Nos últimos anos, os esforços para uma internacionalização em bloco da nova música portuguesa, complementar à canção de Lisboa que para muitos se tornou a canção do país (o fado, claro), têm-se intensificado. Não têm faltado iniciativas: há programadores e festivais focados em trazer agentes a Portugal para ouvir música portuguesa, há apresentações em peso de músicos portugueses em festivais europeus e norte-americanos (do francês MaMa ao holandês Eurosonic, que já dedicou uma edição a Portugal, passando pelo norte-americano South by Southwest) e há contactos cada vez mais diretos entre bandas nacionais e editoras e agentes estrangeiros. Há, em suma, uma indústria em franco desenvolvimento, que usa a internet como motor para crescer fora de portas.

Espanha não foge à rota desses novos mercados procurados por músicos portugueses, mas nos últimos dias pode ter sido dado um passo decisivo para que a música portuguesa entre em definitivo na rota do país vizinho — ou, pelo menos, na rota das suas principais cidades. Depois de três anos de atividade (nasceu em 2014), o Portugal Alive, iniciativa apoiada pelo Consulado-Geral de Portugal em Espanha que apresenta todos os anos músicos portugueses ao público espanhol e à comunidade nacional no país, cresceu. Logo na segunda edição, em 2015, deixou de acontecer apenas em Barcelona e estendeu-se a Madrid. O ano passado, passou a integrar o programa do Barcelona Ação Musical (BAM), um festival de música alternativa que se distingue da concorrência internacional por fazer parte do programa de atividades das festas anuais de Barcelona, as festas Mercé.

Não é um pormenor: como as festas Mercé param a cidade de Barcelona e levam milhares para as ruas (este ano, passaram por estas festas perto de um milhão e trezentas mil pessoas), o BAM agiganta-se, ganha uma dimensão inesperada. Um festival de música alternativa, que ainda por cima é gratuito, torna-se, de repente, mais concorrido do que se esperaria e a música que em condições normais estaria reservada a clubes ou salas de média dimensão passa a chegar a mais gente e espalhar-se por palcos de toda a cidade.

O que aconteceu este ano foi que Lisboa foi a cidade convidada das festas Mercé. Por isso e pelo sucesso da experiência do ano passado, não só o Portugal Alive repetiu a presença no BAM como o festival não quis que a presença portuguesa ficasse a limitada a uma noite de concertos na praça Joan Coromines, isto é, ao evento nascido em 2014. O festival catalão decidiu apostar em mais música nacional para preencher o seu cartaz e o Observador esteve na Catalunha, a ouvir as apresentações portuguesas no BAM e a registar a boa receção aos concertos, quer da comunidade lusa em Barcelona quer dos próprios catalães.

Sábado, 18h15. O calor não dava tréguas no penúltimo dia de verão e entre a praça de Joan Coromines (assim nomeada em homenagem ao filósofo e linguísta espanhol homónimo) e a praça dos Anjos, separadas por perto de 100 metros e localizadas no coração de Barcelona, na zona da cidade velha (que engloba os bairros el Raval e el Gótic e a Barceloneta, entre outros), viam-se já muitos jovens. Uns estavam sentados no chão, com águas e latas de cervejas por perto, outros (bastantes) a andar de skate, de t-shirt ou em tronco nu. Perto de uma dezena tinha estado a assistir ao soundcheck de Surma na praça de Joan Coromines, que terminara há minutos. Surma estava bem disposta e confessou entre risos: “Sempre quis saber andar de skate”.

Surma é a portuguesa Débora Umbelina, jovem multi-instrumentista e cantora de Leiria que ganhou destaque no panorama indie nacional e internacional com o disco de estreia Antwerpen, editado em outubro do ano passado e nomeado para melhor disco europeu de 2017 pela IMPALA — Associação de Empresas de Música Independente. Um prémio conquistado nos últimos anos por artistas como José González, Agnes Obel, Caribou, The XX e Efterklang. Tal como Bruno Pernadas, Surma tinha atuado na véspera em Madrid (atuaram ainda os Best Youth), também no âmbito do Portugal Alive. Nesse dia, em Barcelona, era a primeira da comitiva portuguesa: subia ao palco da praça Joan Coromines às 21h.

