Sandy e Junior surpreenderam o público ao mudar a letra de Maria Chiquinha no show de Fortaleza na última sexta-feira. A música que os lançou como uma dupla em 1989 foi incluída no repertório da turnê Nossa História pela primeira vez, mas teve que ser adaptada aos novos tempos.

No show, em vez de dizer “O resto? Pode deixar que eu aproveito” no final da canção, Junior deu o seu recado: “Para com isso. Isso não é mais aceitável. Não são mais os anos 90. Não vou fazer nada com o resto. Deixa em paz a Maria Chiquinha. A Maria Chiquinha faz o que ela quiser no mato”.

Inspirados pela iniciativa de Sandy e Junior, abrimos o baú de discos da dupla e encontramos outras cinco músicas além de Maria Chiquinha que não seriam mais aceitáveis em 2019. Elas são parte do início da carreira deles e, por isso, carregam muito da cultura dos anos 80 e 90 que não fazem mais sentido hoje em dia.

O trecho da música ao qual o Junior se referia era quando Genaro diz que vai cortar a cabeça de Maria Chiquinha e aproveitar “o resto”. Além disso, toda a letra questiona o que a mulher estava fazendo, caracterizando uma possível relação abusiva.

Antes mesmo de a turnê começar, a gravadora Universal Music colocou na loja online oficial de Sandy e Junior produtos com a frase “no mato eu faço o que eu quiser Genaro, meu bem”, mostrando a mudança de posicionamento da dupla em relação à música que os deixou famosos.

A galinha faleceu e virou assombração / E toda noite na Fazenda Chico Bento / O fantasma da galinha que morreu no tratamento / Fica gritando: Chico o quê que você fez?/ Botou no lugar errado / Tira e bota outra vez

A perninha da galinha é cortada com um facão e o bichinho morre e vira uma assombração. A história é cruel e as associações de proteção aos animais não aprovariam. Além disso, o refrão “ai, ai tira e bota outra vez” cantado por adultos soaria, no mínimo, esquisito.

A intenção era boa, mas A Resposta da Mariquinha, gravada no segundo disco da dupla, vem carregada de ameaças. Mariquinha resiste e denuncia: “Quando volta me tapeia só pedindo o meu perdão”. O marido ameaça. “Mariquinha, eu tô ficando nervoso e quando eu fico nervoso pra mim meia dúzia é seis, hein! Abre a porta!”

A letra mostra a discussão de um casal por causa de ciúme. Enquanto o rapaz insiste para a namorada abrir a janela e conversar, ela demonstra seu ciúme com ofensas. A moça com quem ele estava conversando, por exemplo, é chamada de “lambisgóia”. Em tempos de sororidade, não cola mais.

A música traz uma questão que era tratada com muita naturalidade nos anos 80 e 90, mas hoje vista com outros olhos por pais e educadores. Refletindo basicamente sobre a infância, a letra fala em “apanhar no traseiro”. Mas, desde 2014, a Lei da Palmada proíbe que crianças recebam castigos físicos.

De todas, a música é a mais inocente e retrata o crescimento de um garoto e sua relação com o pênis, o “pinguilim”. Quando eram crianças, soava bonitinho e o público até se dividia para cantar o refrão durante o show. Já em 2019 seria no mínimo engraçado ouvir trintões cantando sobre brincar com o pinguilim.