ainda pouco vistos) protagonizados por Scott Adkins. Mas ninguém no planeta dirige tiroteios, artes marciais e perseguições (a pé e de carro) como Johnnie To, veterano de Hong Kong. Basta espiar o que ele apronta nos trinta minutos finais de Drug War. Uma espécie de neofaroeste urbano movido por uma fisicalidade (gestual e de câmera) só igualada atualmente por outros trabalhos do próprio diretor. Veja trailerDivulgação

Era uma Vez em Nova York (The Immigrant, 2013, EUA), de James Gray. Para todos os efeitos, Gray é um cineasta contemporâneo que conta histórias universais como se estivesse na Hollywood clássica. Lembrado recentemente por Ad Astra (2019), ele visita as fundações da América moderna, no começo do século 20, para mostrar os sofrimentos de uma imigrante polonesa recém-chegada a Nova York. Um épico minimalista que desconstrói o american dream a todo instante. Para cada ato de bondade, há outro de brutalidade. Esperança e abismo habitam esse melodrama de um diretor que recusa modismos cínicos e clichês de filme de festival. Veja trailerDivulgação

Fé Corrompida (First Reformed, 2017, EUA/Reino Unido/Austrália), de Paul Schrader. Só mesmo o intenso roteirista de Taxi Driver (1976) e Touro Indomável (1980) para debater terrorismo, suicídio e destruição ambiental – três temas urgentes de hoje – em um drama de fé sobre reverendo de Nova York atormentado por dúvidas, medos e paranoias. Ethan Hawke entrega uma das melhores atuações “esquecidas” da década. Veja trailerDivulgação

O Irlandês (The Irishman, 2019, EUA), de Martin Scorsese. Eis o filme-testamento de Scorsese. Transcende a aparência nostálgica de “resumo de carreira” ao unir a tecnologia de rejuvenescimento digital e a grana (e gana por Oscar) da Netflix a uma meditação pesarosa, por vezes casual e até mórbida sobre os laços entre governantes e crime organizado nos Estados Unidos. As atuações de Pacino, De Niro e Pesci são qualquer coisa de brilhante. Um épico de máfia capaz de equilibrar tanto o peso da história (oficial ou não) quanto o legado cinematográfico deixado por um dos mestres mais inquietos de Hollywood. Veja trailerDivulgação

A Rede Social (The Social Network, 2010, EUA), de David Fincher. A década que terminou com a fadiga das redes sociais, escândalos de fake news e debates sobre a influência dos algoritmos na vida privada e pública começou justamente com uma crônica sobre um dos responsáveis por esse mundo arenoso e de espelhos quebrados: Mark Zuckerberg, o criador do Facebook. Fincher vai na contramão das cinebiografias laudatórias ao aplicar sua já conhecida rigidez formal ao retrato de uma juventude vivida através de avatares, likes e simulacros. Veja trailerDivulgação

Toni Erdmann (2016, Alemanha), de Maren Ade. Uma comédia alemã de pai e filha que dura quase três horas, mas parece ter a vibração de um episódio de sitcom. Transformando qualquer plano longo em uma agradável volta no parque, Maren Ade aproxima a jovem executiva do boomer brincalhão a partir de um disfarce: o pai cria um personagem e posa de coach da filha. A fantasia digna de tosca festa de escritório obviamente não engana o alvo da brincadeira. Mas é o que basta para que uma nova conexão se forme a partir de situações bizarras, hilárias, pontiagudas e doces. Só a fabulação salva. Veja trailer Divulgação

La Flor (2018, Argentina), de Mariano Llinás. Reclamar de filme longo virou moda, ainda mais na era do streaming. Andou circulando na internet até “manual” de como ver O Irlandês (3h30min) em capítulos, por exemplo. Pois bem. La Flor desafia esses limites parcos entre formatos ao esparramar seis capítulos sem conexão evidente em quase 14 horas de longa-metragem. De terror B a cinema experimental, passando por thriller de espionagem e musical. Como diversos críticos escreveram por aí, a exemplo de Dennis Lim na Film Comment, é uma história que, no fim das contas, envolve o próprio prazer de contar, ler, ouvir e assistir histórias. Veja trailerDivulgação

Twin Peaks: O Retorno (Twin Peaks, 2017, EUA), de David Lynch. “Ah, mas é série, não filme”. Bom, para a Cahiers é o melhor filme da década. A escolha só comprova como essa obsessão por gavetas e pastas é pueril. De qualquer modo, Lynch dirigiu e coescreveu, com Mark Frost, todos os 18 episódios da terceira temporada. É o grande acontecimento da TV na década. Uma obra que junta vibes de diferentes fases do diretor – de Veludo Azul (1986) a Cidade dos Sonhos (2001) – para subverter nossas vãs noções de nostalgia, real x invenção, identidades trocadas, viagem no tempo e o peso que o passado exerce sobre o presente. Tudo isso entre bombas atômicas, xícaras de café fresquinho, berros no escuro e passeios de carro. Veja trailerDivulgação

O Metacritic, site agregador de críticas de cinema, fez um levantamento bem amplo: filmes com as melhores notas médias e longas mais citados em listas de veículos de imprensaReprodução

O jornal The New York Times dividiu os filmes da década em três listas: os mais influentes e os favoritos dos críticos A.O. Scott e Manohla DargisReprodução

Facebook Comments