No quinto álbum de estúdio, Tente enxergar (HBB Records), o Ultramen confronta e combina diferentes visões de mundo ao longo das 12 músicas que compõem o repertório do disco produzido por Glauco Minossi com o aval dos músicos dessa banda gaúcha reagrupada em 2013 após cinco anos de hiato.

Há abismo fundo entre o horror do sangue derramado no hardcore Hedonistas hediondos e o alto astral que molda Felicidade espacial, soul-disco apresentado em single editado em maio de 2017. Mas é desse contraste que se alimentam Tonho Crocco (voz e guitarra), Pedro Porto (baixo e guitarra), Malásia (percussão), Leonardo Boff (teclados), DJ Anderson (scratches) e Zé Darcy (bateria) na criação deste disco construído com mix azeitado de reggae, raggamuffin, rock e soul.

Com capa que expõe arte do designer Leo Lage, Tente enxergar é o primeiro álbum do Ultramen após a volta em 2013. É um álbum que tem frescor ao mesmo tempo em que recicla a mistura já ouvida na trajetória fonográfica sintetizada no DVD Máquina do tempo, editado em 2016 com registro de show captado em 2008 – ano em que a banda entrou em recesso – ao qual foi adicionada a primeira música inédita do Ultramen após o retorno, Robot baby.

Em Pineal, a banda se banha na praia do reggae em mergulho que soa mais fundo na música-título do álbum, Tente enxergar, híbrido de reggae e raggamuffin apresentado em single editado em outubro de 2017. Vertente jamaicana do rap, o raggamuffin dá o tom da faixa seguinte, Fala por ti.

Só que, à medida que o álbum avança, Tente enxergar incorpora outros sons e ritmos, ganhando pegada roqueira em O chaveiro – música que abre porta para a abordagem da desilusão amorosa a partir de analogia que versa sobre coração trancado com cadeado por conta de decepção – e groove black em A humanidade, faixa que evoca o som de Ed Motta em tempos idos.