Diniz deve desculpas em público | entre as canetas

Tenho enorme respeito profissional pelo técnico Fernando Diniz. Tenho enorme admiração por sua criatividade. Não de agora, no São Paulo. Não dos tempos de Athletico-PR, ou do Fluminense. De bem antes. De quando ele comandava o modesto Osasco Audax, com Tchê Tchê o ajudando em campo, e fui a Jundiaí comentar um jogo para o Sportv pelo Estadual. E fiquei boquiaberto quando vi o Paulista ser envolvido por uma saída de jogo revolucionária do adversário – que viria a ser a base de uma proposta de jogo, que daqui a 20 anos será comum e que dará a Diniz um lugar na história por ter sido ele, não o inventor da saída de bola com toques, mas quem primeiro a executou no Brasil sistematicamente.

Diniz dá bronca em Tchê Tchê

Além disso, tenho admiração especial por Diniz, pelo fato de abrir mão de resultados se for preciso, além de aguentar pancadas de jornalistas conservadores, em nome de treinar e executar um tipo de jogo até que ele seja executado de maneira perfeita e perene. Sempre gostei muito de ouvir as entrevistas de Diniz, por sua articulação, inteligência e sinceridade, a despeito da notória impaciência com abordagens superficiais que volta e meia alguns colegas meus de profissão empregam.

Isto posto, para contextualizar bem, não tenho nenhuma dúvida que Diniz cometeu um erro gravíssimo na maneira como se dirigiu a Tchê Tchê contra o Bragantino. O que alegam os defensores de Diniz? Primeiro, que no calor do jogo vale tudo. Não vale mais. Houve um tempo, sim, em que se aceitava e até incentivava, por exemplo, que no intuito de desestabilizar o adversário e até provocar sua expulsão o jogador, o treinador e o torcedor pudesse se valer de ofensas racistas, homofóbicas ou xenófobas. Hoje, se o árbitro perceber qualquer coisa parecida com isso, o jogo é interrompido. Se o quarto árbitro identifica alguém por sua cor, os times saem de campo. Sem discussão.

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Também já li que “Diniz é assim mesmo”, que haveria um acordo tácito com os jogadores, que entendem seu jeito agressivo. Essa foi a justificativa, entre outras coisas, para que fossem toleradas desde sempre agressões de homens a mulheres, porque “ele é assim mesmo”. Houve muitas vítimas que acabavam também passando a pensar que podiam apanhar porque “ele é assim, mas ele me ama”. Ninguém “é” assim, até porque se Diniz “fosse” assim seria um ser humano desprezível.

Por que entendo que, se quisesse, Tchê Tchê poderia processar seu chefe por assédio moral? Primeiro, vamos à definição dessa situação, segundo o site guiatrabalhista.com.br: “É o ato de expor o empregado a situações humilhantes (como xingamentos em frente dos outros empregados), (…) agir com rigor excessivo ou colocar “apelidos” constrangedores no empregado (…).” Sobre assédio moral no trabalho, o mesmo site aponta ainda: “É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, (…) durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e sem simetrias (…).”

Então vamos voltar a Bragança Paulista: se Diniz tivesse se dirigido ao jogador “apenas” com palavrões, eu poderia até aceitar a tese de que no calor do jogo não dá para pedir por gentileza que um jogador cumpra sua tarefa, o palavrão é quase normal. Se, de outro modo, Diniz tivesse guardado para si os palavrões e tivesse apenas dito que Tchê Tchê é ingrato, e até que é mascarado, isso não seria ofensa, apenas um discutível juízo de valor.

Mas… quando Diniz mistura ofensas pesada, recheadas de palavrões impublicáveis, com questões pessoais, ele passa a misturar o profissional e a pessoa, e expõe “ambos”. Ou alguém já tinha visto algum técnico “desabafar” à beira do campo “xingando” um jogador de ingrato? Se o treinador diz em coletiva que o problema será resolvido internamente, as reclamações pelos erros do jogador também tinham de ser feitas internamente. Se o que Tchê Tchê fez foi tão grave, ele poderia ser substituído, poderia ser barrado, poderia passar a treinar em separado, poderia ser emprestado, poderia ser dispensado. Só não poderia ser esculachado como foi em público. Com boa vontade, na frente dos outros jogadores do São Paulo. Mais: na frente dos jogadores do Bragantino. E, na real, diante de milhões de espectadores – e Tchê Tchê não pode reagir.

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Por que não pode reagir? Porque a função de treinador é de comando, ele diz o que o jogador tem de fazer, dá ordens, determina o que é certo e errado – e não o contrário. O jogador obedece, nunca dá ordem a treinador. O que Diniz fez, sabendo de tudo isso e, portanto, de modo covarde, provavelmente vai ficar por isso mesmo. E se fosse o contrário? E se Tchê Tchê tivesse berrado cobras e lagartos em rede nacional na direção de seu treinador? O São Paulo ia ficar quieto? Não, ele teria o contrato rescindido no dia seguinte.

Não sou advogado, não sou juiz, não sou ninguém para perdoar ou não perdoar. Acredito em reabilitação, acredito em arrependimento, acredito que a pessoa tem direito de errar e que não é nem um pouco feio admitir e pedir desculpas. O que eu gostaria de ouvir de Diniz, em público, de preferência com seu jogador ao lado? “Eu cometi um erro grosseiro. Em vez de servir de exemplo de comando e corrigir o erro de Tchê Tchê em campo, mesmo que de maneira ríspida, eu misturei outras questões, em público. Passei do ponto, e tenho consciência de que ele estava em situação de inferioridade para se defender. Peço desculpas públicas a Tchê Tchê.”

Tomara que isso ainda aconteça, aumentaria muito minha fé no ser humano. Mas sinceramente não acredito. E se não acontecer, eu continuarei respeitando o trabalho de Diniz, sua criatividade, sua tenacidade em fazer o futebol brasileiro se modernizar. Mas admiração pessoal, que hoje acabou, não voltará a existir.