Quando nasci, ele já estava lá, majestosamente erguido na esquina da Avenida
Copacabana com Bolívar. Aliás, já estava lá há tempos, desde 3 de setembro de
1938, quando as salas de exibição começaram a não ser exclusividade do Centro e
se espalhavam pelos bairros da cidade. No coração de Copacabana, ele anunciava a
nova Cinelândia do Rio. Não tem mais o prestígio de outros tempos, quando suas
1.200 poltronas estavam sempre ocupadas durante cinco sessões diárias. Nem dá
mais para saber como eram esses tempos, já que sua área de dois andares foi
dividida em três salas, atendendo a um modismo dos anos 90 do século passado que
via nesse formato a salvação do negócio. Deu certo por um período. Cinema não é
mais um negócio tão bom. Muito menos um cinema de rua. Mas o Roxy ainda está lá.
Meio decadente, cercado por grades, mas ainda está lá. Resistindo. Único
sobrevivente de uma Copacabana charmosa, que não existe mais.

Foi no Roxy que eu vi “Grand Prix”, com a tela dividida em múltiplas
subtelas, uma sequência diferente em cada, efeito que só o Cinerama podia
proporcionar. Foi onde eu vi “Terremoto”, com um sistema especial de som que
dava a impressão de a poltrona tremer a cada abalo sísmico no filme. Foi para
entrar no Roxy que eu enfrentei uma fila colossal antes de uma das primeiras
sessões de “Xica da Silva”, o exuberante filme do Cacá.

Passei muitos carnavais no Roxy. Na época, o carnaval do Rio se limitava ao
desfile de escolas de samba. E à passagem da banda de Ipanema. Os cinemas
ficavam cheios. Me lembro de uma sessão lotada, às 10 da noite, no domingo,
mesmo dia do desfile, de “A última noite de Boris Grushenko”. Mas o Roxy foi,
principalmente, o grande lançador das comédias da Atlântida. Tinha uma prima
mais velha, que passava as férias no Rio e me levava ao Roxy para assistir às
chanchadas. Na verdade, era prima de uma prima. Ela não era fã das ingênuas
comédias brasileiras. Mas me enganava. Comprava dois ingressos e, na hora de
entregá-los ao bilheteiro, dizia: “Vai entrando, enquanto compro uma bala e te
encontro depois”. Eu resistia um pouco. Ela insistia: “Entra e guarda um lugar
pra mim, se não a gente vai sentar no chão.”

Ela tinha razão. O cinema estava
sempre cheio. Se a gente bobeasse, tinha que sentar no chão. Antigamente,
sentava-se no chão dos cinemas. A prima da prima demorava, eu chegava a ficar
preocupado, mas, aos poucos, ia me envolvendo na trama com Oscarito e Grande
Otelo e me esquecia da vida. Na saída, ela estava sempre na porta me esperando.
“Quando entrei, as luzes já tinham se apagado e não te encontrei. Mas adorei o
filme.”

Era sempre assim. E eu sempre
acreditava. Muitos anos depois, eu já adulto, ela confessou que não se
interessava pelas chanchadas, mas, como ninguém nunca queria me levar, ela se
submetia ao sacrifício. Mas daí a entrar no cinema já era demais. Ela fazia o
truque. Depois, se arrependeu. “Bem que você me falava. Perdi ótimos
filmes.”