Vocais e percussão indígena, batidas de ritmos eletrônicos e rimas de hip-hop geram a sonoridade improvável do A Tribe Called Red. A dupla canadense é responsável pela criação do “powwow elétrico”, o resultado do encontro entre as tradições musicais indígenas com a música urbana e dançante.

A Tribe Called Red, cujo nome que remete ao grupo de rap americano A Tribe Called Quest, famoso nos anos 1990, se apresenta em São Paulo na sexta, 28. O duo é uma das atrações do festival Dogma, que reúne nomes celebrados da música experimental do Brasil e do mundo no Sesc Pompeia, desde o dia 27 de junho até 6 de julho.

“Éramos apenas DJs de clube, reunindo pessoas da nossa comunidade”, conta Ehren “Bear Witness” Thomas, que fundou em grupo em 2008, a partir de uma festa regada à música indígena em sua cidade, Ottawa.

Bear Witness, assim como o atual companheiro de A Tribe Called Red, Tim “2oolman” Hill, tem descendência dos povos nativos do Canadá. Ambos foram criados vivenciando o powwow, nome dado aos encontros para dança, música e socialização entre nativos da América do Norte.

Em sua festa, chamada Electric Pow Wow, Bear tocava remixes de música powwow, movimentando tanto os centros indígenas locais quanto o público regular da cidade. A fama das festas animadas rendeu o convite para participar de um festival em Ottawa. 

“As músicas powwow são feitas de voz e bateria e, em um dos nossos ensaios, encontramos uma que começava apenas com uma voz”, conta Bear. “Botamos uma batida de dubstep e foi muito natural. Percebemos que estávamos misturando dance music com dance music.”

A primeira grande música do grupo foi “Electric Pow Wow Drum”, que se tornou uma espécie de hit. Desde então, o A Tribe Called Red já lançou três discos e rodou o mundo.

No começo, a música era baseada em samples de powwow com batidas eletrônicas, mas ela foi evoluindo e englobando dancehall, drum and bass e hip-hop, entre outros tipos de batidas e arranjos eletrônicos.

Há cinco anos, a entrada de 2oolman, originalmente produtor de hip-hop, deu nova dinâmica ao grupo. Além da participação de rappers, as músicas começaram a dispensar os samples, já que a dupla começou a ter cantores de powwow nos estúdios.

A dinâmica de criação entre Bear (DJ) e 2oolman (produtor), segundo eles, é “coesa”. “Bear me ajuda a querer tentar coisas novas —e também me breca quando vou longe demais”, conta o produtor. “É assim que tem funcionado.”

O último disco do ATCR, “We Are the Halluci Nation” (2016), é o mais ousado esteticamente, abraçando de vez o rap e os graves robustos. Agressivo e iconoclasta, o grupo soa cada vez mais original e apelativo às pistas.

“Quanto mais portas abrimos, mais temos a sensação de que dá para avançar ainda mais no som e em outras coisas possíveis de se fazer a partir dele”, diz Bear.

O fundador do ATCR conta que, em seus shows ao redor do mundo, a conexão é maior com os povos indígenas de outras nacionalidades. “Não importa de onde sejam, você entende automaticamente o que estamos dizemos porque a mensagem é a mesma: sobreviver à colonização.”

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