Falar resumidamente sobre cada um dos álbuns dos Beatles é uma missão ingrata. De Please Please Me (1963) a Let It Be (1970), John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr produziram verdadeiras obras-primas da música popular.

Recheado de baladinhas e muito rhythm & blues, o disco é um retrato do início dos anos 1960. George Martin, maestro e produtor do selo Parlophone, pertencente à gravadora EMI, foi quem percebeu o potencial do grupo e resolveu apostar no quarteto. Apesar da dupla Lennon e McCartney já ter um bom acervo de composições, como I Saw Her Standing There e Love Me Do, Martin resolveu incluir em Please Please Me alguns covers que a banda fazia em apresentações. A lista inclui Baby, It’s You (David-Bacharach-Williams) e Twist And Shout (Russell-Medley), gravada em apenas um take por Lennon, que estava praticamente sem voz devido a uma forte gripe.

Lançado apenas 8 meses após o primeiro disco, With The Beatles tem as mesmas características de Please Please Me, alternando as composições próprias com covers que a banda já tocava em seus shows. Em All My Loving, canção de maior sucesso do trabalho, Paul faz uma das linhas de baixo mais marcantes da sua carreira. O disco traz ainda a primeira composição escrita por George Harrison para a banda: Don’t Bother Me.

Considerado um dos melhores discos dos Beatles pela quantidade exorbitante de hits (Can’t Buy Me Love, And I Love Her e I Should Have Known Better), A Hard Day’s Night simboliza o auge da carreira de John, Paul, George e Ringo. O disco vendeu 1 milhão de cópias nos Estados Unidos em apenas 4 dias e marcou o início da Beatlemania. A Hard Day’s Night mostra os Beatles em uma fase de intensa criatividade, experimentando novos recursos de estúdio e produzindo arranjos mais elaborados.

É certamente o disco com menos hits da banda. Apenas dois meses após o lançamento de A Hard Day’s Night, a banda retornou aos estúdios Abbey Road para as primeiras sessões de Beatles for Sale. A essa altura, eles já não sentiam a mesma euforia dos meses anteriores e o cansaço era visível. Há, aqui, porém, um nítido amadurecimento, com letras autobiográficas, melodias mais complexas e arranjos influenciados pela música country e folk de Bob Dylan. Eight Days A Week, de John e Paul, é o grande sucesso do disco.

Help! representa a transição musical da banda, saindo da ingenuidade do ié, ié, ié para uma fase mais madura e criativa. O disco é um anúncio de que os quatro rapazes de Liverpool estavam em um incrível desenvolvimento musical. You’ve Got to Hide Your Love Away, Ticket to Ride e It’s Only Love comprovam isso. O trabalho chegou ao topo das paradas britânicas na semana de seu lançamento e permaneceu lá por 11 semanas. Yesterday, maior obra-prima de Paul McCartney, aparece pela primeira vez neste álbum.

Se Help! já dava pistas de que os Beatles estavam mais evoluídos e exigentes, Rubber Soul crava definitivamente tal conceito. A referência às drogas e temas politizados começam a surgir nas composições. As letras já se mostravam mais inteligentes, as melodias mais elaboradas e as influências da música country e folk se mostravam frequentes. Em Norwegian Wood, George Harrison quebrou paradigmas ao tocar um sitar (ou ‘sítara’). Foi a primeira vez que o Beatle usou o instrumento indiano em uma gravação. O gosto pela música e pelos instrumentos indianos pouco depois faria George se aproximar da religião oriental, adotando-a como sua filosofia de vida.

O lançamento de Revolver culminou com o fim das turnês do grupo. Havia se tornado impossível mostrar no palco o quanto a banda estava evoluindo em estúdio. As músicas do disco traziam várias referências políticas e sociais. Em Taxman, que abre o álbum, George faz duras críticas à cobrança abusiva de impostos do governo britânico. Já Eleanor Rigby, de Paul McCartney, tem um incrível arranjo de cordas feito por George Martin. Os Beatles haviam chegado ao topo mais uma vez e superado o que até então parecia impossível.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band não é só o melhor disco dos Beatles, mas um dos maiores de todos os tempos. O disco mescla música indiana, jazz, sons invertidos, grandes orquestras, baladas e barulhos de animais. O trabalho transformou o rock em obra de arte a ser cultuada pelas gerações futuras. O psicodelismo toma conta da sonoridade do grupo. Lucy in the Sky With Diamonds, With a Little Help From My Friends e a belíssima A Day In The Life são os destaques.

Depois do lançamento de Sgt. Pepper’s, os Beatles viajaram para a Índia, onde conheceram os estudos de meditação transcendental do guru Maharishi Mahesh Yogi. Foi lá que receberam a notícia de que Brian Epstein, empresário da banda, havia falecido. O fato mudaria completamente o rumo da banda. Depois disso, decidiram gravar um filme e lançar Magical Mystery Tour. Apesar de contar com algumas canções emblemáticas como Hello, Goodbye, Penny Lane e Strawberry Fields Forever, o disco mais parece um compilado de canções, já que várias músicas foram anteriormente lançadas como compactos.

Olhando em retrospecto, no White Album os Beatles já davam indícios que se separariam. As composições de George Harrison começaram a ganhar força. Em While My Guitar Gently Weeps, Eric Clapton é quem faz o solo de guitarra. O ambiente de trabalho já estava deteriorado. As discussões constantes, a falta de entendimento e o interesse de cada um por coisas diferentes, desfocavam completamente as qualidades do grupo. Ringo Starr, inclusive, chegou a deixar os estúdios por não suportar mais o clima entre a banda e a demora nas gravações. Paul McCartney gravou a bateria da música Back In The USSR. Apesar das diferenças entre os Beatles e a desconexão entre as faixas, o White Album é um dos melhores trabalhos da banda.

O disco com a trilha sonora foi lançado somente em janeiro de 1969 e continha apenas as 6 músicas liberadas e as canções instrumentais de George Martin. Yellow Submarine, considerado o mais fraco dos Beatles, foi o único a não alcançar o primeiro lugar nas paradas; ao contrário do filme, que foi muito bem aceito. Os próprios Beatles não consideraram o disco como uma produção da banda, já que somente 4 canções eram inéditas e o lado B foi todo destinado à orquestra regida por George Martin.

Em 1969, os Beatles iniciam novamente a produção de um novo disco: Abbey Road. O projeto tinha a ideia de levar a banda de volta às suas origens, com gravações mais simples, sem grandes arranjos ou efeitos de estúdio. Come Together, Something e Here Comes the Sun simbolizam o que há de melhor no álbum.

O Let It Be não é o melhor disco dos Beatles. O filme mostra claramente o descontentamento de cada um e a falta de administração causada pela ausência de Brian Epstein. Estes e vários outros fatores resultaram em um álbum cercado de discussões; mas é o último suspiro de afeto deles com os fãs. Uma semana após o lançamento de Let it Be, Paul McCartney lançava seu primeiro disco solo, intitulado McCartney. Nele, Paul declarava que os Beatles não existiam mais e que não havia mais possibilidade de trabalharem juntos novamente.

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