Pode até ser que o filme não tenha hoje o impacto de quase 60 anos atrás, mas quem viu A Balada do Soldado, quando o longa de Grigori Tchoukrai estreou no Brasil, em 1959/60, com certeza nunca conseguiu esquecer a impactante cena inicial. Em plena 2.ª Guerra, um soldado do Exército soviético é perseguido por um tanque dos nazistas, que consegue destruir. A questão é como destrói, e como Tchoukrai filma a cena, posicionando a câmera para que o soldado e o tanque passem sobre ela, invertendo a imagem até o explosivo desfecho.

Não era só um tour de force técnico. Era algo mais, um assombro estético que Anselmo Duarte reproduziu dois anos mais tarde, quando a multidão carrega Zé do Burro na cruz e invade a igreja no desfecho de O Pagador de Promessas, único filme brasileiro a vencer a Palma de Ouro de longa, em Cannes. A Balada do Soldado fez história. Permanece como uma das obras emblemáticas do chamado degelo, quando Nikita Kruchev assumiu o poder na (então) URSS e o congresso do Partido Comunista denunciou os crimes de Josef Stalin contra a humanidade. Tchoukrai já denunciara os crimes do stalinismo em O 41.º. Com A Balada, insurgiu-se contra o realismo socialista que marcara a era Stalin e humanizou o herói.

Pois o soldado, vencido o tanque, vira herói e, como tal, ganha uma licença para visitar a mãe. No trem, conhece uma garota, e descobre… O amor? A cena do (des)encontro com a mãe é pungente. Uma corrida através do campo, evocando o lirismo do grande Dovjenko, mestre do período de ouro, nos anos 1920. A Balada do Soldado inaugura nesta quarta, 4, o 6.º Festival Mosfilm de Cinema Russo e Soviético, que tem copatrocínio do CPC/Umes, Centro Popular de Cultura da União Municipal de Estudantes Secundaristas de São Paulo. Durante oito dias, até 11, serão exibidos 12 filmes em 29 sessões. O evento traz obras restauradas – além do filme de Tchoukrai, também Stalker, do prestigiado Andrei Tarkovski, e A Prisioneira do Cáucaso, comédia de Leonid Gayday que fez sucesso de público e crítica em 1966. Todos os longas terão pelo menos duas sessões cada um, no Espaço Itaú da Augusta e no circuito Spcine, a preços populares.

Integram o evento a exposição As Matrioskas, de 5 a 8, com obras da artista Nadia Starikoff, inspiradas na tradição das bonecas russas, e um festival de comidas e artesanato, dia 7, ambos na Galeria Olido, no centro de São Paulo. Como guia para aprofundar o que já é digno de toda atenção, o cinéfilo dispõe de um livro lançado durante a Mostra, em outubro, Cinema para Russos e Soviéticos, de João Lanari Bo, da Editora Bazar do Tempo, mapeia a produção na Rússia desde os grande autores revolucionários da década de 1920 até a derrocada do império soviético, com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Os títulos, Comunista, Rapaziada, Volga-Volga, Eles Lutaram pela Pátria sinalizam para um cinema na contracorrente do pensamento de direita.

Ficção científica ou fábula filosófica, Stalker marca a segunda incursão de Tarkovski pelo gênero futurista, após Solaris. Três viajantes do futuro atravessam zona proibida e encontram mundo em que as fantasias viram realidade. Como quase toda obra do autor, foi considerado hermético e difícil. O culto a Tarkovski não cessa de aumentar, e ele é considerado um gênio massacrado pela intransigência da burocracia do regime comunista. A Prisioneira tem outro tom. Um pesquisador de folclore apaixona-se por garota que está prometida a poderoso do Cáucaso, que a sequestra. Conseguirá o amor sobrepor-se à violência? Eram anos de dirigismo e reserva de mercado no cinema da URSS. Mesmo assim, surpreende que o filme tenha ultrapassado estratosféricos 76 milhões de espectadores.

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