RIBEIRÃO PRETO — As ruas de Ribeirão Preto, cidade com 711 mil habitantes no interior de São Paulo, passaram os últimos cinco dias praticamente desertas. Fora postos de gasolina e farmácias, todos os demais estabelecimentos comerciais ficaram fechados durante o primeiro lockdown de fato vivido pela cidade, de quarta-feira até hoje. Até o transporte público parou na tentativa de frear o aumento da ocupação de leitos de UTI no município, que se manteve em 95% durante a semana.

O GLOBO passou dois dias no município e pode ver que o movimento de pedestres nas ruas foi mínimo. Quem precisou fazer compras no período, teve que percorrer cerca de 25 quilômetros até um município vizinho. Com os ônibus parados nas garagens, trabalhadores de serviços essenciais ou dos restaurantes, que puderam funcionar em esquema de delivery, recorreram a caronas. Apesar disso, médicos da região esperavam que a medida durasse mais dias.

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Rodrigo Adão, dono de dois restaurantes, já vinha operando apenas com entregas desde o início de março devido a restrições do governo estadual, mas não conseguiu fazer o estoque durar até o fim do lockdown e precisou correr, anteontem, até a cidade vizinha de Serrana.

— Os fornecedores não estão entregando, e estávamos com os estoques baixos para evitar perdas. Precisei vir aqui, mas preferiria estar em casa. Acho que a vida das pessoas é mais importante — disse.

Com o comércio fechado em Ribeirão, o movimento no supermercado onde Adão fez suas compras subiu 10%. Para garantir a chegada dos funcionários ao seu negócio, ele deu carona para três pessoas que moram em Serrana e pagou corridas de aplicativos de transporte para outras.

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A farmacêutica Maitê Assis usou seu carro para ir à farmácia, um dos poucos comércios abertos na cidade na última quinta-feira. Embora apoie as medidas restritivas, ela acha que a prefeitura deveria ter dado um tempo para as pessoas se prepararem:

— Tenho carro, mas tem colegas que precisaram vir de outras cidades e tiveram dificuldade sem transporte público — afirmou.

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A decisão do prefeito Duarte Nogueira (PSDB) foi anunciada na última terça-feira e passou a vigorar no dia seguinte. Antes de fazer o anúncio, ele ligou para prefeitos da região exortando que eles tomassem as mesmas medidas. Foi atendido por 11 deles, mas alguns vizinhos, como Serrana mantiveram mercados abertos. Um mês antes de decretar o lockdown, Nogueira chegou a descumprir medida restritiva do governo estadual, que já proibia o atendimento presencial em bares e restaurantes e o funcionamento de academias e estabelecimentos comerciais.

— Agora, a decisão foi tomada em virtude do aumento rápido da taxa de ocupação de leitos no último fim de semana (de 84% para mais de 95%). O sistema está quase em colapso, foi inevitável — disse.

Outro que mudou de ideia foi o presidente da Associação Comercial e Industrial, Dorival Balbino, que passou nove dias internado por Covid-19.

— Em outras ocasiões, critiquei o prefeito e o governador (João Doria) porque achava que não era o mais adequado, mas agora o momento é grave, não queremos gente morrendo na fila por um leito — disse Balbino. — Passei nove dias no hospital, dois deles na UTI. Eu entendo quem quer reabrir o comércio, mas agora é esperar para abrir ou correr o risco de morrer.

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Renato Munhoz, presidente da associação de restaurantes de Ribeirão Preto, por outro lado, é crítico do lockdown que, segundo ele, penaliza bares que seguem protocolos de higiene e segurança que garantiriam um consumo seguro:

— Se ficarmos fechados, os governos municipal, estadual e federal precisam amparar o setor, dar isenções de impostos e carência para pagamento de dívidas.

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Outro contrário ao decreto é o porteiro Osvaldo de Cico, 68 anos, que a reportagem encontrou sem máscara no centro da cidade na última quinta-feira. Em sua maioria, as poucas pessoas que saíram na rua estavam com máscaras.

— Só uso (a máscara) no trabalho porque é obrigatório, mas na rua, não —afirmou Osvaldo, que diz ter bronquite e estar acima do peso.

Sem leitos

Se adoecesse, ele teria dificuldade para conseguir leito de UTI. No Hospital das Clínicas da USP, principal da rede pública na cidade, todos os 69 leitos disponíveis estavam ocupados anteontem. O superintendente do hospital, Benedito Maciel, diz que, embora a unidade busque ampliar os leitos, tem dificuldade para contratar profissionais.

—  Há limitações de infraestrutura às vezes, mas o fundamental é gente.O atendimento de Covid exige profissionais específicos que não encontramos com facilidade. Há uma competição pelos poucos que existem — afirma.

Além disso, o prazo de internação médio na unidade, que variava de 12 a 14 dias no início da pandemia, agora é de 20 a 30 dias, segundo Maciel. Para os médicos do hospital, isso ocorre devido ao aumento da internação de jovens, que são mais resistentes à doença. Para Maciel, os cinco dias de lockdown não devem ser suficientes para desafogar o sistema de saúde.

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— A experiência internacional mostra que o lockdown é eficaz para frear a transmissão da doença, mas tem efeitos mais significativos (no sistema de saúde) após 15 dias.

Onze médicos intensivistas se revezam para cuidar dos pacientes com coronavírus. Os profissionais chegam a dobrar plantões e trabalham no limite, segundo a médica Kátia Cordeiro, no hospital desde 2004.

— Já estamos doentes, muitos têm burnout ou outros problemas relacionados ao trabalho excessivo, mas não paramos porque agora não é possível.

Naquele dia, apenas um paciente tinha mais de 70 anos. Em sua maioria, os internados tinham menos de 50. Quase todos precisaram ser intubados. Mesmo quem sobrevive sai, na maioria das vezes, com sequelas.

— O vírus causa uma inflamação nos tecidos musculares, por exemplo, e muitos saem da UTI com problemas motores, sem andar ou se movimentar direito. Quem sai de casa sem necessidade deveria passar um dia aqui. Provavelmente mudaria de ideia — diz ela.

Favorável ao lockdown, a médica conta que os casos têm chegado ao hospital mais graves do que no início da pandemia, às vezes agravado pelo uso indevido de medicamentos comprovadamente ineficazes.

— Já perdi uma paciente que chegou aqui após ter tomado o vermífugo ivermectina por sete dias, o que comprometeu seus rins.

O enfermeiro Cristiano Gimenez, de 28 anos, entrou no hospital há um ano, precisamente quando começou a pandemia. Recebe R$ 2.500 por mês com os plantões extras que faz.

— Meu maior aprendizado é fora do hospital, vendo o que a sociedade poderia fazer para desafogar o sistema e não faz — diz ele.

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