No fim dos anos 1960, o Cinema Novo ganhou reconhecimento internacional, mas seus autores viviam o impasse. Colocavam o povo na tela, mas não conseguiam encher as salas de cinema. A exceção foi a adaptação de Mário de Andrade por Joaquim Pedro de Andrade em Macunaíma, de 1969.

De repente, e com toda pressão da ditadura, o público identificou-se com a história do herói sem caráter, que nascia negro, de mãe índia, na floresta e virava branco na cidade, envolvendo-se com a guerrilheira sexy. Mais do que com a história, a identificação talvez tenha sido com o ruidoso tropicalismo do tratamento audiovisual, com a empatia do elenco (Grande Otelo, Paulo José, Dina Sfat e Jardel Filho), com a extravagância da feijoada na piscina e também, por que não?, com a flagrante provocação à disciplina do regime.

Cada um por si e Deus contra todos. No momento em que no País alguns (muitos?) voltam a propor a alternativa militar, um outro Macunaíma só pode significar transgressão.