“Os filmes ainda dependem das salas de cinema para fazerem sucesso.”, declarou Luiz Gonzaga de Luca, representante da Cinépolis, durante painel no Gramado Film Market nesta quarta-feira, 22. Ele e os representantes das redes de salas de exibição Adhemar Oliveira,do Itaú Cinemas, e Ricardo Difini Leite, da GNC Cinemas, se reuniram em Gramado para debater sobre o futuro desse mercado.

Analisando a possível queda do público de cinema no Brasil e no mundo por conta do aumento das plataformas de VOD, os executivos concordaram que o cinema ainda se diferencia por dois fatores em especial: a excelência da exibição, que é diferente da experiência que as pessoas têm em casa, e as tecnologias, que ainda são de qualidade superior em relação aos televisores, celulares e demais dispositivos utilizados para assistir a filmes. Isso significa que, para eles, por mais que a audiência possa diminuir, a tradição de ir ao cinema não vai acabar.

“O próprio VOD depende do cinema.”, opinou Gonzaga. “O que desperta o interesse do público por determinado filme é o sucesso que ele fez nas salas de cinema. Isso é tão real que a própria Netflix tentou estabelecer parcerias para lançar seus originais no cinema, mas as negociações não foram para frente. A Amazon também está trabalhando nesse sentido.”, contou, dizendo que lançar um filme no cinema é, inclusive, a forma mais barata de transformá-lo em sucesso. Gonzaga ainda brincou e comparou a importância das salas exibidoras com a dos desfiles de alta costura para o mundo da moda. Ambos seriam janelas de criar e apresentar tendências, segundo o executivo.

Apesar da posição otimista, ele reconhece a deficiência brasileira em termos de número de salas. “Nos anos 70, nós tínhamos uma sala para 30 mil habitantes. Para mantermos essa relação, deveríamos ter, hoje, cerca de oito mil salas.”, calculou. De acordo com dados apresentados por Ricardo Leite, da GNC, o número atual é de cerca de 3200. “É um número alto se comparado aos anos 90. Em 1995, por exemplo, eram 1033 salas. Mas quando comparamos ao volume de pessoas no Brasil ele fica muito pequeno.”, pontuou Leite. Para Gonzaga, na verdade, o cenário ideal, considerando público e até questões de mercado de trabalho, seria de um país com de 12 a 15 mil salas. “Mas, infelizmente, não temos nenhum tipo de política direcionada a abertura de salas.”, criticou o representante da Cinépolis. “Não há aumento de economia que não envolva mudanças nos pontos de venda. No caso do nosso mercado, nas salas de cinema. É isso que gera mercado.”, avaliou.

Além de aumentar o número de salas, Gonzaga reconhece que é necessário também investir na qualidade das mesmas. “O Estados Unidos é o único país que está crescendo neste mercado e, ao meu ver, um dos fatores que contribuem para isso é o investimento que eles fazem na experiência do público. Recentemente, os circuitos de salas norte-americanos trocaram as poltronas por opções que custam até dois mil dólares. E fizeram isso sem mexer no preço do ingresso.”, relatou.

Para Adhemar Oliveira, do Itaú Cinemas, é óbvio que o fator da crise econômica interfere na queda de público brasileiro nos cinemas. “Mas esse não é o ponto principal. A revolução tecnológica colocou o consumidor como protagonista na condução dos caminhos do mercado audiovisual e, agora, é esse novo consumidor que deve ser atendido.”, observou. Oliveira disse ainda que estamos presenciando uma mudança no modo de vida em diversos âmbitos e que, no fundo, ninguém sabe para onde estamos andando ou o que está por vir lá na frente. “Apesar disso, acredito que tradições culturais, como o cinema e o teatro, irão permanecer.”, declarou.

Por fim, o representante do Itaú Cinemas adiantou uma tendência: “Acredito que as redes de cinema, futuramente, terão suas próprias plataformas, que funcionarão com sistema de assinaturas e, entre outras ações, oferecerão a possibilidade de pagar pelos filmes para vê-los em casa.”. (*A jornalista viajou a convite do evento)