Todos somos chatos — só não temos a mesma visibilidade. De João Gilberto o que fica é sua arte criativa — que não é maçante. Mas ele não é o Jesus Cristo da música patropi

Ezra Pound, Knut Hamsun, Louis-Ferdinand Céline e Pierre Drieu la Rochelle foram companheiros de jornada do fascismo. Pound e Céline chegaram a ser radicais, inclusive no ataque brutal aos judeus. Portanto, devemos dizer: “Tais escritores não devem ser lidos, pois eram ‘amigos’ de Adolf Hitler e Benito Mussolini”. Devemos? Há quem acredite que sim, pois, em tese, o homem — suas ações — “contamina” a obra. Pode até ser que quem pensa assim tenha razão. Mas penso diferente.

Não deixaria jamais de ler a poesia e a crítica literária de Pound e a prosa de Hamsun, Céline e La Rochelle por causa de suas convicções ideológicas. A literatura do quarteto é de alta qualidade e, na maioria das vezes (os panfletos antijudaicos de Céline são ilegíveis, mas não são literatura), não contaminada por suas ideias políticas. Fica-se, até, com a impressão da existência de duplos: os militantes não pareciam ser as mesmas pessoas que escreviam uma literatura refinada, altamente elaborada e, digamos, profundamente revolucionária (como literatura, e não como política).

Como os quatro citados, o compositor e cantor João Gilberto — não fascista, é claro — era visto como um chato de galochas (como se dizia nos tempos de Pound). Seu grau de exigência, mais do que gênero, era praticamente patológico. A perfeição não existe na vida nem na arte, mas deve ser buscada, e é o que todo grande artista faz — de Flaubert a Joyce e de Bach a Beethoven. Há um momento em que, de repente, o criador se aproxima, digamos, de Deus, o “ser”, teoricamente, perfeito (ou quase). João Gilberto era mesmo um gênio da música e, com a Bossa Nova, revolucionou a música patropi, chegando a influenciar parte da música americana (depois de ter bebido na música do país do jazz). Ele e Tom Jobim, acrescente-se.

Se João Gilberto era um gênio, e era mesmo, isto não quer dizer que deve ser tratado como marco zero da música brasileira — como uma espécie de terceiro irmão dos concretistas Haroldo e Augusto de Campos. Os concretistas pesquisaram a literatura brasileira, buscando antepassados fora do cânone tradicional — como Sousândrade e Pedro Kilkerry —, como se fossem discípulos e, ao mesmo tempo, mestres. Eles voltavam ao passado tanto para resgatar obras ditas importantes mas negligenciadas quanto para sugerir que haviam feito descobertas extraordinárias na poética de bardos olvidados. Era uma tentativa de inventar uma tradição, com desconhecidos, já que os celebérrimos Manuel Bandeira e João de Cabral de Melo Neto escaparam do abraço de sucuri dos Brothers Campos. No fundo, os concretistas, com o apoio de Décio Pignatari, “recriaram” um passado concretista, como se os “velhos” poetas fossem seus alunos — há um certo grau de espiritismo —, para se apresentarem como ponto de partida e ponto de chegada da poesia inventiva. É como se dissessem: “Antes de nós, os nossos poetas, reinventados por nós. Agora, somos nós — a fé e o caminho”. Certo, exagero, mas sem distanciar da verdade.

Pois João Gilberto é o concretista da música brasileira. Segundo Caetano Veloso, autor de frases feitas que são fáceis de serem desfeitas, a música brasileira deve ser dividida em antes e depois de João Gilberto — baiano como eles. Não resta dúvida, repita-se, que o “criador” da Bossa Nova é importantíssimo e contribuiu para “refinar” e “afinar” a música brasileira. Mas não “criou” Noel Rosa e Mário Reis (que teria influenciado o tom baixo da voz do criador de “Chega de Saudade”; Ruy Castro, o guardião da Bossa Nova, assinala que o baiano nem gostava tanto assim do cantor), entre outros.

Mesmo desconsiderando a tese de que, antes de João Gilberto, nada e, depois de João Gilberto, tudo, é preciso admitir sua importância para a expansão — não diria “renovação” porque a arte, a rigor, não se renova (como renovar Machado de Assis e Laurence Sterne?) — da música popular brasileira. É bem provável que, depois dele, os violonistas se tornaram mais afinados e os compositores mais rigorosos na arte de elaborar suas músicas. Ele está bem situado na música de qualidade o país — apesar das desconfianças de José Ramos Tinhorão, que o percebe, por certo, como um “americano” nos trópicos — e, ao contrário do que dizem nas redes sociais, não deve ser visto pelo prisma da “chatice”. A rigor, todos nós somos chatos — só não temos a mesma visibilidade do compositor-cantor-músico. De João Gilberto o que fica é sua arte criativa — que nada tem de chata. Mas ele, evidentemente, não é o Jesus Cristo da música patropi.