Milhares de manifestantes têm ocupado as ruas de Porto Rico desde a semana passada contra o governador Ricardo Rosselló. O movimento forçou Rosselló a anunciar, no domingo (21), que não buscará a reeleição no pleito de 2020 e que deixará a liderança do Novo Partido Progressista, de orientação conservadora.

A onda de protestos, considerada a mais expressiva na história recente da ilha caribenha, segue com força apesar dos episódios de repressão policial. Os manifestantes retornaram às ruas na segunda (22) para exigir a renúncia imediata do governador –mais de 500 mil pessoas participaram do protesto na capital, San Juan, de acordo com a imprensa local.

O estopim dos protestos em Porto Rico foi o vazamento de centenas de páginas contendo mensagens trocadas pelo aplicativo Telegram entre Rosselló e um grupo de auxiliares. Nas mensagens, reveladas no último dia 13 pelo Centro de Jornalismo Investigativo, o governador faz comentários ofensivos contra políticos e celebridades da ilha.

Rosselló também aparece fazendo piadas sobre as vítimas do furacão Maria, que deixou mais de 3.000 mortos após passar pela ilha em setembro de 2017. Sua administração vinha sendo criticada por falhar na reconstrução da infraestrutura após o desastre e por sucessivos escândalos de corrupção: poucos dias antes do vazamento das mensagens, o FBI (polícia federal americana) havia detido membros do governo porto-riquenho acusados de desviar US$ 15,5 milhões (R$ 58 milhões) em ajuda humanitária para as vítimas do furacão.

“Eu cometi erros e me desculpei por eles”, disse Rosselló em pronunciamento transmitido nas redes sociais no domingo. “Sou um homem de bem que tem um grande amor pela ilha. Mas reconheço que pedir desculpas não é suficiente.”

As manifestações têm sido impulsionadas por celebridades da ilha caribenha, como os cantores Resident, Bad Bunny e Ricky Martin –este foi alvo de ataques homofóbicos nas mensagens vazadas.

Na manifestação de segunda-feira, Martin apareceu em cima de um carro de som carregando uma bandeira do orgulho LGBT. “Nós não obedecemos ditadores em Porto Rico. É hora de você [Rosselló] cair fora” disse Martin, 47, à multidão.

“Os chats são apenas a ponta do iceberg” disse a manifestante Benedicta Villegas, enfermeira aposentada de 69 anos, à agência de notícias Associated Press. “Ainda há gente desabrigada e estradas sem iluminação … O povo acordou depois de tanto ódio.”

Os protestos em Porto Rico põem em evidência a dependência em relação aos Estados Unidos –a ilha está subordinada à autoridade de Washington desde o fim do século 19, mas não integra a federação americana. Assim, seus 3,2 milhões de habitantes não participam das eleições para a Presidência e o Congresso dos Estados Unidos, embora sejam cidadãos americanos.

Além de exigir a renúncia de Rosselló, alguns dos manifestantes pedem o cancelamento da dívida externa porto-riquenha –que chega a US$ 70 bilhões (R$ 262 bilhões)– e a extinção da Junta de Supervisão Fiscal, órgão criado pelo Congresso americano para implementar medidas de austeridade fiscal. Os cortes de gastos têm afetado a provisão de serviços públicos e agravado a situação dos setores mais vulneráveis: mais de 40% dos habitantes de Porto Rico vivem na pobreza.

“As manifestações miram um alvo muito maior que Ricardo Rosselló”, escreveu Fernando Tormos-Apontes, professor porto-riquenho da Universidade de Missouri-St. Louis, para a revista americana Jacobin. “Eles estão cada vez mais conscientes de que os problemas que originaram esta revolta são sistêmicos, e que suas soluções devem ser formuladas adequadamente.”

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