“Cada concerto tem um significado diferente, cada um traz uma experiência diferente”, apontou a cantora e compositora ao Observador, nesse fim de tarde. “Muitos dos meus melhores amigos atuais foram feitos na estrada e fora de Portugal”, acrescentou. Surma tem andado em digressão pelo mundo, já atuou em países como Estados Unidos da América, Holanda, Itália ou Espanha. Só para o próximo mês e meio tem concertos agendados em Viena e Linz (Áustria), Leiria, Lisboa, Sintra, Menton (França), Neukolln (Alemanha) e Reiquiavique, na Islândia. Guarda boas memórias dos concertos internacionais, em particular da ida aos Estados Unidos da América, “um país incrível”, e da viagem à Suécia, onde se surpreendeu ao entrar “num pequeno café local, um sítio muito pequenino, onde a primeira coisa que as pessoas faziam ao entrar era descalçar-se e sentar-se no chão. Não se ouvia uma mosca, era impressionante, e há um grande convívio com as pessoas que nos vão ver, depois dos concertos”.

Como é que se consegue tantas datas fora de portas? A internet e um trabalho de bastidores intenso são decisivos, referiu: “Acho que sempre tivemos muita qualidade em Portugal, não é só de agora que temos bons músicos, sempre os tivemos. O Fausto, por exemplo, para mim é uma inspiração incrível. Acho é que só agora, de há uns três anos para cá, as pessoas começaram a ouvir mais música portuguesa e acho que Portugal está mais no mapa. Os produtores [de concertos] têm feito um trabalho incrível e a internet também nos ajuda muito, na produção e divulgação, através de plataformas como o Facebook, Bandcamp, Youtube, tudo isso”.

O trabalho da sua editora, a leiriense Omnichord Records, a que pertencem também bandas como os First Breath After Coma, Whales, Nice Weather For Ducks e Jerónimo, é enaltecido por Surma: “Foi o Hugo Ferreira [fundador da editora] que nos tirou da cave [risos]. O objetivo dele foi sempre levar as bandas de Leiria para fora, mostrar o que se faz cá dentro. O trabalho é muito: mandar candidaturas [para festivais], explicar o porquê de se querer ir lá fora, falar com promotores, fazer promoção, tratar da logística. É muito árduo”. Um exemplo de que tem corrido bem? O facto de este ano os Whales, a que Surma chegou a pertencer numa fase inicial, terem tido uma digressão nacional de sete datas e uma digressão internacional de dezasseis concertos em oito países (França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Polónia, República Checa, Itália e Espanha), antes sequer de lançarem o primeiro disco.

Durante o concerto, Surma apresentou a sua pop eletrónica, fragmentada e sonhadora, com alguns ritmos mais tribais, criando uma atmosfera singular na praça de Joan Coromines. Entre muitos “muchas gracias” e elogios ao sucessor no palco Bruno Pernadas (“um génio”), Surma, sozinha, qual one-woman band, dividiu-se entre a parafernália de máquinas de que se serviu: guitarras, pedais de efeitos, loop station a disparar batidas instrumentais e microfone para cantar as canções de Antwerpen, disco que poderá ter sucessor entre 2019 e 2020: “Acho que o segundo álbum vai ser ainda mais freak que o primeiro, vai ser uma coisa muito fora. Até pode mudar de rumo até lá, até pode ser acústica, não sei… mas está a ser feito de uma forma ainda mais experimental, com muitos efeitos de distorção, de noise, com muitas coisas a acontecer”, revelou-nos.

Se Surma teve algum público, surpreendido pela sonoridade pouco usual da leiriense, Bruno Pernadas teve ainda mais, fruto da hora mais tardia. O guitarrista português nunca tinha tocado fora de portas com o seu projeto a solo, que em palco se transforma em big band de nove elementos, mas conta já com três álbuns: How Can We Be Joyful in a Worlf Full of Knowledge, Worst Summer Ever e Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them. A mistura de canção pop-jazz com ritmos africanos e ginga psicadélica sul-americana. Além das insistentes perguntas dos vendedores de latas de cerveja ambulantes, incansáveis na sua missão de vender as suas Estrella Damm por um euro, ouviam-se palmas de arrebatamento e elogios atirados de fugida: “Sou catalão, esta música é ótima para dançar, agora deixa-me ir dançar com a minha namorada”.

