Lentamente, os músicos entram no espaço, ocupando suas cadeiras e ajeitando o corpo para o instrumento. A harpista confere as cordas da longa caixa de ressonância, a violinista estica a coluna, e o trombonista testa pela última vez a embocadura, segundos antes de o maestro erguer o braço, em sinal de atenção para os presentes. Como se rufassem os tambores, todos se concentram, e o mínimo ruído cessa. Na iminência da música, o silêncio se estabelece. 

A cena, que aparece em “Ensaio de Orquestra”, (1978), de Federico Fellini (1920-1993), se repete como realidade no ensaio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, realizado na manhã de ontem em uma compacta sala do Palácio das Artes. Curiosamente, Fellini era conhecido como “maestro” pela maneira de conduzir seus filmes. 

“Pessoas de todas as idades, culturas e criações revelam um único som. A gente se une por causa da música. Há quem pense completamente diferente de mim, mas, naquele momento, somos 76 pessoas com o mesmo objetivo. Essa é a mágica da orquestra, que o Harry Potter deve entender bem”, brinca Sérgio Gomes, regente assistente da Sinfônica de Minas, em alusão ao bruxinho criado pela escritora britânica J.K. Rowling. 

A suíte orquestral da saga de “Harry Potter” foi composta por John Williams e integra a edição de estreia da série “Música de Cinema”, que acontece nesta quarta (4) e quinta (5). Além dela, foram incluídas no programa as trilhas de “Star Wars”, “Indiana Jones”, “Superman”, “Jurassic Park” e “A Lista de Schindler”, destaques da extensa lista de contribuições do compositor norte-americano à sétima arte. 

“Considero John Williams o gênio desse século, ele revolucionou a maneira de se produzir trilhas sonoras de toda uma geração”, enaltece Gomes. Atualmente com 87 anos, Williams é o segundo recordista de indicações ao Oscar da história, atrás apenas de Walt Disney. 

Em 1975, ele levou a primeira estatueta pelo trabalho em “Tubarão”, dirigido por Steven Spielberg, parceiro de longa data, tal como George Lucas. “O que os diretores queriam dele era uma música que fosse também narrativa, para os momentos grandiosos e de forte emoção dos filmes. Ele se adapta tanto ao gênero aventura quanto aos dramas bélicos e sociais”, aponta o maestro. 

Estilo. Apesar disso, Gomes considera que existe “uma marca reconhecível” nas trilhas de Williams. Formado pela Juilliard School de Nova York, o músico começou a carreira como pianista de jazz. Mais tarde, incorporou influências de Tchaikovski e Richard Wagner em sua obra. “Os profissionais identificam uma música de John Williams pela progressão dos acordes. Em ‘Star Wars’, por exemplo, os metais são predominantes, deixando as cordas e as madeiras para os momentos mais delicados do filme”, explica Gomes. 

“Quem não é músico, vai entender o papel fundamental da trilha se tentar assistir aos filmes sem ela, porque ela carrega essa emoção. Em ‘Jurassic Park’, há cenas enormes em que nada acontece, mas a música garante a tensão. A experiência da fruição musical é potencializada pelo cinema”, completa.

Vencedor do 7º Concurso Jovens Solistas da Fundação Clóvis Salgado, o flautista Alef Caetano, 25, conhece bem essa sensação. Aos 8 anos, ele assistiu a “Harry Potter” pela primeira vez. Integrando a orquestra, agora ele enfrenta o “misto de desafio e diversão” de executar uma peça “de grande dificuldade técnica”, da qual é fã. 

Na trama, a aparição do Espelho de Ojesed foi significativa para Alef. “É um espelho onde você enxerga o que mais deseja e posso dizer que, se eu olhasse para ele, desejaria tocar a trilha de ‘Harry Potter’”, admite o jovem músico, que alcançou cedo “esse grande sonho”. 

Futuro. A proposta da atual série partiu de Gomes, que considera “uma sorte fazer esses programas alternativos”. À frente também da Sinfônica Pop, ele pretende dar continuidade à “Música de Cinema” e antevê uma temporada dedicada a desenhos da Disney, como “Aladdin”, “Frozen” e “Os Incríveis”. Antes, porém, a orquestra terá de lidar com questões mais imediatas. 

“Como todo funcionário público, nossos músicos estão com os salários congelados e parcelados há quase quatro anos. Os mais antigos têm uma condição razoável, mas aqueles que entraram recentemente ficaram com um salário muito baixo, porque a Lei de Responsabilidade Fiscal impede o governo de dar um aumento”, conta Gomes. 

Por essa razão, ele vê a situação da Sinfônica como “grave, nesse sentido”. “Para essa série, o ideal seriam 96 músicos, estamos com 76. Nada do que o compositor previu está faltando, mas um número maior daria mais volume”, conclui Gomes. 

Serviço. “Música de Cinema”, com a Orquestra Sinfônica do Estado, nesta quarta (4) e quinta (5), às 20h30, no Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537). Ingressos: R$ 20 (inteira)

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