No universo da música underground existe um lema chamado “faça você mesmo”, com o “mesmo” no masculino, o que acusa uma cultura na qual as mulheres são relegadas ao segundo plano — independentemente do quanto façam por si mesmas.

Historicamente, muitas mulheres deixaram uma marca na história do rock, o que não impede que essa seja ainda ofuscada pela predominância masculina. E se isto acontece em gêneros de rock que são mais palatáveis ao gosto médio, imagine em estilos em que temas de terror e ocultismo, violência explícita, linguagem chula e críticas políticas contundentes são berradas ao som de pesadas guitarras e distorcidas?

De Norte a Sul do país, bandas formadas exclusivamente, ou predominantemente, por mulheres, têm conquistado espaço e renome nacional e internacional, enfrentando todas as contrariedades, para se dedicar às vertentes mais extremas e pesadas da música, do hardcore ao metal. Com técnica apurada, talento e sangue nos olhos, elas acrescentam às mensagens típicas do estilo um olhar feminista e um ponto de vista muito próprio.

Em Belém do Pará, por volta de 2015, a banda Klitores Kaos iniciou as atividades voltadas para subgêneros ainda mais barulhentos do punk. “A banda focou em sons voltados ao crust punk e referência das manas riot girl. Os primeiros sons eram bem secos mesmo, mas acredito que era pela pouca experiência que tínhamos. Ninguém na primeira formação era musicista. Então, foi bem faça você mesma”, contextualiza 

Debby Mota, vocalista da banda. Foi ela que, como baterista, criou a banda junto à vocalista anterior, Luma. Elas se conheceram em um protesto na Praça de São Brás. Luma era uma ativa militante, sempre discursando e participando dos atos, e Debby, filha de evangélica e menor de idade, a adicionou nas redes sociais. Debby era louca para ter um coturno, e Luma estava vendendo um. Se encontraram na casa de Luma para fazer a transação e se identificaram de cara.

Debby não frequentava a cena, embora já manjasse de som. Luma era experimentada e dava preferência para a cena de metal. Debby tocava bateria e já tinha tentado fazer uma banda com a amiga Nia, mas não foi para frente. Luma escrevia letras e era boa para “dar nome aos bois”, e foi ela quem batizou o projeto musical, só com mulheres, que estavam

Foram convidadas para participar do festival Calcinhas do Metal e tiveram que recrutar integrantes e ensaiar em apenas duas ou três semanas, um repertório com muito mais covers do que músicas autorais. Logo no primeiro ensaio, num estúdio, começaram a sofrer ataques pela internet de homens que diziam para elas desistirem e até faziam ameaças. E, no primeiro show tiveram que enfrentar uma fila de homens, de braços cruzados e pernas abertas, cercando a frente e a lateral do palco, xingando-as de nomes irreproduzíveis, fazendo caretas e deboches.

E, assim, contam as integrantes da banda, tem sido na maioria dos shows em que se apresentam desde então, com episódios de assédio, manifestações libidinosas, ameaças e muitos desestímulos. Apesar disso, elas nunca caíram na pilha e, 

Muitas e muitas formações depois, a banda agora é um quinteto formado por Debby Mota (vocal), Josy Lobato (bateria), Nia Lima (Guitarra/backing vocal), Line Menezes (contrabaixo) e Ingrid Lima (guitarra solo), que está expandindo o som para além das fronteiras do crust, trazendo influências de metal e outros estilos pesados.

Na simbólica data de 8 de março, finalmente saiu o primeiro EP, homônimo, que registra a formação de 2017 a 2018.O disco se tornou possível por meio de financiamento coletivo, que contou com apoio de fãs de todo o Brasil. Mesmo assim, por falta de experiência, o valor de R$ 1.000 logo se mostrou insuficiente para a empreitada. “Esse EP é um mocotó”, brinca a vocalista Debby, que neste EP está tocando bateria, e explica: “O mocotó é uma comida que demora muito tempo para cozinhar, sob pressão”.

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