Meu pai, aos 93 anos, tem uma memória do cão, melhor dizendo, de cão. Lembra tudo desde pequenininho, os coleguinhas, as brincadeiras na escola e de rua, os vizinhos, o que havia na cidade e quem nela morava, e isso também de quando moço e adulto. Coisa fora de série. Memória essa em grande parte atribuída a muitas férias passadas em Tramandaí, onde praticamente todos os dias comiam peixe, pescados na hora, não contaminados. Ontem, um dia antes de eu começar a escrever esta crônica, ele me disse “Luiz, foi tão bom meu tempo no jardim que eu vejo aqui, agora, na minha frente a dona Dorothea Schäfke me sorrindo”. Ela foi sua primeira professora. Eu, por minha vez, aos 54, tenho grandes limbos, lembro pouco do jardim, das professoras lembro todas, aquelas das séries únicas, depois da quinta série em diante lembro de vários mestres e mestras, mas lembro pouco de outras coisas, de datas por exemplo, sou péssimo. Por sua vez, minha memória cinéfila, essa se perpetua e recupero facilmente. Acho que o cinema é minha missão, uma delas aqui na Terra. Além disso, foi por meu amor pelas telas que me tornei conhecido, que as impressas da região me abriram suas páginas. Divulgar e comentar a sétima arte está no meu sangue, não adianta fugir, a coisa volta, e quero que escrevam algo a respeito no meu túmulo, se eu tiver um. Lembrem, na crônica do mês passado falei sobre os torrents, que ficaram mais fáceis e são uma riqueza para cinéfilos. Isso reavivou em mim a vontade de falar sobre filmes e séries.

O fascínio/prazer de mergulhar nos links na expectava do que irá surgir, de conseguir a película, seja antiga ou não em ótima qualidade, com som original e legenda, mesmo que tenha que se montá-la por links diferentes, de poder ver coisas que nem se imaginava existirem, de rever coisas que um dia vi e gostei, e passar/indicar esse material para outros que o curtem, isso agita meus dias, me renova. Disse para minha esposa, no fundo, meu trabalho é esse. Foi nessas arqueologias torrentianas que achei “Cada um com seu cinema”.

Trinta e quatro grandes cineastas, não esses de blockbusters tipo franquia Vingadores, Velozes e afins, mas gente como Wim Wenders, David Lynch, em curtas de três minutos, cada um a sua maneira fazendo sua homenagen ao cinema. Pô, isso me ouriçou. Tenho agora o meu curta de três minutos girando nas ideias, fato que também fez surgir esta crônica. Dizer qual foi a minha primeira vez no cinema, isso claro, impossível, pois deve ter sido muito, muito cedo. Brinco que nasci dentro de um. Mas momentos marcantes, com pessoas marcantes, esses são muitos. Ficam, porém, para a próxima coluna.