Portugueses viam-se alguns, mas estavam ainda assim em minoria, um bom sinal se a ideia era revelar a Espanha o que se anda a fazer na música portuguesa. Houve espaço para um tema novo, mas que talvez demore a chegar aos nossos ouvidos: Bruno Pernadas pensa editar o próximo álbum com o seu projeto a solo apenas em 2020, embora vá estar ocupado até lá. A conversa com o músico, porém, ficou para o dia seguinte, até porque, dos três portugueses em destaque nesse sábado, Bruno Pernadas era o único que repetiria a presença no BAM no domingo, com um concerto dado com o grupo Real Combo Lisbonense (já lá vamos).

Durante toda a noite, o público catalão e os portugueses que andavam pela zona da cidade velha de Barcelona dividiam-se sobretudo entre duas praças coladas uma à outra, a de Joan Coromines, inteiramente dedicada à música portuguesa e ao Portugal Alive, e a praça dos Anjos, onde o hip hop norte-americano e o R&B dominavam por completo, com concertos de Akua Naru, Masego e Oddisee. Fosse por estarem satisfeitos com Akua Naru e o seu hip hop crítico, socialmente interventivo e ideologicamente posicionado, fosse porque Masego (que sucedeu a Akua Naru) estar já a terminar a sua atuação, alguns catalães decidiram juntar-se aos portugueses presentes na praça de Joan Coromines para dar uma oportunidade a outra rapper feminina, neste caso a portuguesa Capicua, isto é, Ana Matos Fernandes.

A rapper do Porto que assinalava por estes dias o décimo aniversário da sua primeira mixtape a solo e que já tinha atuado neste evento, em 2015, mas quando ele se realizava ainda na sala de concertos e DJ sets Apolo, até tem uma relação próxima com Barcelona: fez ali erasmus durante a licenciatura e voltou para o doutoramento. Se não estava a jogar em casa, como habitualmente se diz na gíria futebolístia, estava pelo menos a rimar em casa emprestada. “Está bonito Barcelona. Façam barulho para a M7”, pediu em palco, destacando o papel da rapper que habitualmente a acompanha em palco, já depois de ter perguntado ao público se preferia ouvi-la falar português ou castelhano (e a escolha recaiu no português). Ouvia-se barulho e palmas em resposta, avistando-se também pequenos grupos de adolescentes catalães que dançavam ao som das batidas hip hop, com movimentos capazes de embaraçar alguns pés de chumbo (como este repórter).

Ouviram-se temas como “Mão Pesada”, a clássica “Vayorken” e “Lingerie” (a última resgatada precisamente da sua primeira mixtape, Capicua Goes Preemo, de 2008), além de rimas disparadas a capella, sem música, para que as suas palavras feministas e apologistas da igualdade e respeito pela diversidade se percebessem bem. “A música é uma experiência que para mim passou sempre pelas palavras, foi assim que começou. É bom voltar ao início ao início e dizê-las assim, sem música”, atirou, antes de dedicar esses versos “às mulheres que fazem questão de ser livres, espontâneas e de não pedir desculpa nem licença a ninguém”.

Depois do concerto, ao Observador, Capicua recordou os seus tempos de estudante em Barcelona: “Tocar nesta praça, nas festas mais loucas desta cidade, é especial até porque morei a três quarteirões daqui. Fiz Erasmus aqui entre 2004 e 2005, na faculdade Autónoma de Barcelona, depois vim fazer o doutoramento no departamento de geografia da universidade de Barcelona, que fica já ali, do outro lado da rua”. Esses anos foram decisivos para a sua afirmação artística, revelou ainda: “Em Erasmus conheci portugueses da Parede e de Carcavelos, que faziam rap e beats e assim. Fiz umas coisas com eles e quando voltei ao Porto fiz uma primeira banda, com a M7 e com uma amiga nossa, a Maria. Nunca mais parei de fazer rap e depois de ter estado aqui em doutoramento, voltei para Portugal e fiz a minha primeira mixtape a solo. Esta cidade inspirou-me a criar com mais afinco, é uma cidade super criativa, onde se é exposto a muita música de muitos lugares do mundo”.

Sobre o Portugal Alive, Capicua tanto gostou que decidiu repetir a participação: “Há muitos jovens portugueses que estudam e trabalham aqui e em Madrid e têm vontade de ouvir bandas portugueses, de ouvir nova música e música alternativa portuguesa. São cidades onde os nossos emigrantes não correspondem ao estereótipo de emigrante que emigrou nos anos 1970, que gosta sobretudo de música ligeira ou apenas fado. Gostam de vários estilos, trazem amigos catalães e de outros países, que estão cá, têm o mesmo interesse em mostrar a alguém música portuguesa que têm em levar alguém a um restaurante português, dar-lhes a provar um pastel de nata, etc. É um orgulho bonito de se ver”.

