O refrão de uma música lançada há quase 50 anos, um samba à moda antiga gravado por uma cantora brasileira desconhecida para muitos, fez o que parecia impossível na internet: entrar e grudar na cabeça de jovens e adolescentes que não saem do TikTok —rede social que permite a publicação de vídeos curtos, sucesso entre os novinhos.

“David”, lançada no primeiro disco de estúdio da paulistana Célia (1947-2017), vem sendo redescoberta pela nova geração e por um motivo inusitado, graças à divulgação de uma adolescente, algo cada vez mais corriqueiro no aplicativo. A explosão de views e comentários no vídeo da faixa no YouTube, feitos por brasileiros e, principalmente, gringos, fala por si só.

A redescoberta de Célia tem origem em uma “digital influencer”, a americana Charli D’Amelio, de apenas 15 anos, uma das maiores populares usuárias do TikTok. Recentemente, ela publicou um vídeo dançando e dublando no banheiro a música “Opaul”, do rapper e produtor canadense Freddie Dredd, 22 anos, que usa sampler de “David”.

Como acontece com tudo que Charli posta, a coreografia viralizou, ganhou 9 milhões de curtidas e rendeu inúmeras versões, abrindo espaço até para uma confusão idiomática: nas postagens de dublagens, a maioria dos falantes de inglês confundem o trecho “não vai não”, repetido no refrão em português, e cantam “no, I know” e “love, I know”.

Apresentada ao Brasil no programa “Um Instante, Maestro!”, do apresentador Flávio Cavalcanti (1923-1986), Célia foi uma das mais promissoras revelações da música brasileira na primeira metade da década de 1970, quando cantoras começaram a fazer sucesso e atrair holofotes na esteira de Elis Regina.

Unindo música popular brasileira, samba e jazz, com interpretações emotivas, seus três primeiros álbuns estão no topo da produção musical da época, em qualidade e influência. Nesses discos estão a regravação de “Adeus, Batucada” (Synval Silva, 1935) e a versão pela qual ela se definiria como artista, “Onde Estão os Tamborins?” (Pedro Caetano, 1946).

Mesmo perdendo espaço durante as décadas de 1980 e 1990, como ocorreu coma a maioria da MPB, Célia marcou época como uma das vozes mais virtuosas de seu tempo, reconhecida por críticos, produtores e artistas pela sofisticação, segurança e refinamento musical.

No auge, venceu prêmios importantes como o Roquete Pinto e o Elena Silveira, vendendo mais de 70 mil cópias e recebeu vários discos de ouro. Célia também obteve reconhecimento internacional e deu voz, com segurança e brilhantismo, a músicas de Roberto e Erasmo Carlos, Ary Barroso, Ivan Lins e Vitor Martins, Carmen Miranda, entre outros.

Depois de oxigenar sua última década com bons trabalhos, incluindo a versão de “Vidas Inteiras” (Adriana Calcanhoto), trilha do filme “Polaroides Urbanas” (2008), e de fazer participações em tributos a Taiguara e Dalva de Oliveira, Célia, à margem dos grandes nomes da MPB, passou a lutar silenciosamente contra um câncer no pulmão.

Ela chegou a ficar um mês internada no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, e morreu no dia 29 de setembro de 2017, deixando um DVD póstumo, “O que Não Pode Mais se Falar”, e um séquito de fãs fiéis e saudosos, principalmente na capital paulista, onde mais brilhou nos palcos entre muitos altos e baixos.

Mercados como o europeu e o japonês, tradicionalmente obcecados por música brasileira, já consumiam Célia havia décadas. Agora, com o empurrãozinho de Freddie Dredd e do TikTok, ela parece ter ganhado uma nova onda de popularidade na América do Norte. Em entrevista, Freddie Dredd afirmou fez questão de frisar que não usou o sampler de “David” por acaso ou capricho, mas ser fã incondicional da brasileira e da nossa brasileira em geral.

“Fico feliz vendo pessoas descobrindo sobre Célia por minha causa”, disse o rapper, que também ajudou a bombar outra brasileira entre TikTokers, a nipo-brasileira Lisa Ono. Ele sampleou a faixa “Cha Cha” em sua “Sway It, Hula Girl” e criou mais um hit. “Escutem Célia e Lisa Ono em vez de me ouvir. Ampliem seus horizontes musicais”, recomendou o canadense, sabiamente.

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