O concerto é parte de um projeto maior, o Mutrama – Música Tradicional Madeirense Revisitada, que “tem como principal objetivo dar a conhecer muitas canções madeirenses, que foram recolhidas durante anos pela associação Xarabanda, e que estão perdidas no tempo”, explicou, em entrevista à agência Lusa, o guitarrista André Santos, diretor artístico do projeto.

O interesse de André Santos pela música tradicional madeirense já vem de trás. O guitarrista, que nasceu na Madeira mas vive atualmente em Lisboa, fez a tese de mestrado do curso de Jazz, que completou em Amesterdão, sobre os cordofones madeirenses — rajão, braguinha e viola de arame. E acredita que foi por isso que o desafiaram a juntar-se a Mutrama.

O projeto divulga canções que foram passando de geração em geração. Em algumas recolhas da Xarabanda, “ouve-se as senhoras a dizer ‘eu aprendi esta música com a minha mãe’, senhoras com 80/90 anos, ‘e já estou a ensaiar as meninas há 40 anos’, que devem ser as filhas”.

O concerto no São Luiz é apenas uma das maneiras encontradas para divulgar os temas “que, até na Madeira, pouca gente conhece”. Além dos concertos — em julho aconteceu o primeiro, no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal -, os responsáveis pelo projeto decidiram “disponibilizar a música na Internet, parte do arquivo da Xarabanda, e fazer vídeos com as senhoras e os senhores que sabem estas canções a cantar”.

Dessa primeira escolha ficaram 20 temas, que André Santos voltava a ouvir já “pensando em arranjos, como podia fazê-lo hoje em dia”. “E muitas delas automaticamente sugeriram um intérprete, como a ‘Noite Serena’. Imediatamente pensei que o Salvador Sobral seria a pessoa perfeita [para essa canção]”, partilhou.

Dos dez temas que compõem o disco, André desconfia que “o público em geral na Madeira se calhar conheça uma”, a única que ele conhecia, “Mourisca”, “um dos géneros musicais mais tocados na Madeira, um tipo de música com várias letras sobre a mesma melodia, a mesma harmonia, tal como a ‘Bailinho da Madeira’, celebrizada pelo Max, que originalmente é cantada ao despique”.

Os temas escolhidos são originários de vários pontos da Ilha da Madeira: a “Pensação do Menino” é do Porto da Cruz, a “Noite Serena” é uma balada do Paul do Mar. “Nestas regiões, se calhar, as pessoas conhecem estas canções. No Funchal, por exemplo, eu nunca sequer tinha ouvido falar”, disse.

O tema “Pensação do Menino” começa com a voz de Beatriz Silva, captada nas recolhas em 2014, passando depois para Maria João. Em “Canção de Embalar”, ouve-se a voz de Rosa Alves, captada em 1972, com um instrumental gravado agora, e, em “Guerras de D.João”, a de Maria Jesus A. Santos, cuja recolha data de 1995.

A acompanhar as vozes, em todas as canções há um trio base, composto por André Santos (guitarra, viola de arame, rajão e braguinha), António Quintino (contrabaixo) e Joel Silva (bateria e percussões), ao qual se juntam, em alguns temas, Desidério Lázaro (saxofone soprano), Francisco Andrade (saxofone tenor) e Graciano Caldeira (braguinha).

“O trio base está sempre, e depois há um ‘entra e sai’ de convidados — Maria João, Mariana Camacho e Salvador Sobral nas vozes, há algumas canções com um ensemble de cordofones madeirenses, também usamos as recolhas antigas a passarem como ‘voz off’. Há músicas com saxofone, outras com saxofone e voz, assim uma mistura. No fim trazemos toda a gente ao palco e tocamos uma música todos juntos”, revelou.

Quanto ao futuro do projeto, André Santos adianta que “a ideia é continuar, não só a divulgar este primeiro disco, mas também, tendo em conta a variedade e o leque tão grande de recolhas já efetuado, fazer um volume dois, um volume três”.