No seu concerto estavam vários portugueses, mas Capicua sentiu que também foi entendida pelos catalães, tal como o tinha sido em 2015, na sala Apolo: “Mesmo as pessoas que não entendem o que digo e me estejam a ver pela primeira vez, veem uma mulher cantar rap com atitude e mesmo que não percebam uma palavra do que digo percebem a mensagem básica. É um statement [afirmação de intenções] por si só estar ali em cima sem pedir licença ninguém, a fazer o que gosto. É uma mensagem já por si subversiva e feminista, no hip hop onde é raro [haver mulheres rappers] mas na música e na vida em geral”.

A rapper, que ganhou uma grande projeção nacional com o disco Sereia Louca e que participou recentemente num projeto de hip hop luso-brasileiro chamado Língua Franca (com o português Valete e os brasileiros Rael e Emicida), acha que “devíamos promover mais vezes estes encontros”. “Fui tocar a Paris este ano numa destas iniciativas de misturar música portuguesa com música parisiense, fui com a Sara Tavares e a Mariza, e o público foi super carinhoso. Já dá para perceber que Portugal é esta mistura, é [feito] um bocadinho de fado mas também é [feito] um bocadinho de rap e de música africana. Este encontro, Portugal Alive, tem resultado muito bem e espero que os consulados pelo resto da Europa reproduzam esta ideia, em Londres, em Paris outra vez…”

No concerto, Capicua tinha revelado estar “a fazer um disco novo”, que “sairá para o ano”. Ao Observador, avançou alguns pormenores sobre o novo trabalho: “Está feito, tenho o álbum todo composto, vou gravar no mês que vem. É um álbum muito solar, mais do que alguma vez fiz. Invejo muito a capacidade dos músicos brasileiros e africanos fazerem música alegre sem soar pateta e nós temos mais dificuldade. Queria fazer esse exercício agora, com ironia, falando também de coisas sérias, mas sendo algo mais solar e dançável. Terá mais participações do que o habitual e terá participações de brasileiros, com quem tenho contactado nos últimos tempos por causa de Língua Franca. Fui ao Brasil nos últimos meses e essa influência nota-se nas participações e na forma alegre de ser triste que eles têm”.

Domingo, 23 de setembro, já não havia Portugal Alive mas a presença portuguesa no festival catalão BAM continuava. A tarde foi do Real Combo Lisbonense, coletivo português que revisita o cancioneiro nacional tocado em conjuntos e orquestras dos anos 1950 e 1960 e as canções eternizadas por Carmen Miranda.

Durante o soundcheck, que antecedeu o concerto, estavam já alguns curiosos a assistir a partir da estrada (cortada) na avenida del Paraŀlel, lateral ao hotel Tryp Apolo e a alguns metros dessa emblemática sala de concertos catalã (Apolo), que celebra em 2018 uns respeitáveis 75 anos de existência. A boa disposição reinava em palco e os elementos desta orquestra moderna portuguesa tentavam afinar o som dos muitos instrumentos (além das pandeiretas, maracas e instrumentos de percussão variados, havia outros mais habituais em bandas contemporâneas, como bateria, teclado e guitarras). “Como é que ’tá a tarola, está fixe?”, “enquanto o microfone da Maggie [Margarida Campelo, coros e percussão] está em baixo vamos ensaiar a ‘Oh’” e “vê lá se está bom, pá” eram frases que se ouviam do palco, num processo tão complexo que, no concerto, a banda brincou dizendo que tinha trazido “uma comitiva de 350 pessoas”.

“Já voltamos”, atiraram antes de recolher ao backstage, para regressar mais tarde impecavelmente vestidos, com vestidos e fatos brancos que motivaram sorrisos entre as algumas dezenas que esperavam o início do concerto. O que se passou a seguir foi festa desenfreada, jazz tropical: as canções sul-americanas, espanholas e portuguesas do passado foram resgatadas pelo Real Combo Lisbonense com uma eficiência de fazer inveja. “Ahora Lisboa” introduziu “Cha Cha em Lisboa” de Artur Ribeiro, revitalizada com toque tropical e de big band (“O cha cha cha em Lisboa virou fadista / passou na Madragoa, fez-se bairrista / andou pelas ruas, pela moirama / e fez das suas nos becos de Alfama”). Ana Brandão, Joana Campelo e Margarida Campelo brilharam nas vozes em “Cantoras da Rádio”, de Carmen Miranda, com dança e risos à mistura.

