Essas são palavras usadas por Javier Portús Pérez, um especialista em arte que aparece no documentário O Quadro, do Netflix. Com ares de thriller, o filme reúne especialistas que tentam decifrar os mistérios guardados no quadro As Meninas, de Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (1599-1660).

Nesta terça-feira (19), o Museu do Prado de Madri, que abriga essa obra de arte enigmática, celebra 200 anos. O prestigiado museu abriu suas portas na capital espanhola em 19 de novembro de 1819 com uma coleção modesta, em nada comparável com o rico acervo que possui atualmente.

Mas, sem dúvida alguma, o seu quadro mais icônico é As Meninas. Mais de 360 anos após ser pintado, o quadro ainda desperta divergência sobre o que o artista de Sevilha quis representar ao executar a obra.

O quadro As Meninas está ambientado no estúdio de Velázquez, na Real Alcázar de Madri, uma fortaleza convertida em palácio real onde vivia o rei Felipe 4º (1621-1665) com sua família.

A diferença desse quadro para os retratos tradicionais da realeza é que o quadro As Meninas se compara com uma cena de um filme, pela ação e o movimento que contém. Além disso, a incomum presença do próprio pintor no quadro, ao fundo, olhando na direção do espectador, aumenta ainda mais o enigma em torno dele.

“Este foi um dos primeiros quadros que me causaram impacto durante o meu tempo de estudante e vou me referir a essa experiência”, disse Imaginario à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

“É um jogo entre realidade e ficção que se desenvolve quando ele suprime o que está pintando e o devolve como um reflexo no fundo do quadro, enquanto te distrai apresentando o restante da cena”, explica.

As Meninas nem sempre teve esse nome. Velázquez deu ao quadro o nome de A Família de Felipe 4º. O nome atual da obra surgiu em 1843, quando os especialistas de arte da época chegaram ao consenso de que a pintura ia muito além de um simples retrato da família real.

No centro da cena está a infanta (princesa) Margarita Maria Teresa de Áustria. A princesa era quarta filha de Felipe 4º, mas a primeira que ele teve com sua segunda esposa, Mariana de Áustria.

No centro da parede ao fundo há uma porta aberta pela qual dá para ver um homem numa escada encarando o espectador. É José Nieto Velázquez, camareiro da rainha que também estava encarregado da oficina de tapeçaria.

Por fim, no talvez mais importante elemento de toda a composição, há um espelho à esquerda da porta, no qual vemos o reflexo de um casal: o rei Felipe 4º e a rainha Mariana.

Não sabemos o que está acontecendo ou o que reúne essa variedade de personagens no mesmo lugar. Não sabemos se Velázquez está fazendo um retrato da infanta ou dos reis que são refletidos.

“Temos pinturas que acompanham toda a cena, temos uma obra de arte que ao mesmo tempo representa outras obras de arte, e não é a única vez que isso acontece, isso foi feito várias vezes ao longo da história da arte — mas esse quadro também inclui esse espelho, que se destaca”, diz a estudiosa.

Praticamente todos os historiadores e restauradores de arte datam a obra As Meninas em 1656. Dado que a infanta Margarita nasceu em 1651, isso se encaixaria perfeitamente com a idade em que ela aparece na pintura.

Outra possibilidade, que surge em estudos mais recentes, é que toda a cena é um produto da imaginação e fantasia do pintor, de modo que o fato de aparecer com a cruz de Santiago poderia muito bem ser a expressão de um desejo.

Para alguns estudiosos, isso mostra uma antiga reivindicação dos artistas do século 16, que queriam que seu ofício fosse mais valorizado. Até então, eram vistos como meros artesãos, considerados inferiores a escritores ou músicos.

Para Andrea Imaginario, “o que vemos em As Meninas de Velázquez não é exatamente o retrato de algo, é a elaboração de um conceito extremamente complexo, um conceito literário”.

“Ele não apenas faz isso. Coloca outras coisas. Nesse sentido, poderíamos ver o significado total como uma afirmação da importância da pintura dentro de um universo que ainda não lhe dava o mesmo valor que daria literatura e música.”

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