Quem passasse pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo no início de 2001 veria cenas que hoje parecem inusitadas.

Comitivas de políticos, celebridades e anônimos chegavam a todo o momento para visitar um internado ilustre, o então governador licenciado de São Paulo, Mário Covas (PSDB). Eram seguidos de perto por dezenas de jornalistas que passavam os dias sentados nos corredores do hospital, em cadeiras ou no chão, atrapalhando o fluxo de visitantes, pacientes e funcionários.

A fase final do câncer que vitimou Mário Covas, exatos 20 anos antes da doença de seu neto, Bruno, foi um evento político e de mídia possível apenas pela decisão inédita do então governador de dar transparência total a seu drama.

Diariamente, nos períodos em que o governador ficou internado, boletins médicos eram divulgados rigorosamente ao meio-dia, muitas vezes seguidos por entrevistas coletivas capitaneadas pelo mesmo David Uip que cuidaria do câncer do neto prefeito.

Numa era anterior às redes sociais, era a folha de papel que contava, distribuída aos repórteres com a atualização da situação do paciente. Em geral, começava com “o governador Mário Covas mantém estado clínico geral de instabilidade”, ou pequenas variações.

Sem que houvesse Twitter, era preciso ir pessoalmente ao Incor escrever uma mensagem de apoio num papel e colocá-lo numa urna.

Assim, as horas eram um interminável cortejo de visitantes, de aliados tucanos a adversários históricos como Paulo Maluf e Luiz Inácio Lula da Silva. Também apareciam celebridades, da atriz Dercy Gonçalves ao pugilista Maguila. Cada um que despontava na entrada do prédio atraía uma esbaforida aglomeração da imprensa.

Alguns não se contentavam em desejar boa sorte ao enfermo e falavam sobre política ali mesmo, o que apenas justificava ainda mais o acampamento jornalístico.

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Foi numa dessas visitas, por exemplo, que o então presidente do PMDB, Jader Barbalho, descartou uma candidatura presidencial do colega de partido Itamar Franco em 2002, um fato que mexeu com o tabuleiro sucessório.

Os plantões jornalísticos eram 24 horas, um sacrifício que se mostraria acertado na manhã de 6 de março de 2001, quando a morte de Covas foi anunciada pouco antes das 6h da manhã –em um boletim impresso distribuído aos sonolentos plantonistas, claro.

A agonia final do governador já se anunciava havia algum tempo, com um grau de franqueza que hoje parece até um pouco exagerado.

Dias antes da morte, Uip e os outros médicos já deixavam claro que não havia mais esperança, dando detalhes cada vez mais desanimadores da situação do paciente. O então arcebispo dom Paulo Evaristo Arns foi ao hospital dar a unção dos enfermos a Covas uma semana antes de seu último suspiro, sem nenhuma tentativa de tergiversação. Transparência total era o que o governador queria, afinal.

A morte elevou o status de outro personagem que nas décadas seguintes dominaria a política do estado. Ainda um tanto desconhecido da população, Geraldo Alckmin pegaria o manto de Covas num rápido discurso em voz baixa no salão nobre do Palácio dos Bandeirantes, ao lado do corpo velado. “O governo Mário Covas continua em seus valores e em seus princípios”, balbuciou.

O traslado do corpo até Santos, onde ocorreu o enterro, foi uma procissão pela rodovia dos Imigrantes, com a imprensa tentando driblar as barreiras criadas pela polícia.

Na cidade litorânea, o pequeno cemitério de Paquetá não comportou o contingente de políticos, jornalistas e admiradores que foram ver o funeral, obrigando veículos de comunicação a improvisar.

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A Folha, por exemplo, viu-se obrigada a alugar o salão de um motel no meio da degrada zona portuária, ao lado do cemitério, e improvisou como Redação.

De lá, com apenas uma luz néon púrpura iluminando os laptops, seis jornalistas, entre os quais este repórter, além do inesquecível Clóvis Rossi, enviaram seus relatos sobre o fim da trajetória de um homem que redefiniu a cobertura política até em sua morte.

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