Quando se chegou a “O que é que você fazia?”, também da cantora luso-brasileira, já havia “comboinho” no público, mas haveria também “música de toreros”, como o músico João Paulo Feliciano apresentou, “Eu vi toureiros que eram da Alemanha / tu andas a enganar o mundo inteiro, torero, torero, olé”. Num prédio a poucos metros, uma mulher observava da varanda do quinto andar e teve direito a acenos da banda. Ouviram-se uma “Tintarella di luna” transformada em “Banho de Lua”, o samba-bossa nova “Quadras em Bossa Nova”, visitou-se “rock vegetariano” — o clássico “Não Vem que Não Tem” — e “uma canção sobre Lisboa que vai acabar em Barcelona”, chamada “Pss Pss (All Around Lisbon)”, rhythm and blues composto há décadas pelo maestro Thilo Krassman para o seu Thilo’s Combo e cantado no final dos anos 1960 por um norte-americano que visitava Lisboa à época, Tyree Gleen.

Houve de tudo, nesta big band que rivaliza com aquela que muito a inspirou, a brasileira Orquestra Imperial. No final, a canadiana Rebecca Pike, que estava de férias em Barcelona, disse ao Observador ter “gostado muito deste combo. Foi muito interessante, muito divertido”. As portuguesas Catarina Simão e Raquel Vitória, que vivem em Barcelona e trabalham na área do marketing, também gostaram: “Adorámos, não estávamos nada à espera. Foi super bem disposto. Tínhamos lido que era uma banda de baile que recordava os anos 50 e isto lembrou um bocado irmão Catita, teve algo burlesco, engraçado. Pensávamos que era uma banda de baile diferente, como os Deolinda”, referiram.

Numa função mais discreta do que na noite anterior, Bruno Pernadas, aqui um de vários elementos de um projeto que é coletivo e não liderado por si, mostrou que é um guitarrista eclético, capaz de explorar diferentes sonoridades (não misturasse ele uma escola jazz, uma escola clássica e uma escola rock). Encontrámo-lo nos bastidores para uma conversa sobre os dois concertos, de tronco nu, ainda a recuperar de uma atuação transpirada. “Importa-se que fique assim? Estou cheio de calor”. Não, claro que não.

“Com Real Combo Lisbonense já tínhamos ido tocar uma vez ao Brasil, também já o tinha feito com peças de teatro, em que tocava música para palco durante as peças”, referiu. Digressões internacionais nunca tinha feito e concertos fora de portas com o grande ensemble que lidera enquanto Bruno Pernadas, também não. “Há grupos que tocam muito mais do que o meu. Às vezes, isso deve-se em parte a uma questão logística: somos nove músicos, bandas como a da Capicua e a Surma têm mais facilidade para viajar, são menos pessoas, a logística é menor. Interesse por parte de entidades programadores até temos muito. Mas a logística é um grande problema”.

Talvez esse problema demore perto de dois anos a ser atenuado, porque Bruno Pernadas tenciona que o seu próximo disco a solo, que provavelmente será gravado no próximo ano e editado em 2020, seja “mais soul mas com menos instrumentos, mais minimalista, se calhar”. Isso poderia levar a que o número de músicos de que precisa para o acompanhar em palco seja menor. Para já, ficou o “gostinho” da estreia fora de Portugal: “Vejo o Portugal Alive como uma oportunidade para músicos portugueses virem mostrar a sua música pelo menos na Península Ibérica. Este festival [BAM] é gigante, há bocado estava a ver o programa e há montes de oferta e muita variedade na música, com artistas de vários países”, referiu, antes de revelar que está a “fazer música para um filme do Gonçalo Waddington, que vai ser a primeira longa-metragem dele” e que deverá trabalhar futuramente em outros projetos, compondo para artes performativas (como o teatro) e num novo trio chamado Montanhas Azuis, com o qual já deu alguns concertos e que editará um disco em fevereiro do próximo ano.

