A uma quadra de um cinema repleto de filmes sobre os tormentos da dependência química, três rapazes sorridentes se postam diante de um contêiner amarelo numa calçada de Toronto. Ali, como se estivessem a apresentar diferentes torrões de café, o que mostram em displays são imitações de cepas de maconha.

Há seis variedades, cada uma com um slogan maroto. O da “balance” é “pule a aula de ioga e ainda assim fique zen”. A “free”, composta de canabidiol, é a “escapadinha para o spa sem a conta salgada”. Tem também a “sense”, com THC híbrido, que faz “encontrar sua pessoa interior sem precisar de garrafa de vinho”.

Nesse filme de Felix van Groeningen, Nic (Timothée Chalamet) começa com um simples baseado e descamba para a heroína em bares decrépitos de San Francisco. Já “Ben Is Back”, um dos mais elogiados, acompanha Julia Roberts no papel da mãe de um jovem dependente, vivido por Lucas Hedges. Em “A Million Little Pieces”, são explorados os sufocos da abstinência. E “White Boy Rick” percorre uma Detroit estraçalhada pelo crack.

Os quatro filmes vêm dos Estados Unidos, onde a overdose matou um número recorde de mais de 72 mil pessoas no ano passado, tornando-se a principal causa de morte de americanos com menos de 50 anos. Estados como Ohio e Pensilvânia, redutos de famílias operárias empobrecidas do chamado Cinturão da Ferrugem, concentram a alta.

Mais da metade das mortes se deve a opioides como o fentanil, medicação contra a dor vendida sob prescrição, que se alastrou como alternativa à heroína, ilegal e combatida com rigor. Numa das cenas de “Ben Is Back”, a personagem de Roberts confronta o médico que receitou morfina a seu filho. “Você falou que não havia risco de dependência e olhe só o que aconteceu”, diz.

No Canadá, a taxa de mortes por overdose é cerca de 40% da do país vizinho. A legalização da maconha é uma das principais plataformas do primeiro-ministro, Justin Trudeau. Segundo ele, a medida irá “proteger as crianças e tirar o dinheiro do bolso dos criminosos”.

A partir de outubro, só se poderá consumir maconha em planta, em semente ou em óleo. A forma comestível fica de fora. Também não se permitirão as fórmulas, o que mobilizou uma campanha pela empresa Dosist, sediada na Califórnia, que produz fitoterápicos para ingestão diária.