O guitarrista Nile Rodgers se apresenta neste ano no palco mundo do Rock in Rio junto com a banda Chic, em 3 de outubro. Antes de vir ao Brasil, o músico concedeu uma entrevista emocionante à “BBC”, na qual fala sobre a mãe, Beverly, de 81 anos, e de um projeto muito importante do qual está participando. Beverly vive com Alzheimer há mais de uma década e conta com os cuidados do filho sempre que ele não está envolvido em turnês internacionais. Quem segue o artista no Instagram sabe que ele é dado a publicar fotos dos dois, não raro seguidas por legendas inspiradas. No dia das Mães deste ano, por exemplo, Nile postou uma imagem de quando era bebê e escreveu: “Minha mãe precisou me colocar para adoção após meu nascimento (Beverly tinha apenas 14 anos na época). Depois disso, ela fez de tudo para conseguir ficar novamente comigo. Essa foi nossa primeira fotografia juntos. Ela tem Alzheimer, mas nós rimos e nos divertimos como se tivéssemos 30 e 16 anos”. 

Nile Rodgers se engajou em um projeto da emissora britânica, BBC Music Day, marcado para 26 de setembro, com vários eventos beneficentes, com especial apoio a Music & Dementia, que envolve mais de 50 organizações britânicas para levantar fundos e construir estruturas de apoio a pessoas afetadas por demência e enfermidades relacionadas.  Um site interativo, BBC Music Memories, já está no ar para receber colaborações, a partir de uma pesquisa, e formar playlists com as canções mais importantes em sua memória afetiva. Além de ser por uma boa causa, responder ao questionário oferece uma viagem por música da melhor qualidade, passeando por dez décadas. Até o BBC Music Day, gravações de 20 países (Jamaica, Paquistão e Índia estão entre eles) serão acrescentadas — incluindo aí temas de filmes, composições eruditas e até cantos de torcida.

Em entrevista à “BBC”, Nile lembrou de um momento específico, quando foi passear com a mãe em um shopping. Era o dia do aniversário dela. “Passamos por algumas lojas que estavam tocando músicas, e ela começou a cantar”, conta Nile. “Ela lembrava perfeitamente as letras das canções mais antigas. Se tocasse uma do Frank Sinatra, ou da Diana Ross, ou da Barbra Streisand, ela arrasaria. Foi incrível. Alguns funcionários chegaram a bater palmas para minha mãe.”

A história fica ainda mais impressionante pelo fato de ter sido a primeira vez que Nile ouviu sua mãe cantar em alto e bom som. “Isso começou a acontecer depois que ela foi diagnosticada com Alzheimer”, afirmou ele. “Ela cantou perfeitinho, no tom correto.”

É bastante comum que pessoas vivendo com Alzheimer se recordem com maior facilidade de memórias mais antigas, e isso inclui letras de música de décadas passadas. Agora, quando se trata de memórias a curto prazo, esse processo se inverte. E Nile sabe bem disso. “Certa vez, ela foi a um de meus shows e sabia cantar tudo. Mas se mudássemos alguma coisa no arranjo, ou na letra, ela ficava totalmente perdida”, declarou o guitarrista, atualmente com 66 anos — apenas dois a menos do que sua mãe tinha quando foi diagnosticada sua doença.

Beverly era um garota negra “hipster” e bonita no Greenwich Village nova-iorquino dos anos 1950 e 1960, conta Nile. O ator Sydney Poitier a pediu em casamento algumas vezes. Mas ela, junto com o padrasto de Nile, acabou enveredando pelo vício em heroína. O músico do Chic conta que só entendeu o que isso significava aos 8 anos.  “Era Dia de Ação de Graças, a gente ia comemorar. Mas meu padrasto teve uma overdose e precisou ser ‘ressuscitado’. Aí entendi que eles eram junkies.”

Nile saiu de casa aos 14 anos. Formou o Chic junto com o baixista Bernard Edwards (1952-1996), alcançando imenso sucesso com uma assinatura sonora inconfundível e incomparável elegância nos arranjos de guitarra. Como produtor, ajudou David Bowie, Madonna, Duran Duran e, mais recentemente, Daft Punk, a confeccionar hits milionários. Em 2017, comandou uma inesquecível apresentação no Rock in Rio.

 Nile Rodgers sobreviveu a dois cânceres recentemente, e descreve sua saúde atual como “fantástica”. Como guardião de sua mãe, diz que, desde os 14 anos, quando ainda morava com ela, não estava tão próximo de Beverly. “Agora nosso relacionamento é melhor do que jamais foi. A forma como o Alzheimer a afetou é peculiar, partes que fazem dela uma pessoa muito agradável não estão se deteriorando rapidamente. Então ela costuma ser sempre a alma da festa.”