Só algumas horas depois se voltou a ouvir música portuguesa no BAM, com os Throes + the Shine, também junto à sala de concertos Apolo. Antes, o público espalhou-se por toda a cidade. Na praça dos Anjos, um público volumoso — que ainda assim não enchia a praça, repleta na véspera pelo menos para a atuação do norte-americano Masego — via os norte-americanos Mercury Rev celebrarem em palco os 20 anos do disco Deserter’s Songs, o que farão também esta quinta-feira em Lisboa, no Lux Frágil. A uns 12 minutos de distância a pé, na rambla del Raval, quem se destacava eram os catalães Outer Space, impressionante banda jazz inspirada também pelo afrobeat, funk, rock e hip hop e que convocou um rapper espanhol para abrilhantar ainda mais a atuação. Urge vê-los futuramente em Portugal.

Na avenida del Parallel, os Throes + the Shine estavam mais que prontos. Nos últimos anos a banda tem dado bastantes concertos fora de Portugal. Como explicou Igor Domingues, baterista da banda, ao Observador, esse percurso internacional “começou em 2012, no Sudoeste. Demos um concerto antes de uma banda israelita e o saxofonista dessa banda viu o nosso concerto e gostou, mostrou ao agente europeu deles e a partir daí desencadeou-se tudo”. Hoje, os Throes + the Shine têm “agentes em diversos países”, mas esse primeiro agente ainda lhes marca “muitos concertos na Europa”, daí que digam que, além de ser preciso “trabalho, fazer-se algo que não seja banal”, porque “ninguém quer ouvir os Muse holandeses, portugueses ou espanhóis, para isso ouve-se os originais”, também ajuda “ter um bocadinho de sorte e estar no sítio certo à hora certa, falar com as pessoas certas”.

A avenida, onde durante a tarde tinha tocado o Real Combo Lisbonense, estava cada vez mais cheio, porque o alinhamento do dia era forte. Antes dos Throes + The Shine, atuaram as The Mani-Las, banda rock de Madrid que granjeia popularidade em Espanha, como se viu pela oferta de camisolas e autógrafos assinados depois do concerto. Depois dos portugueses, seguia-se a atuação de Nathy Peluso, um verdadeiro fenómeno destas paragens, que vive em Madrid e mistura ritmos latinos com hip hop e R&B, jazz e sons brasileiros, rimas com canto e dança. A popularidade de Peluso é tanta que os seguranças viram-se aflitos para garantir que quem passava pela fita de plástica que protegia o corredor de acesso ao backstage voltava para a zona normal de acesso ao público. Quem o fazia não pretendia chegar-se a Nathy Peluso, pretendia apenas galgar uns metros do passeio que ficava já atrás do palco (e onde não havia uma nesga de espaço) para uma zona frontal ou lateral ao concerto, onde houvesse visibilidade. Outros preferiram subir ao toldo de uma paragem de autocarros que ali se encontrava, sentando-se lá no alto para ver o concerto.

Colocados, assim, entre dois fenómenos de popularidade em Espanha, os Throes + the Shine não tinham missão fácil mas cumpriram-na inteiramente. Entre muitos “están listos?” (estão prontos?) , apresentações (“Somos Throes and the Shine”, “Venimos de Porugal”) , declarações de simpatia (“Estou muy contente por estar aqui com usted”), saltos, dança, pedido de “barulho”, desafios a “bailar” e “hacer la fiesta” e descida ao público para celebrar com ele, o palavroso vocalista Diron Animal comandou um concerto enérgico do trio. O público, esse reagiu bem ao rock-kuduro pouco esperado da banda, que em alguns temas novos apresentados parece flirtar ligeiramente com o hip hop e até o afrotrap (em bom).,

Os temas novos apresentados em Barcelona, seis, integrarão o próximo disco da banda, que já foi gravado “em Palmela, com um produtor holandês”, amigo da banda, e com as colaborações de músicos como Selma Uamusse, Mike El Nite, Cachupa Psicadélica e uma banda mexicana de quem “gostam muito”.

“Hoje em dia temos cada vez mais bandas portuguesas a conseguirem criar uma regularidade, mas o mais difícil é todos os anos tocar fora, várias vezes. Isso também passa por fazer festivais como o Eurosonic e o MaMa [festivais para expor artistas a agentes da indústria musical]”, defendeu o teclista Marco Castro ao Observador, depois do concerto. “Foi muito fixe sentir o calor aqui, já tínhamos tocado na sala Apolo. Reparei que muita gente foi um bocado apanhada de surpresa porque não nos conhecia”,resumiu o teclista Igor Domingues, depois de recordar alguns bons concertos fora de portas, como os que deram na República Checa e Croácia, onde não esperavam um acolhimento tão grande para um projeto relacionado com músicas do mundo e sonoridade africana, e Suíça, onde “havia miúdas de topless a fazer crowdsurf e coisas assim”.

