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Karim Aïnouz: 'Cinema é um lugar de fazer justiça'

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“Eu acredito que cinema é um lugar de fazer justiça de algum jeito. É um meio que joga luz e gosto de jogar luz em personagens injustiçados ou periféricos, que ainda são donos de questões dramáticas até simples. Não quero filmar o privilégio”, afirma o diretor cearense Karim Aïnouz sobre o que impulsiona o seu contar de histórias. Foi assim com a saga do transformista Madame Satã, com a mãe Hermila de O Céu de Suely e, agora, com as irmãs Guida e Eurídice, protagonistas de A Vida Invisível (confira crítica), nosso escolhido para representar o país no Oscar, com estreia hoje. “Não consigo fazer filmes pelos quais eu não me apaixone perdidamente pelos personagens”, pontua, em entrevista ao Jornal do Commercio por telefone enquanto estava em Los Angeles, realizando a campanha do filme.

Esse afeto pelas criaturas que habitam sua narrativa é mais que claro em seu novo filme. Há um carinho no tratamento dramático dado às duas irmãs no meio do mundo de negações em que vivem, separadas pelo conservadorismo. A linguagem empregada parece abraçar a dor de ambas e o melodrama confere belos respiros aos seus breves momentos de felicidade. Já o Rio de Janeiro se afasta do imaginário da efervescência boêmia e se torna mais frio, sem o calor das praias ou a festa das ruas. Karim concebe esse espaço a partir de uma intensa pesquisa. 

“Quando faço um filme no passado, faço uma pesquisa concreta, do preço do pão ao tipo de lâmpada usada. Não é um filme de época, que remete a uma ideia de fantasia, mas um filme que se passa no passado. Quis evitar o Rio genérico, queria o Rio em que a Guida trabalhava e morava. Não o Rio das praias, mas o Rio dos portos. Também era importante entrar na vida privada através desses espaços dos cômodos. Também tem o contexto de eu não ser carioca, trago um olhar de um terceiro”, explica Karim.

Não só o espaço, mas o tempo também parece compreender a angústia das irmãs. O tempo passa na narrativa, mas a melancolia não parece estar se diluindo. Em suas excelentes performances, Julia Stockler e Carol Duarte incorporam mudanças no porte e nas ações, entretanto carregam uma certa apatia constante no olhar, meio distante. Contribuindo com isso, essas elipses temporais não são tão marcadas, levando um tempo para serem assimiladas.

“Eu poderia mentir e dizer que essas passagens de tempo eram algo do roteiro, mas não eram. Isso é acerto e erro, muita coisa não tinha no roteiro e foi sendo modelada com o fazer. Pensamos muito em como fazer esses saltos sem precisar estar explicando. Teve um momento em que precisava fazer uma passagem de cinco anos e decidi cortar de uma personagem para ela mesma, um teste que poderia passar por uma sensação de estranhamento, mas funcionou. Se você está no fio da meada da emoção, você pode qualquer coisa”, diz.

Nesse sentido, há o desafio maior em um dos maiores saltos temporais do filme, em que o rosto de uma protagonista se transforma no rosto marcante de Fernanda Montenegro, algo que descreve como “um ato de fé”. Sua ideia era ter uma personagem como se fosse uma sobrevivente veterana em um filme de guerra. Ao pensar em uma atriz na faixa etária dos 90 anos, outro nome não veio à mente que não o de Montenegro. “É algo de muita intuição fazer essa mudança, falei ‘é assim que eu preciso terminar esse filme’. Fernanda chegou a ir no set para ver os trabalhos anteriores das atrizes e desenvolveu um trabalho em que você acredita que a personagem ainda tá lá, inteira”, relata.

Trata-se de um filme de personagem, principalmente uma chamada Guida e outra chamada Eurídice que, com suas especificidades, representam uma figura feminina tipicamente brasileira. “Se Bacurau é um filme coral e tudo aquilo que ele tem na paisagem, A Vida Invisível tem nos personagens, que são o que há de mais brasileiro neles”, elabora. Assim como vem sendo o cinema de Karim, que arranca o Brasil dos corpos mais forçadamente subalternizados e traz beleza dentro da dureza por meio das mais diversas imagens.

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