A certa altura do documentário “Laura, a Inquietação de Estar Viva”, que Graça Castanheira lhe dedicou em 2006, Laura Soveral recorda que, depois de se ter estreado no cinema (já tarde, com 35 anos) no melodrama “Estrada da Vida”, de Henrique Campos (1968), sempre que ela e Paulo Renato, com o qual contracenou no filme, passavam junto do Odeon, onde ele esteve nove meses em exibição, ficavam ambos envergonhados ao verem as suas caras “tão grandes” no cartaz que se erguia na fachada daquela desaparecida sala de Lisboa. Este primeiro papel na tela valer-lhe-ia o Prémio de Melhor Actriz de Cinema do SNI.

Tal como aconteceu a muitos outros grandes actores portugueses, Laura Soveral foi quase sempre subaproveitada pelo cinema nacional. Quando percorremos a sua filmografia, o que não faltam são papéis, quase sempre secundários, de mãe, tia, avó, empregada doméstica, mulher do povo, ou senhora burguesa, e que ela desempenhava invariavelmente como se fossem de primeiro plano. Raros foram os realizadores que notaram, por exemplo, o talento que tinha para a comédia. João Botelho, que a dirigiu em vários filmes, deu-lhe algumas personagens fora do habitual, como o da avó destravada que dança descalça para as netas em “A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos EUA” (2003).

Laura Soveral desempenhou dois dos melhores papéis da sua carreira cinematográfica logo nos dois primeiros filmes que fez. No citado “Estrada da Vida”, lindíssima e inquieta como Madalena, uma mulher enganada pelo marido e que abandona Angola, onde vive, para tentar recomeçar a vida em Lisboa (e como ela é aqui “moderna”, do aspecto às atitudes); e em “Uma Abelha na Chuva”, de Fernando Lopes (1972), na altiva, despeitada e brusca Maria dos Prazeres, aristocrata falida e casada por conveniência com um homem socialmente seu inferior, um comerciante abastado que a agride, ambos presos numa relação frustrada, azeda e estéril. São duas fitas completamente diferentes, de realizadores que personificam duas fases antagónicas do cinema português, mas que, cada qual à sua maneira, a fizeram brilhar.

A actriz chegou ao cinema já com bastante bagagem de experiência no palco, no teatro radiofónico e na televisão (onde fez teledramáticos, séries e peças em directo), filmou também sob a direcção de cineastas como Manoel de Oliveira, José Fonseca e Costa, António-Pedro Vasconcelos, José Álvaro Morais, Teresa Villaverde, Margarida Gil, Luís Filipe Rocha, José Fonseca e Costa, Marco Martins ou Bruno de Almeida. Seria um realizador de uma geração mais recente, Miguel Gomes, a dar-lhe, mesmo no final da sua vida profissional, outro dos seus papéis mais memoráveis, em “Tabu” (2012). Laura Soveral é Aurora, a personagem de Ana Moreira já na terceira idade, cujas recordações de um passado distante em África, brevemente feliz mas intrigante, se estão a desvanecer na Lisboa do presente.

Apesar de só ocupar uma parte de “Tabu”, já que a idosa Aurora sai de cena ainda cedo no filme, este é um papel que, da presença imediatamente solicitadora do interesse e da atenção do espectador, à subtil inteligência da interpretação, manifestada na composição da personagem, nas manias de octogenária, no menor dos gestos ou na modulação das emoções e da voz, se apresenta como a expressão máxima e acabada, a concentração perfeita do talento de Laura Soveral. Aqui filmada a preto e branco, tal como em “Estrada da Vida” e “Uma Abelha na Chuva”, quatro décadas antes.