O São Carlos abriu a temporada coral-sinfónica com uma obra singular de Michael Tippett: A Child of Our Time, a que a Orquestra Sinfónica Portuguesa deu vida e sentido. «Não temos refúgio», canta-se a certa altura. Haverá algo mais actual?

A temporada sinfónica do Teatro de São Carlos arrancou este sábado com a apresentação de uma obra especial: A Child of Our Time, do compositor inglês Michael Tippett. Trata-se de uma obra coral-sinfónica, com quatro cantores solistas, uma espécie de oratória pacifista, terminada em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, mas só estreada depois da guerra. A abertura da temporada juntava diversas comemorações (70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, 40 anos da Adesão de Portugal à Convenção Europeia dos Direitos Humanos) e uma homenagem a Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português que desobedeceu a Salazar concedendo vistos a milhares de refugiados perseguidos pelo nazismo no início da guerra.

Neste sentido, a peça pacifista de Tippett parecia escolha certeira. Joana Carneiro abriu o concerto com microfone na mão, explicando brevemente ao público presente o sentido da obra. Logo depois, a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do São Carlos tiveram um início poderoso, na inquietante primeira parte de A Child of Our Time, onde se lamenta um mundo de destruição, tormento e chacina. A expressão do terror e da opressão atravessou as cordas da orquestra e as vozes abriram muitíssimo bem esta obra que consegue ser muito mais do que uma declaração de intenções socialmente justa: a música fala com as vozes, diz muito de um mundo que “gira para a sua face obscura”.

A certa altura surge um “Coro dos oprimidos”, perguntando pela utopia mais simples: “quando partirá o usurário da cidade? E quando partirá a fome da terra abundante?” E logo de seguida o magnífico tenor David Butt Philip cantou “I have no money for my bread” com uma clareza invejável, conseguindo uma perfeita ligação entre texto e música, num dos melhores momentos da noite. Logo de seguida, a soprano Francesca Chiejina, num estilo bem diferente, com uma potentíssima projecção vocal, pergunta-se (e pergunta-nos) como se pode ser mãe num mundo em destruição. Bem estiveram também Cátia Moreso e Luís Rodrigues, embora este último tenha obscurecido tanto a voz que nem sempre o texto passava. A primeira parte, de uma intensa beleza escura e atormentada, acaba contudo com um emocionante espiritual negro (Steal away to Jesus) que o coro do São Carlos cantou tão bem que conseguiu abrir uma luz de esperança.

Na segunda parte, A Child of Our Time agita-se em acção e drama, a partir do episódio do assassinato de um diplomata nazi por um jovem rapaz judeu. Abre-se uma reflexão em música sobre a violência, e fica claro quem é esta “criança do nosso tempo”. Um bode expiatório para o terror, uma imagem do desespero, uma vítima de perseguição e de anti-semitismo. “We have no refuge”: os tempos são outros, mas haverá frase de maior actualidade? Depois, os espirituais negros voltam a aparecer, entre o lamento e a possibilidade de um outro caminho, numa curiosa composição de Tippett, que cruza elementos musicais díspares e os junta numa unidade improvável, entre a oratória barroca, o ímpeto sinfónico humanista e a música popular.

Se na terceira parte estes elementos ficaram um pouco empastelados, não foi culpa da Orquestra Sinfónica Portuguesa nem do Coro, que estiveram quase impecáveis. É que a composição de Tippett perde fôlego e quer fazer mais grandiosos tanto o desespero como a esperança, e nisso perde a força da primeira parte, em que a música se interroga sobre o seu papel ao mesmo tempo que nos obriga a pensar no nosso.

A casa não estava cheia para tão interessante concerto. Que tal convidar jovens estudantes e outros públicos com menos posses para vir ouvir a preços acessíveis intérpretes e música de qualidade, para haver menos lugares vazios num concerto de abertura de temporada como este? Há certamente maneiras de o fazer. Não é nada de novo, mas aqui fica a sugestão.