Celebridades ausentes dos noticiários por falta de filmes, shows e jogos encontraram outra forma de se manter nas manchetes com doações milionárias e aparições em eventos para segmentos afetados pela pandemia. Mas se engana quem pensa que famosos são sempre assim generosos.

A vasta maioria das celebridades que criam fundações de caridade não usa o próprio dinheiro, explica Marc Pollick, que há 25 anos lidera a Giving Back Fund, uma organização pioneira que ajuda artistas e atletas a administrar suas ações filantrópicas. Um de seus primeiros clientes foi Britney Spears e hoje trabalha com mais de 100 nomes mundo afora, incluindo Pelé, a liga NFL, o jogador de basquete Yao Ming e a modelo Cara Delevingne.

“Os famosos em geral não doam. São os fãs que dão dinheiro e nem ficam sabendo que a celebridade de fato não doou nada”, disse Pollick à Folha, esclarecendo que ele só trabalha com gente que faça contribuições significativas do próprio bolso. “É verdade que elas conseguem arrecadar bastante dinheiro do público usando seus nomes e seu tempo e doá-lo a boas causas. Mas não é seu dinheiro e não julgo isso muito autêntico.”

Pollick disse que a Giving Back Fund, com sede em Los Angeles, triplicou de tamanho durante a pandemia. Porém, em duas décadas de trabalho, sente que fracassou em mudar o jeito como celebridades participam do jogo filantrópico. Ele chegou a criar uma lista anual dos 30 famosos mais generosos, mas só durou cinco anos.

“Paramos de fazer porque os números 25 a 30 eram constrangedores, com doações muito baixas”, disse, lembrando de outra ação fracassada, um calendário com os 12 artistas mais filantrópicos, em meados dos anos 2000. “Na segunda edição, não conseguimos achar 12 pessoas que haviam doado pelo menos US$ 1 milhão.”

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A pandemia desencadeou um renascimento filantrópico, e Pollick espera que a tendência continue. Os norte-americanos doaram a quantia recorde de US$ 471 bilhões em 2020, de acordo com um relatório da Giving USA Foundation, lançado com a Lilly Family School of Philanthropy, da Indiana University.

Madonna, criticada no início de 2020 por ignorar regras de distanciamento social, rapidamente se redimiu doando US$ 1 milhão para um grupo liderado por Bill Gates para desenvolver vacinas. Já Oprah Winfrey, líder das listas de celebridades mais generosas, distribuiu US$ 10 milhões entre diversas organizações, enquanto Rihanna, à frente da sua Clara Lionel Foundation, doou US$ 5 milhões para projetos nos EUA, Haiti e Malawi.

Entre modelos de filantropia, também está Angelina Jolie, que mudou sua imagem de atriz rebelde quando passou a se dedicar aos refugiados, Elton John, considerado exemplo ao abraçar a luta contra Aids, e Leonardo DeCaprio, atuante na defesa do meio ambiente.

Para o professor de relações públicas Leslie Lenkowsky, da Lilly Family School of Philanthropy, os famosos ficaram mais sofisticados em suas ações beneficentes nos últimos 15 anos. “Eles pensam mais estrategicamente, empregam consultores, ao contrário do passado, quando doavam apenas para melhor sua imagem pública”, disse Lenkowsky. “Se é algo sincero, não dá para saber. Mas eles querem ver seus dólares gerando resultados concretos.”

E, claro, há as vantagens fiscais. “Doar dinheiro é uma espécie de paraíso fiscal. Você não tem o dinheiro de volta, mas reduz o valor que paga em impostos. Isso também influencia”, disse.

Para Lars Perner, professor de marketing da University of Southern California, a sensação de que celebridades estão mais generosas é falsa. “É que as mídias sociais trazem mais oportunidades de publicidade em cima das doações”, acredita Perner.

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