Houve ainda tempo para espreitar, na reta final da noite, o kuduro reinventado pela voz de Pongo, a antiga vocalista dos Buraka Som Sistema que está a fazer furor em França e que se fez acompanhar por uma banda. Do final do concerto, deu para tirar duas conclusões: que das poucas canções recentemente lançadas por Pongo a solo, “Baia” tem um refrão invejável mas é em “Kuzola” que está a maior pérola e que o impacto dos Buraka Som Sistema na última década da música portuguesa é enorme e duradouro, como se notou pela impressionante reação física e verbal dos catalães a “Kalemba (Wegue Wegue)”, o êxito dos Buraka Som Sistema e de Pongo que se ouviu na penúltima noite do BAM, na Rambla del Raval.

Marc Campillo é o atual diretor artístico do BAM e foi um dos responsáveis quer pela decisão de integrar 0 Portugal Alive no festival catalão de música alternativa, quer pela aposta em mais artistas portugueses no cartaz. Ao Observador, afirmou que as duas decisões surgiram da “boa oportunidade” resultante de “haver muitas bandas emergentes em Portugal, nos mais variados estilos de música”. “Devo dizer que trabalho durante todo o ano com um português, o Nuno Homem, que me está sempre a mostrar novas bandas. É fácil encontrar bons artistas”.

O festival catalão, que existe há 25 anos (começou em 1993, esta foi a 26ª edição), surgiu porque “houve pessoas que decidiram criar este festival dentro das festas Mercé, para dar uma oportunidade a estes estilos de música. Para mim o mais importante no BAM é mostrar oportunidade que dá a bandas que estão a crescer de tocar numa cidade como Barcelona, não para 100 ou 200 pessoas, mas para 2.000 ou 3.000”.

Conhecedor do cenário musical português, onde se está “a misturar todos os estilos de música” e onde, repete, “é fácil encontrar boas bandas”, Marc Campillo revelou que algumas das atuações que mais gostou foram as de Surma e Bruno Pernadas. “Mas sinceramente, gosto de todos os que vieram. Vi alguns deles em outros festivais. Tento sempre convidar bandas que me impressionaram”, acrescentou, aproveitando para mostrar ao Observador uma fotografia de um jogo de futebol em Bolonha, Itália, onde esteve com alguns dos seus amigos portugueses, programadores e organizadores do Primavera Sound e do Paredes de Coura.

Para o anterior cônsul, o facto do festival ter chegado também a Madrid “deu uma dimensão maior ao evento e motivou mais interesse nos artistas, que passaram assim a ter uma pequena digressão em Espanha”. A ideia para o futuro era que o evento pudesse “ser uma espécie de circuito para outras cidades. Não está posto de lado, mas não será o consulado geral de Portugal em Barcelona que o liderará, dependerá dos consulados e embaixadas de outras cidades e do Nuno Homem”. Com a integração do festival nas festas Mercé, Paulo Teles da Gama acredita que o Portugal Alive terá chegado “a um público a que talvez não chegássemos tanto”, atraindo mais catalães.

“Portugal não é só fado e saudade, temos uma série de nomes jovens que estão a lançar diferentes estilos de música com qualidade e a ideia é mostrá-los aos portugueses que cá vivem e também aos espanhóis e catalães que aqui estão”, referindo ainda que “Barcelona é sempre um destino interessante para qualquer artista que queira internacionalizar o seu trabalho e esta é uma oportunidade para isso”. O futuro já não passará pela sua intervenção, mas o anterior cônsul deseja que o seu sucessor “continue este projeto”, porque “o Portugal Alive já ganhou força suficiente por si só para o levar adiante, para lhe dar seguimento”.

Além do festival Portugal Alive e das restantes presenças portuguesas no BAM, as festas Mercé dedicaram uma noite ao fado, com presenças de Camané e Cuca Roseta, expondo ainda gastronomia portuguesa e projetos na área da dança, teatro e outras artes performativas. As celebrações iniciaram-se na passada sexta-feira, 21 de setembro, tendo terminado esta segunda-feira, 24.