Lucy de Carvalho, estrela de Barravento (1962), de Glauber Rocha, e outros clássicos do Cinema Novo, hoje é simplesmente Dona Lucy. Aos 72 anos, é aposentada e vive em um apartamento modesto, auxiliada por um amigo, em Salvador. Chega a ser difícil acreditar que uma estrela de um movimento que revolucionou o jeito como se faz cinema hoje no Brasil viva tão distante dos holofotes.

Quando a reportagem do HuffPost Brasil chegou para a entrevistá-la, Dona Lucy estava sentada em uma cadeira de balanço em frente a uma TV de tubo que exibe imagens que ela já não enxerga mais – perdeu a visão com a idade, mas mantém a escuta atenta. Os cabelos de um prateado intenso, presos no alto da cabeça e o olhar no horizonte. Ela pede um tempo para se arrumar. “Eu não quero só batom, vou fazer a maquiagem completa”, promete, e pinta muito bem o próprio rosto, no tato. Vaidosa, reclama de não ter tido tempo de fazer as unhas e pintar os cabelos.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil Ela explica que, com um discurso radical, ela conseguiu a aprovação dos pais para fazer o que tinha vontade à época: dar vida a uma personagem no cinema.

Dona Lucy conta que sonhava com o estrelato desde a infância, mas, na década de 50 e 60, a profissão era socialmente mal vista para mulheres. Ser atriz era sinônimo de “ser mulher da vida”. “Moça de família não fazia cinema, era coisa de comunista, mulher da vida”, lembra. Mas ela conta que o acaso colaborou para seu sucesso, independente do contexto: ela não lembra exatamente sua idade, mas indica que foi aos dezesseis, dezessete anos que encontrou com Glauber Rocha. Ela estava em uma sorveteria com a mãe quando o renomado diretor de cinema a avistou e concluiu imediatamente que o papel de Janaína, imortalizada em Barravento, teria que ser dela.

Ela explica como conseguira fazer isso bem jovem sem a aprovação dos pais. Com um discurso radical, ela atingiu eu objetivo. “Eu ameacei que algo terrível poderia acontecer comigo e papai cedeu. No fim, era ele quem negociava meus contratos”. E conseguiu. Viajou então para o Rio de Janeiro para as gravações onde brilhou como sua personagem, Janaína. Hospedou-se na casa de Nelson Rodrigues, amigo pessoal de seu pai, que garantiu cuidar da moça enquanto estivesse em solo carioca. “Mas você sabe como é a cabeça de Nelson Rodrigues, né? Ele me deixava fazer o que eu quisesse. Total liberdade”, lembra.

Ela explica que, com um discurso radical, ela conseguiu a aprovação dos pais para fazer o que tinha vontade à época: dar vida a uma personagem no cinema. “Eu ameacei que algo terrível poderia acontecer comigo e papai cedeu. No fim, era ele quem negociava meus contratos”, lembra. E conseguiu. Viajou então para o Rio de Janeiro para as gravações onde brilhou como sua personagem, Janaína. Hospedou-se na casa de Nelson Rodrigues, amigo pessoal de seu pai, que garantiu cuidar da moça enquanto estivesse em solo carioca. “Mas você sabe como é a cabeça de Nelson Rodrigues, né? Ele me deixava fazer o que eu quisesse. Total liberdade”, lembra.

Embora não tenha trabalhado diretamente no Cinema Novo, Nelson Rodrigues era amigo pessoal de Glauber Rocha e compactuava das mesmas ideias libertárias do cinemanovista. Apesar de contemporâneo da supremacia do cinema como entretenimento de massa, Nelson via a sétima arte, assim como Glauber Rocha, como uma estratégia de resistência nos tempos sombrios da censura.

Ao acolher Lucy de Carvalho, Nelson não apenas acolhia a filha de um amigo, mas a mulher que, ele sabia, viria a ser uma das grandes estrelas do Cinema Novo. No mesmo ano, ela gravou Os Cafajestes (1962), dirigido por Ruy Guerra. Neste filme, a atriz Norma Bengell protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, o que foi um escândalo à época — e chegou a ser censurada. A cena de quase quatro minutos em que a atriz fica nua pela areias e brinca com as ondas do mar é tida, ainda hoje, como um marco. No longa, Lucy contracenava com Norma.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil Em plena ditadura militar, foi a primeira mulher na história a raspar a cabeça no cinema nacional, ainda em Barravento.

