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Festival de Berlim dá início à 70ª edição

BERLIM – Luz, câmera, ação! Berlim estendeu nesta quinta, 20, o tapete vermelho para sediar a 70ª edição da Berlinale. O festival deste ano acolhe um recorde de filmes brasileiros – são 19, entre curtas e longa, distribuídos por todas as seções, incluindo a competição, da qual participa Todos os Mortos, de Marco Dutra e Caetano Gotardo. Tida essa celebração do Brasil vem acompanhada pela presença de Kleber Mendonça Filho no júri presidido por Jeremy Irons. Perante a imprensa mundial, o autor de Aquarius e coautor de Bacurau foi solicitado a analisar o atual momento do cinema brasileiro. Kleber falou genericamente, Lamentou o desmonte não só do cinema, mas da cultura, pelo atual governo.

E veio o filme de abertura – My Salinger Year, de Philippe Falardeau, passa fora de concurso, numa Berlinale Special Gala. Baseia-se no livro autobiográfico de Joanna Rakoff, em que ela lembra como chegou a Nova York, em 1996, aos 23 anos, com a aspiração de tonar-se escritora. Seu primeiro emprego – como assistente, numa editora de prestígio. Sua função – escrever as numerosas cartas que fãs de J.D. Salinger, o escritor mais famoso da casa, endereçam à editora. Parece que vai ser uma daquelas histórias sobre garota talentosa que sofre o diabo na mão de uma megera – a editora sênior interpretada por Sigourney Weaver. Não é por aí. Apesar de todas as cabeçadas que Joanna dá na vida e no trabalho – como envolvimentos amorosos e também com os passionais tietes de ‘Jerry’, como Salinger é referido internamente na editora -, o filme narra uma ‘feel good story’ de crescimento individual.

Margaret Qualley, que faz o papel, é ótima; Sigourney, nem se fala. A autora, Joanna Rakoff, tem cargo de produção executiva. Simpático como é, o filme deixa-se ver, mas num festival que se pretende autoral – o novo curador, Carlo Chatrian, veio da seleção de Locarno -, não é páreo para o Jia Zhjangke. Swimming Out till The Sea Turns Blue é um belíssimo documentário do cineasta que tem sido um cronista das transformações corridas na China, nas últimas décadas. Jia deixa de lado a ficção, e sua filiação ao cinema de gênero. Escolhe personagens que remetem às três últimas gerações, desde a grande fome do final dos anos1940 até a atualidade. Os camponeses que tiveram de resolver unidos o problema da alcalinidade do solo na região em que vivia a família de Jia. Pobreza e trabalho duro.

Histórias de renúncia, de sacrifício. Da geração de agricultores surgiu outra, de intelectuais. Escritores que narraram, inclusive, a dureza da luta pela terra. De fundo, a Revolução Cultural, a camarilha dos quatro, a entrada da China na economia de mercado. A nova geração que agora desfruta das benesses de um país rico, mas que se distancia das suas origens – a mãe do garoto, escritora pertencente à geração intermediária, exorta o filho a retomar o dialeto nativo. A lição chinesa, segundo Jia. Desenvolvimento com afeto e valorização da cultura. Ao gênero, o diretor superpõe agora a ópera, desde a ópera popular chinesa até expoentes da ópera ocidental. Um filme em capítulos – Pai, Mãe, Amor, Colheita, Irmã, etc. Ainda é cedo para, com dois filmes, pensar aonde irá esse festival. O Jia, em todo caso, promete o infinito.

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