A era da conexão digital: dados, informações e dinheiro se multiplicam (MarsYu/Getty Images)

A Mosaico fez história em sua estreia no pregão da B3. O valor da companhia praticamente dobrou, em oito horas de negociação. A ação subiu 97% em relação ao preço pago na oferta pública inicial (IPO), que já era o teto do intervalo de preços sugeridos para a operação — que movimentou R$ 1,2 bilhão, entre emissão primária e venda secundária.

Pela manhã, a companhia chegou à bolsa avaliada em R$ 2,5 bilhões e terminou o dia valendo R$ 4,94 bilhões. O desempenho, podem dizer, foi reflexo do tamanho do livro de ofertas, que alcançou 20 vezes o total disponível para venda — ou seja, mais ou menos R$ 20 bilhões. A procura pelas ações foi tal que algumas casas, de maneira inédita no Brasil, mas comum nos Estados Unidos, chegaram a ficar sem nada. “Era isso ou alocar R$ 50 mil para quem pediu R$ 50 milhões. Não tinha o menor sentido”, disse uma fonte próxima à transação.

Mas, apesar de surpreendente e explosiva a reação da ação na bolsa na estreia, os motivos para isso são uma das mais velhas lições da economia, nenhuma modernidade. Ainda que todos tentem mostrar como o mundo de uma hora para a outra entendeu o valor da tecnologia e da vida digital. Essa é sim uma parte da verdade. Mas não toda. Ou, pelo menos, não todas as suas faces.

Foi ainda no século XVIII que Adam Smith organizou, no que ficou conhecido como lei da oferta e da procura, o comportamento de preço e quantidade dos mercados. Não importa de que: de tulipas, a trens ou ao que há de mais moderno em tecnologia. Nada explica tão bem as notícias das últimas semanas.

E o pregão desta sexta-feira foi a mão invisível carregando o preço para um ponto de equilíbrio com a procura. Ajuda a compreender o desempenho saber que metade da “super demanda” da operação veio do varejo. Um volume quase escandaloso para os padrões tradicionais. Saber se os valores são sustentáveis são outros quinhentos. E, de verdade, ainda ninguém sabe.

Para os bilhões que não foram alocados em Mosaico, dona dos sites Zoom, Buscapé, Bondfaro, uma informação preciosa: na próxima semana tem os IPOs de Westwing, o e-commerce de móveis e decoração, e Bemobi, empresa de aplicativos de games e serviços, para aparelhos móveis.

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Mais do que isso: a lista de empresas digitais ou techs que farão IPO ao longo de 2021 já tem mais de 20 nomes. E estamos falando aqui de companhias que já deram mandato aos bancos, não daquelas que estão pensando “que bom seria se”. O desempenho da Mosaico certamente vai encorajar as que estavam mais reticentes. “Tem de tudo para vir. Healthec, software as service, meio de pagamentos e tudo mais que se possa imaginar.”

“As ofertas de Méliuz e Enjoei realmente inauguraram um novo paradigma de mercado no Brasil”, comenta um porta-voz de um dos bancos de investimento dessas transações. “Locaweb já havia sido um marco, só que a pandemia impediu que o movimento tivesse sequência imediata, ainda que o interesse já existisse desde então. O que ocorreu de lá para cá é que o valor de tudo que é digital se multiplicou”, disse outro profissional de banco.

Quando esses “banqueiros” falavam, ainda em outubro de 2020, que este ano seria da era digital na bolsa, não faltaram céticos para duvidar. O começo do ano, por enquanto, confirma as previsões.

Embora a Mosaico seja o caso que que mais chame atenção, os sinais estavam por aí, em todo canto. A Locaweb, que estreou em fevereiro de 2020 avaliada em R$ 2,6 bilhões na B3, e na sexta-feira, dia 5, terminou o dia em R$ 15,2 bilhões é produto da mesma realidade: em um ano, um salto de 490%.

Méliuz, por sua vez, viu seu valor sair de R$ 1,26 bilhão para R$ 4,3 bilhões em menos de três meses. Por fim, Enjoei praticamente dobrou de valor desde a listagem, a R$ 2 bilhões.

Essas quatro companhias citadas, por enquanto, são tudo que a B3 tem de tecnologia e digital a oferecer aos investidores. Para se ter uma ideia do quão envelhecida estava (está) a bolsa brasileira, cabe aqui uma comparação rápida: a mineradora Vale e a estatal petroleira Petrobras respondem por 22% do Índice Bovespa, enquanto as FAAMG (Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google) são praticamente 25% do S&P 500.