Norma Bengell, assim como Lucy de Carvalho, buscava lançar um olhar não-erótico sobre a nudez. “A nudez é superficial”, ela dizia, em um discurso muito parecido com o da própria Lucy. Não erotizar a nudez não era apenas um ato libertário para estas mulheres vistas como rebeldes: era também uma maneira de afirmar que o corpo nu é muito mais significativo do que o simples erotismo.

Esse pensamento de vanguarda permeava todo o discurso cinemanovista: a nudez não era usada apenas para chocar a moral tradicionalista, mas para problematizar a questão do corpo, sobretudo o corpo feminino, objetificado e erotizado por toda a história do cinema mainstream.

Vanguarda era um codinome de Lucy de Carvalho. Em plena ditadura militar, foi a primeira mulher na história a raspar a cabeça no cinema nacional, ainda em Barravento. “Raspei a cabeça porque tinha que raspar, pela minha personagem. Raspei pelo cinema”. Viajou pelo Brasil e pela Europa, brilhou nas telas e festivais, até que, em 1970, abandonou a carreira de atriz. “Um dia me disseram que agora pra fazer cinema tinha que fazer o que eles chamavam lá de teste do sofá. Não faço teste de sofá nenhum. Não sou vendida!”

Mas não é só de papeis vitoriosos que se vivencia o cinema. Dona Lucy lembra que, durante as gravações de Barravento, foi vítima de uma tentativa de estupro. “Fui salva pelo caseiro”. Ela lembra que assédios eram comuns nos sets de filmagens, especialmente contra mulheres jovens, mas que ela jamais se submeteu a propostas que pediam sexo, em troca de um papel.

O assédio nos sets de filmagem era um comportamento comum em Hollywood – vide as inúmeras denúncias se assédio contra o produtor multimilionário Harvey Weinstein, denunciado por Ashley Judd, Jessica Barth, Katherine Kendall, Rose McGowan, Florence Darel, Judith Godreche, Emma de Caunes e outras -, e os crimes dificilmente eram denunciados a tempo.

O Cinema Novo, que inseriu a entrevistada na Sétima Arte, foi um movimento cinematográfico revolucionário dos anos 60/70, encabeçado por Glauber Rocha e outros expoentes, como Cacá Diegues, que tensionava questões sociais como nunca antes se fizera no cinema brasileiro. É aí que está o seu caráter revolucionário: o cinema brasileiro, antes enviesado em temas superficiais e com total influência do cinema hollywoodiano, passou a tratar de temas mais complexos e socialmente relevantes.

Segundo Glauber, tido como o grande mentor do movimento – chegou-se a dizer que o Cinema Novo é Glauber Rocha no Rio de Janeiro -, o movimento se propunha a colocar o povo na tela. No mais famoso manifesto assinado pelo cineasta, Uma estética da fome, ele explora a “fome” em muitos de seus aspectos – a fome propriamente dita, a fome de arte, a fome de igualdade, a fome de liberdade.

Usando uma câmera como arma, e sem recursos ou equipamentos, os cinemanovistas foram os que primeiro fizeram do cinema um ato político no Brasil. Embora as personagens femininas de Glauber sejam frequentemente refutadas pela crítica cinematográfica feminista, é certo que o movimento foi um marco no que concerne à representação feminina no cinema.

No período cinemanovista o trabalho de atriz não era reconhecido como profissão. O registro oficial só veio depois de muita luta de atrizes brasileiras como Dulcina de Moraes, Helena Ignez e a própria Lucy de Carvalho, que contou à reportagem do HuffPost que as mulheres que trabalhavam no cinema ou teatro eram vistas, à época, como verdadeiras libertinas, e não como artistas que eram.

O fato de as mulheres terem sido – e ainda serem – minoria no cinema contribui para essa realidade preocupante: na direção cinematográfica, elas são apenas 20% ainda hoje no Brasil. Entre poderosos produtores e diretores homens, as mulheres ficavam a mercê de todo tipo de abuso, e muitas delas submetiam-se a isso por amor ao ofício.

Quando as mulheres passaram, enfim, a terem mais voz ativa nos sets, as denúncias começaram a aparecer e a indústria cinematográfica precisou rever sua relação com as mulheres. Lucy de Carvalho, entretanto, vanguardista e insubmissa, já resistia a isto em 1970.

A atriz da era de ouro do cinema nacional parece não ter noção de que seu trabalho ainda reverbera nos dias hoje: “Eu soube que ganhei um prêmio na França, é verdade?”, questiona. É verdade sim, Dona Lucy. Os anos dourados de sua carreira passaram, mas a sua autenticidade permanece intacta – e o seu legado, imortal.

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.