Categorias
Música

Letrux troca a noite de climão pelas lágrimas em novo disco

“Se organizar direito, todo mundo chora”, canta Letícia Novaes em “Deja Vu Frenesi”, a faixa de abertura de seu novo disco, seu segundo como Letrux. Se “Em Noite de Climão”, seu trabalho anterior, era fogo, o novo, “Aos Prantos”, é água —ou, como ela canta, “lágrima, suor e gozo”.

“Escolhi essa canção para inaugurar porque resume bem. Tem gente que esconde, mas se a gente for em frente ao Congresso e fizer um flash mob com todo mundo chorando, talvez tenha força”, diz. “E nem todo mundo transa. Já saiu pesquisa dizendo que tem uma geração que não transa. Se a gente se organizasse para chorar ia ser melhor do que mentir que está transando.”

“Aos Prantos” chega ao streaming na semana que vem, três anos depois de “Em Noite de Climão”. Nesse período, Letrux deixou de ser conhecida como ex-vocalista do Letuce —banda indie do Rio de Janeiro— para se tornar uma das cantoras mais bem-sucedidas da música independente.

Bem-humorado, o disco de 2017 era dançante e ficou conhecido pelos shows e pela entrega de Letrux no palco, a ponto de ter sua turnê estendida por três anos. Agora, ela está mais para o choro e para o suor do que para o gozo.

“Às vezes, é mais difícil fazer música dançante. Mas, depois do fogo, você só pode olhar para dentro. O fogo queima, mata. Acho que ‘Climão’ pôs um ponto final —e eu gosto de pontos finais. Depois, só caberia algo denso. Abandonar a ironia, o cinismo, o deboche e olhar para a emoção.”

Não por acaso, ela escolheu o mês de março para lançar o disco. Estamos na temporada de peixes, segundo ela, o signo mais sensível do zodíaco. É também um signo de água, elemento constante nas letras e até na feitura de “Aos Prantos”.

“Algumas músicas eu fiz no avião. Outras, em casa, nos poucos momentos que tinha. E tive o privilégio de ir para a Grécia, onde fiz duas músicas dentro d’água”, ela conta.

“Letrux aos Prantos” foi gravado no segundo semestre do ano passado, mas começou a ser escrito em 2018. Seu processo de composição, ela diz, foi o “contrário da fertilização humana”, em que cria as canções sozinha, a partir, das letras, e depois escolhe timbres e arranjos. “Sou o zigoto, e depois levo para as minhas parcerias fecundarem comigo.”

Musicalmente, “Aos Prantos” é mais abrangente do que seu antecessor. Vai de faixas atmosféricas (“Dorme Com Essa”, “Cuidado Paixão”) a um blues lento com Liniker (“Sente o Drama”) e até levadas de disco (“Salve Poseidon”) e synthpop (“Fora da Foda”). Músicos de sua banda, Arthur Braganti e Natália Carrer, responsáveis por sintetizadores e guitarras, assinaram a produção.

Já nas letras, o clima de festa e flerte fica de lado. Em vez de passar o dia pensando no look que usaria na festa à noite —como em “Flerte Revival”— ela confunde um “tchau” com “te amo” —em “Cuidado Paixão”.

“O ‘Climão’ era mais paquera, mais delicinha. Era flerte e, depois do tesão, ou vai ou racha. Acho que eu me aprofundei nessas paqueras”, diz.

“Aos Prantos” é sobre ter coragem para encarar os próprios sentimentos, o contato voluntário com as lágrimas. Para ser retratada chorando na capa do disco, Letrux recorreu à música de Bach, trilha para seus choros na infância. Quando contou a situação no Twitter, ela virou piada nas redes.

“Para fazer a capa, eu precisava chorar. E, criança, eu só ouvia música com letra, aquele era o momento instrumental —e era forte para mim. Acho que [essa reação] é um mix de deboche com recalque, gente que não dá chance à sensibilidade.”

Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas (conheça aqui). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 120 colunistas. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

Copyright Folha de S.Paulo. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

Comentários