O guitarrista e compositor cearense Mathias Lobo lança o primeiro registro solo. O EP autointiulado tem seis faixas instrumentais com grandes linhas de guitarra que ajudam a construir “climas, tensões e explosões mais abstratas”, como define o próprio artista, e evidentes referências nordestinas.

Todas as faixas foram compostas pelo cearense que desde março de 2019 vive em Curitiba. Uma delas, “Falsa”, foi originalmente concebida pelo artista Maurício Rodrigues, conhecido nos palcos do Ceará pelo personagem Batuta, e rearranjada por Lobo para o disco.

“Quando fiz minha primeira trilha para um documentário (“Feriado na Vila”), comecei a compor temas e arranjos instrumentais. Daí percebi que já tinha muita música instrumental não terminada”, conta o artista, que tem se dedicado a compor trilhas sonoras para o cinema.

Para ele, o EP chega em um momento de importância discussão. Ele diz que o verbo “resistir” se faz presente mesmo sendo um disco instrumental. “É um momento que artistas precisam mostrar suas criações, se impor. Esse encorajamento para mim foi crucial e determinante”, pontua.

Antes de partir para Curitiba, Mathias Lobo fez jornada na cena cearense. Entre os anos 2000 e 2006, gravou dois discos com a banda Água de Quartinha e tocou em festivais e mostras do Nordeste. Ainda com o grupo, recebeu o Prêmio Hangar de Música Nordestina (2013) em Natal-RN na categoria Hangar Nordeste.

Cut: “É a faixa que abre o EP. Queria uma música com texturas mais simples e fáceis de ouvir. Tinha o tema principal da guitarra na minha cabeça fazia meses e faltando duas semanas para começar a mixagem resolvi trabalhar esse tema. Se tava na minha cabeça e eu não parava de cantar, então precisava botar pra fora. Tive ajuda do Batuta, na produção, que arredondou alguns arranjos”.

Guepardo: “Na produção dessa música eu estava ouvindo muito a banda potiguar Far From Alaska, e as guitarras do Rafael Brasil foram as principais inspirações de timbres e riffs. É a música que eu menos solo e concentrei nos timbres duplicados com fuzz (efeito clássico do rock). Quero propor uma música pesada, suja, arrastada em que se consiga sentir desconforto. Mesmo sem muitos solos, considero uma das melodias mais lindas do EP”.

Falsa: “Essa música é composição do Batuta – um grande amigo e artista de Fortaleza que produziu Getúlio Abelha, Payaço Abu e outros artistas. É uma valsa gostosa de tocar e ouvir. Sempre tocávamos ela juntos e, pra esse EP, rearranjei algumas passagens pra ficar mais pesada e dark. Queria fazer dela uma caixinha de música, algo singelo mas também sombrio”.

Leninhe: “Li uma entrevista do Lenine um tempo atrás que ele dizia que o artista devia sair da homogeneidade. Essa música foi uma piração minha de tomar outro rumo no trabalho. Acho que é a mais diferente entres as faixas do EP, e desde a Água de Quartinha eu queria fazer algo mais dançante e ritmado. Na época, até levei essa música e mostrei, mas nunca entrou em repertório. Essa música tem Lenine, Aldo Sena, Fernando Catatau e um pouco de swingueira também”.

Garatujas: “Na pré-produção, essa faixa era um trap! Comecei a compor outras coisas, deixei de lado e quando voltei tava numa fase mais pesada, pessimista. E terminá-la foi como um processo terapêutico, fiquei bem. Na psicologia garatujas é um recurso expressivo de tomada de consciência. Os solos parecem que estão em espirais caindo cada vez mais, mas que depois emergem, ficam limpos”.

Dor de Deus: “Mais clean. É sobre memórias e suspensão de tempo. Produzi essa música depois de alguns anos tocando e dedilhando. Lembro das minhas dores, traumas, cicatrizes, família, amigos, enfim… memórias. O nome é essa possibilidade que nunca se fala: a dor de um Deus. Como é isso de um Deus sentir dor? Eu acho que hoje, a grande maioria que fala em Deus com veemência, na verdade tá falando das suas dores”.

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