“Há muito tempo que eu sentia em Berlim a falta de ver filmes portugueses. Vim para a Alemanha há 30 anos e dei-me conta que Portugal continuava a existir, mas eu não tinha noção do que lá se passava. Mesmo com a internet, há muita coisa a acontecer à qual não temos acesso. Um exemplo são os filmes de que toda a gente fala em Portugal, mas que não chegam ao mercado alemão”, revela a diretora da Associação 2314.

“Fizemos um inquérito no facebook, na página da Associação 2314, perguntado quais os filmes que os seguidores de página gostavam de ver. Depois perguntámos também a outras pessoas fora da internet, e fomos ouvindo as críticas e as sugestões e tivemos que fazer uma escolha.”, realça Helena Araújo.

“I don’t belong here”, de Paulo Abreu, “São Jorge”, de Marco Martins, “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho, “Fátima”, de João Canijo e “Quem é Bárbara Virgínia?”, de Luísa Sequeira e Eduardo Sama, foram as cinco películas escolhidas, parte delas com alguma ligação à Alemanha.

“O documentário ‘I don’t belong here’ é sobre a criação de uma peça de teatro com açorianos que foram muito jovens para os EUA e Canadá, e depois, muito mais tarde, foram repatriados, devido a regras do sistema criminal do país, acabando por voltar para uma realidade que não conhecem, onde nem sequer falam a língua. Pareceu-me um filme muito interessante para Berlim, porque a Alemanha também faz isso, por exemplo, com os turcos. Os filhos dos turcos que não têm nacionalidade alemã, e que entram numa vida de criminalidade, podem ser repatriados para a Turquia, mesmo que nem sequer tenham nascido na Turquia nem falem turco.”, adianta a responsável pela mostra de cinema.

“O filme ‘São Jorge’, conta a história de um antigo pugilista desempregado, que precisa de dinheiro, e acaba por entrar numa espiral de violência que não faz sentido, tanto mais que ele persegue as pessoas que estão na mesma situação que ele. E este filme também fiz muita questão de mostrar aqui na Alemanha porque os alemães não sabem o que a Troika significou, em termos de sofrimento e de desgraça, para os portugueses.”, destaca Helena Araújo.

Mas “Fátima” foi a primeira escolha da coordenadora da mostra porque, recorda, “em 2017 toda a gente falava desse filme em Portugal”. À exibição da longa-metragem, junta-se um debate com o realizador João Canijo e o jornalista, especialista em assuntos religiosos, António Marujo.

“A mostra é pensada, antes de mais, para os portugueses, mas queremos trazer filmes que possam interessar o público berlinense. Penso que é muito importante darmo-nos a conhecer, uma Europa coesa e forte tem de passar por sabermos uns dos outros.”, frisa Helena Araújo.