Não é por acaso que durante a pandemia, quando a sanha tech se traduziu em fluxo financeiro também por aqui, a Magazine Luiza foi eleita o benchmark de tecnologia, por sua força em comércio eletrônico. Essa posição privilegiada levou a empresa a mais do que dobrar de valor em 2020, para R$ 165 bilhões. Aliás, cabe reparar que desde que as tech chegaram e os IPOs digitais fazem fila, a alta desenfreada de Magalu cessou.

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Por isso, não é nada espantoso saber que os grandes compradores dessas operações são locais: do varejo a grandes fundos brasileiros. Em Mosaico, Constellation e JGP se destacaram, em Enjoei, por exemplo, foi SPX.  Afinal, em termos de exposição setorial, investidores e carteiras estão descolados do resto do mundo. E empresas digitais têm de sobra lá fora.

É bom que se explique o que um desses nomões de uma das mais tradicionais gestoras do mercado, focada em fundamentos, respondeu quando questionado se não era arriscado demais investir em startups: “Para o meu tamanho, de jeito nenhum.”

Para compreender melhor,  é preciso olhar de novo para Petrobras e Vale. Juntas, elas valem mais de R$ 850 bilhões. Quando somadas as quatro techs brasileiras com seus valores de IPO, não chegam a R$ 8,5 bilhões. Mesmo que façam “grandes ordens” para as ofertas dessas empresas, o valor comprado não chega a fazer cocégas para os grandes fundos.

Se os valores se multiplicarem, sim, é possível que alegrem um pouco o desempenho da carteira, mas se o resultado for prejuízo, o impacto é bastante limitado, por enquanto. É por isso, que as startups brasileiras decidiram, de repente, pular novas rodadas com venture capital e seus hábitos de espremer o valor para ir pescar em uma piscina muito maior. Até agora, em uma linguagem já mais século XXI, o que se vê é uma escassez de ativos na bolsa. E a simplicidade das explicações de Smith para os preços ainda cabem perfeitamente.

E parece que tem negócio para todo mundo: os investimentos dos fundos de venture capital superaram os de private equity em 2020 pela primeira vez. Foram R$ 14,6 bilhões em transações realizadas no ano passado contra R$ 9,1 bilhões, de acordo com estudo realizado pela Associação Brasileira de Venture Capital e Private Equity (ABVCAP). Para o desenvolvimento da indústria de capital de risco no país, encontrar na B3 uma saída é uma ótima notícia.

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Inovação de verdade

Apesar do ânimo dos investidores com das techs brasileiras, os mais críticos — e mesmo os compradores mais animados — sabem que as empresas estreantes ainda não são as tais “deep techs”, que carregam ciência, inovação e muita inteligência. Por aqui, a era digital ainda está muito concentrada na tecnologia de dados do “match”, juntar oferta e demanda de maneira mais eficiente.

A operação da Mosaico, já é fato, deixou as próximas operações mais caras. Afinal, ficou bem claro que há mais demanda do que oferta. Bom para quem vende, mais desafiador para quem compra. Em especial em um mundo que já ficou démodé pensar na relação de preço com lucro (que lucro?). Agora, o cálculo é sobre a receita, pois o que se compra com startups é crescimento acelerado.

Tem gente que olha e diz que é bolha, que as techs são as novas tulipas. Mas tem muitos que dizem ser o começo — e só o começo, mesmo — de uma revolução e que há muito mais por vir. E mais: que, no futuro, quem não for empreendedor da tecnologia, será certamente investidor.

Um teste importante para a saúde de todo esse ecossistema novato por aqui será ver o desempenho dessas companhias depois de, de repente, estarem nadando em dinheiro. “Vai ser interessante saber se depois de ricas essas empresas continuam sendo boas em selecionar projetos merecedores de recursos. É comum que uma parte do sucesso da startup esteja relacionado ao esforço e à criatividade de fazer mais com menos”, comentou um investidor disposto a pagar o preço da curiosidade.

É um futuro em formação. O pessoal está animado: a meta é modernizar a cara da B3 e do Ibovespa nos próximos cinco anos. O dinheiro vai para onde o consumidor está indo. Aliás, de invenção mesmo, a tecnologia trouxe uma novidade ao mercado: o investidor-consumidor. Mas essa é outra pauta.

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