Joaquin Breton é um nome, por enquanto, desconhecido ao mundo do cinema, e não poderia ser diferente. A Peônia que será exibido na Mostra SP é o primeiro longa-metragem da carreira do cineasta. Antes disso, apenas um curta, Royaume du O, lançado em 2010. Interessante que assim como a obra Um Noir nos Balcãs de Drazen Kuljanin, o filme belga também apresenta as mesmas deficiências, uma mão pesada na direção. Só que se esta mão, no filme sueco de Kuljanin, pesa na mise-en-scène e na composição de arte com fotografia, na obra de Breton essa mão força a barra nos diálogos, nas monótonas interlocuções.

A Peônia divaga, pois contar ou narrar não é o caso aqui, sobre a vida de Salomon, homem vivido que de volta à sua cidade natal, frequenta o bar de seu amigo de longa data Jean, onde Salomon rememora passagens da vida, como a perda de seu parceiro Dimitri, morto por um tiro de rifle.

Engraçado que a comparação com Um Noir nos Balcãs pode continuar, pois ao contrário do filme sueco, se há um elogio que faz justiça à obra A Peônia é o aspecto cinematográfico. Sabendo utilizar o melhor dos cenários naturais e ambientes, a fotografia no filme de Joaquin Breton é simples, mas encantadora. Ela, por si só, é a única forma narrativa compreensível ao mesmo tempo que atraente de se testemunhar.

No longa de Breton, existem alguns assuntos e temas, alguns não tão fáceis de ser identificados, outros mais transparentes, mas mesmo neste último tipo, apenas um consegue elaborar sua defesa que é quando Breton nos indica uma oposição entre o velho e o novo. É acessível seu entendimento pois ele se dá pelos cenários onde cada um dos personagens se resguarda, um com medo do outro. Salomon fica numa área a céu aberto, que parecem ruínas de construções antigas, feitas à base de pedras com imagens sagradas; já o Sr. Superintendente mora em uma habitação coletiva. Assim, belo e funcional, e de rápida assimilação. Porém, infelizmente o longa belga resolve ir além, muito além.

A maior desvantagem em A Peônia da Mostra SP é o excesso de temáticas. Joaquin Breton quer abordar muitos temas, bem diferenciados, todos sob o mesmo guarda-chuva, e ainda com o uso de alegorias, que atuam no campo do realismo como o hábito da caça por esporte, ou até pisando em solo religioso ou espiritual. Sem distinguir pela lente da câmera, qual é qual. Definitivamente, um rocambole, só que nada saboroso.

Seja para diretores iniciantes, ou mais experientes, esses desníveis as vezes acontecem. Nos mais jovens, por uma ansiedade de mostrar valores, em boa parte dos casos; já com os veteranos, por uma extra segurança que pode ser confundida, ou chegar ao patamar da vaidade e afetação. É importante saber não apenas o quê se têm em mãos, mas o porquê e o como isso deve ser transpassado para o seu público. E, no começo, quando ainda não for o dominador de tantos aspectos relacionados à narrativa, vale lembrar, as vezes menos é mais.

Desta maneira, alguns temas acabam sendo desperdiçados, como quando Salomon explica a Dimitri as limitações do ser humano no plano terreno, dizendo que só alcançamos nossos mais altos potenciais quando sonhamos, pois na contagem numérica do mundo dos seres vivos, somos escravos; ou quando eleva o humanismo, e nivela feminismo e chauvinismo pejorativamente, concordando ou não com suas conclusões, ao menos seria devido discorrer sobre estes, não apenas citá-los sem desenvolvimento, limando a ponte de interesse para com o espectador.

Outro ângulo subaproveitado em A Peônia é a peculiaridade da interlocução entre personagens. Graciosamente, ela começa estranha, desajeitada mas conferindo uma figura atraente, até por ser suavemente cômica e irônica. Mas, lamentavelmente isso vai se perdendo no andar da carruagem, logo, acaba virando um tipo de discurso contemplativo dos mais tediosos.

Ainda há muito a ser melhorado no cinema de Joaquin Breton, disponível na Mostra SP. Contudo, na primeira impressão consegue-se absorver alguns valores, especialmente pela narrativa através da câmera. É clara, a disposição de ideias do autor, mas é falha a organização e desdobramento destas no fio narrativo. Torcer para que Breton em seu próximo longa consiga fazer mais do que dizer por dizer.