Um ônibus passa pelas ruas da Jova Rural, na zona norte de São Paulo. No meio da paisagem quase interiorana do bairro uma cena incomum: no caminho preenchido com vegetação, jovens com câmera fotográfica, tripé e rebatedor fazem fotos. 

“Um tripé na periferia já assusta. No centro é muito normal”, diz fotógrafo Alexandre Gomes, 20. Morador da região, Alexandre faz parte do coletivo Gueto Cine, projeto que realiza aulas de fotografia na Jova Rural.

Tudo começou quando ele teve contato com a área quando era aprendiz na Fábrica de Cultura do Jaçanã. Lá não era possível sair nas ruas com a câmera. Hoje, ele consegue providenciar práticas externas pelo bairro. 

Os três tiveram como educador Flávio Galvão, de outro coletivo de audiovisual, o Fabcine. Criado em 2005, o Fabcine atua com produção, difusão e exibição audiovisual.

Em 2017, os integrantes dos dois grupos se juntaram e enviaram uma proposta que foi aprovada pelo Edital Fomento à Cultura da Periferia, para realizar oficinas de audiovisual.

“A gente tem que praticar aqui. Eu prefiro fazer ensaio aqui do que no centro. Se você tira uma foto na periferia, cada periferia é diferente. Só quem é sabe”, diz Gomes.

“Antes eu achava que era só pegar na câmera, mas não é assim”, conta a  agente operacional Samantha Kathrin de Souza, 31, que participou da oficina. “Não tinha condições de pagar curso de fotografia e aprendi bastante coisa.” 

“Eu peguei a câmera para fazer meu primeiro ensaio de fotos com uma amiga que estava grávida. O Alexandre disponibilizou o computador para editar as fotos lá no Gueto Cine. Minha amiga ficou bem satisfeita com o resultado. O pessoal ajuda bastante a gente”, diz.

Alexandre mora na rua José Milton Barbosa, bem próxima ao prédio da Fábrica. Na parte superior da casa, havia um cômodo que não era utilizado. Com a aprovação do edital, de fevereiro a setembro de 2018, eles conseguiram reformar o espaço e transformá-lo para receber as atividades.

Antes disso, Alexandre e a família passaram por alguns problemas. “A telha atrasou a entrega, era época de chuva. Ficou cheio de água aqui e desceu molhando uma cama da minha mãe que quebrou”, relembra.

Segundo Yamamoto, as oficinas são realizadas todo sábado e domingo das 10 às 13h e, além de moradores do bairro, têm recebido interessados de outras regiões da cidade. São de 15 a 20 participantes. Também são ensinadas aulas básicas de edição.

Apesar de atuarem em parceria, Guetocine e Fabcine têm focos diferentes. Enquanto o GuetoCine se transforma em um espaço fixo de formação na Jova Rural, a missão do FabCine é itinerante. 

Com edital, o FabCine equipou uma kombi com equipamento e estrutura para exibições itinerantes de filmes em várias periferias de São Paulo uma vez por mês. 

“Ir ao cinema é caro tanto o ingresso quanto a pipoca. A gente chega com os filmes nacionais nas margens. Além do filme ser de graça, a gente também leva a pipoca”, afirma Alexandre.

“A gente é da cidade, não é de lugar nenhum, por isso temos uma kombi e não um espaço físico. A gente pensa em ter um micro-ônibus. A nossa sede é ambulante, a gente não tem lugar”, completa Galvão.

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