“Diretamente de São Paulo, zona norte”. Assim se apresentou Emicida na quinta (11) no primeiro dia do NOS Alive, um dos principais festivais de música da Europa, que ocorre anualmente em Lisboa desde 2007. Neste ano, ele surge na programação ao lado de nomes como The Cure, Johnny Marr e Smashing Pumpkins.

O rapper paulistano iniciou uma série de shows pelo continente, onde ainda passará por cidades como Barcelona, Berlim, Dublin e Londres. Já se foram 11 anos desde que Emicida, 33, ganhou destaque na cena musical brasileira, quando lançou “Triunfo”, em 2008. Suas letras escancaram problemas sociais e trazem à tona temas como racismo e homofobia. “Eu passei por muitas fases. Panfletária, revoltada, afetuosa… Acho que agora estou numa fase mais humana”, diz em entrevista antes de sua apresentação.

E justamente neste momento “mais humanizado” da carreira vem o single “AmarElo”, em parceria com as cantoras Pabllo Vittar e Majur e que vai dar o nome ao próximo álbum do cantor. À época do lançamento, em 25 de junho, Emicida afirmou que “a ideia é que as pessoas observem ao redor e se enxerguem maiores do que os seus problemas, independente de quais sejam.”

Com um sample, a canção resgata ainda versos de “Sujeito de Sorte”, lançada por Belchior (1946-2017) em 1976. “O rap não pode abandonar o sample. Porque o dia que isso acontecer ele se afasta da cultura de reverência dos mais antigos. A gente se afasta da nossa africanidade”, afirma.

Segundo Emicida, a cultura hip-hop é a principal ferramenta de comunicação dos afrodescendentes na diáspora. “Se a gente se afastar desses valores profundamente africanos, a gente está se desconectando drasticamente da nossa raiz. Trazer o Belchior de volta é a coisa mais africana que poderíamos fazer hoje.”

O paulistano foi para o primeiro dia do NOS Alive em que foram vendidos 55 mil ingressos, segundo a organização —capacidade máxima do recinto. Além de portugueses e brasileiros muitos turistas do Reino Unido e da Espanha, por exemplo, vão ao festival.

Com um som potente, o rapper paulistano conseguiu atrair a atenção mesmo de quem não falava o mesmo idioma de suas rimas. A letra que a música traz é universal, diz Emicida. “A mensagem de Belchior atravessa a geografia. Não é só o Brasil que vive esse momento de tensão, de ascensão da ignorância, a sensação de estar correndo numa esteira, não é uma exclusividade brasileira.”

Participações especiais de artistas com quem ele já gravou também fizeram parte da noite. O cantor português Papillon subiu ao palco para entoar “Eminência Parda”, enquanto a cabo-verdiana Mayra cantou “Passarinhos” e “Afeto” com o paulistano.

E o momento atual do país, para Emicida, é frustrante e não muito inspirador. Há discussões que já deveriam ter sido superadas. “Porque a expectativa é sempre melhorar […] Gostaria que a gente não estivesse debatendo trabalho infantil. Pode ou não pode? A gente está em que ano? 2019, parceiro? A gente está correndo na esteira.”

O lançamento do próximo álbum de estúdio ainda não tem data definida, mas deve ocorrer no segundo semestre deste ano. Será o terceiro da carreira que já conta com “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui” (2013) e “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” (2015).

O rapper paulistano nasceu no Jardim Fontalis, um bairro bem pobrinho da zona norte paulistana, como ele mesmo define. Por sua trajetória e suas conquistas ele se considera abençoado. “Aprendi a fazer música com alguns dos caras mais incríveis que a gente já teve, foram meus professores que me acompanharam pelo rádio e tive oportunidade de fazer música com vários deles. Do Racionais até o Caetano Veloso.”

Emicida também faz parte da programação do Rock in Rio. No festival carioca, ele se apresenta no dia 29 de setembro, quando recebe o duo Ibeyi no palco para parceria.

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