Muitos filmes brasileiros têm abordado a temática do direito à moradia. Em “Aquarius” (2016), de Kléber Mendonça Filho, Clara (Sônia Braga) recusa-se a sair do prédio no qual vive há vários anos para que seja construído um novo empreendimento imobiliário do jovem engenheiro Diego (Humberto Carrão). O longa que abriu o festival na 44º edição dá o início a uma discussão que tem atingindo, principalmente, as classes mais pobres do Brasil.

A ameaça de despejo em cima de comunidades carentes tem assombrado diversas pessoas que não tem onde morar. Este é um dos ganchos do curta-metragem “Estamos Todos Aqui”, de Chico Santos e Rafael Mellim, exibido nessa quarta-feira na Mostra Competitiva de Curtas no 46º Festival de Cinema de Gramado. O filme mostra Rosa (Rosa Luz) após ser expulsa de casa por causa da sua transexualidade, precisa encontrar um lugar para montar o seu barraco. O cenário escolhido é o Porto de Santos, Favela da Prainha – litoral sul de São Paulo, que passa por um processo expansão da zona portuária avança em direção aos moradores do local.

O diretor do curta, Chico Santos, relatou que questões de moradia atingem todas as classes sociais, entretanto, a base desta pirâmide social é quem sofre mais. “O sistema que o mercado imobiliário produz uma desestrutura do capital e nos oferece uma sociedade desigual. A questão da moradia é central. Então tem que ser o papel do cinema em não deixar de falar sobre isso. Tem que estar nestes lugares”, comentou. Para Rafael Mellim, o cinema vive um momento de democratização onde uma câmera, por menor que ela seja, ajuda a registrar estas discussões. “Isso não aconteceria antes. As pessoas estão saindo de uma certa apatia, porque agora estão assustadas.Tem uma sombra de fascismo encostando na gente. O cinema não está descolado da vida neste sentido. É uma expressão para juntar forças”, disse.

Em “Mormaço”, o tema central do filme também é sobre remoção de pessoas da Vila Autódromo para projetos voltados para Olimpíadas 2016. Uma das atrizes do filme foi moradora da região. Sandra Maria, acredita que o cinema é importante no sentido de denúncia destes problemas sociais. “O processo da construção urbana de uma cidade é muito cruel. Não existe uma política de habitação desde a formação. O ser humano tem mínimo direito a um espaço, a moradia. O cinema imortaliza as questões e ter isto documentado é muito importante”, disse Sandra.