Pela segunda vez, a 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro teve um dia de exibição completamente dominado pelas mulheres cineastas. Na noite da última quinta-feira, três filmes mostraram que o cinema nacional vem ficando cada vez mais rico com o ponto de vista de suas diretoras.

A baiana Gabriela Amaral Almeida, em seu segundo longa, o angustiante A Sombra do Pai, comprova suas credenciais de autora numa seara em que poucos se aventuram. Ligada às narrativas de terror e suspense, seu novo filme deixou o público sem fala com a história de uma garota órfã que acompanha o lento desmoronamento psicológico do pai.

Após a morte da mulher, o pedreiro Jorge (Julio Machado) entra num processo de estranhamento profundo, em que perde a capacidade de cuidar da própria filha, Dalva (Nina Medeiros). Sozinha e com os cuidados ocasionais de uma tia (Luciana Paes, a atriz fetiche da diretora), a menina se vê na situação de forjar a sobrevivência através da fé. “Eu acredito na vontade da crença como algo que pode ajudar a salvar essa menina”, apontou Gabriela, durante a entrevista coletiva realizada na manhã de ontem. O curta de animação pernambucano Guaxuma, realizado pela alagoana Nara Normande, que mora no Recife, também traz uma reflexão sobre a perda. Em seu terceiro curta, Nara volta à Praia de Guaxuma, em Alagoas, para visitar onde nasceu e foi feliz, mas que também é marcado pela lembrança de Tayra, uma amiga de infância já morta. A criatividade da animação, realizada com uso de areia e de técnicas de stop motion, é um dos elementos distintivos do curta.

Um dos curtas mais inteligentes do festival, Plano Controle, da mineira Juliana Antunes, deixou o público do Cine Brasília em estado de graça. A cineasta se apossa de uma ideia muito comum da ficção científica (a viagem no tempo), para fazer uma crítica certeira sobre o lugar que ocupamos. No futuro, as viagens serão feitas por teletransporte através de celular. A personagem do filme tenta ir para Nova York, mas é levada para um bairro com o mesmo nome em Belo Horizonte.

Sem que as operadoras resolvam a situação, a mulher acaba viajando até os anos 1990, quando ela compara as mazelas sociais e políticas do País. A montagem de cenas de programas da TV, intercaladas entre as viagens, provocaram as mais sonoras gargalhadas de todo o festival.