Foi com certa confusão, devido a um protocolo deficiente da CBF para lidar com a pandemia do novo coronavírus e à guerra das TVs pelos direitos de transmissão, mas o Campeonato Brasileiro 2020 já está em sua segunda rodada. A cada largada, com uma maratona de 38 partidas pela frente, uma pergunta se repete: o que é necessário para seu time atingir objetivos na competição? Ainda que seja impossível responder com exatidão, a reportagem do UOL está disposta a tentar.

Levando em consideração as últimas dez edições do torneio, os números mostram quais as tendências para chegar ao topo da tabela ou evitar o rebaixamento. Quantos gols marcam os melhores ataques, quantos sofrem as defesas mais sólidas e como a disputa tende a se comportar.

Para isso, foram considerados os participantes da edição 2020 do Brasileiro nas campanhas de 2010 a 2019. Ou seja, o Red Bull Bragantino, que não participou de nenhum dos campeonatos neste período, ficou fora. E o Cruzeiro, que esteve nas dez edições anteriores, mas foi rebaixado e tenta a sorte na Série B, também não está presente.

E por que os últimos dez anos? O recorte, neste caso, pode apontar tendências mais consistentes em termos de desempenho, uma vez que os clubes já estão mais adaptados ao formato de disputa e a todos os desafios que ela oferece. De todo modo, já fizemos também um levantamento completo com os resultados acumulados desde 2003, quando o Brasileirão adotou os pontos corridos.

O Flamengo foi soberano no Brasileirão passado. Ao conquistar o título com 90 pontos, o Rubro-Negro obteve a maior soma dos últimos dez anos da competição. Foi um desempenho avassalador, mas que não pode ser considerado exatamente uma surpresa. Os campeões brasileiros têm conquistado cada vez mais pontos.

Em 2010 e 2011, por exeplo, aconteceram os títulos com menos pontos somados. Fluminense e Corinthians ficaram em primeiro somando apenas 71 pontos cada. Mas o que acontece desde então é um crescimento significativo. Desde 2014, apenas uma vez o campeão somou menos de 80 pontos: o Corinthians de 2017, que teve um primeiro turno excepcional, mas perdeu fôlego no segundo.

Para ser campeão, a pontuação média fica, então, em 77.8. Ou seja, se o seu time chegar a 77 ou 78 pontos, é provável que esteja bem próximo da conquista. A não ser, claro, que alguma equipe consiga emular o desempenho do Flamengo de Jorge Jesus, que, com seus 90 pontos, deixou bem para trás Santos e Palmeiras —ambos com 74, diga-se.

Se para ser campeão, a pontuação tem crescido, os times que lutam contra a degola não têm acompanhado esse ritmo. Tanto que o Ceará de 2019 foi o único clube nas últimas dez edições de Brasileiro a escapar do rebaixamento com menos de 40 pontos. O Vozão permaneceu na elite com 39, enquanto o Cruzeiro caiu com 36.

A média de pontos do 16º colocado, o último entre os que se sustentam na Primeira Divisão, tem sido de 42,8. Atingir 43 (arredondando) foi suficiente para evitar o rebaixamento em sete edições do certame.

Em 2013, porém, a Portuguesa fez 44 e caiu —numa disputa cercada por polêmica—, pois o Flamengo fez 45. Em 2016, o Inter chegou aos 43, mas o Vitória somou 45. E em 2017, houve um inusitado empate tríplice entre Vitória, Coritiba e Avaí, todos justamente com os 43 pontos. O clube baiano acabou escapando do rebaixamento, enquanto os paranaenses e catarinenses caíram.

Abaixo, pegamos os clubes que disputam o Brasileirão 2020 e tiramos a média de pontos deles por participação nas últimas dez edições. O Red Bull Bragantino é o único time que ficou fora do levantamento, por não ter frequentado a elite nacional por nenhuma temporada neste período. E quem teve a melhor campanha?

O Grêmio. Pode parecer uma surpresa, já que que o clube gaúcho não ganhou nenhuma taça de entre 2010 e 2019 —na verdade, não é campeão desde 1996.No recorte dos últimos dez campeonatos, ainda foi vice apenas uma vez. Mas o formato de pontos corridos premia a regularidade.

Com pontuação média de 62.2, os gaúchos estão iguais ao Corinthians, que ergueu a taça três vezes (2011, 2015 e 2017). Mas somam quatro vitórias —primeiro critério de desempate no Brasileirão– a mais que o Timão.

O Grêmio esteve abaixo do quinto lugar apenas três vezes, sendo somente uma abaixo do décimo, ostentando uma posição média na faixa da quinta colocação (5,2). Mais: o Tricolor marcou menos de 60 pontos apenas uma vez. Já o Corinthians ficou duas vezes em décimo ou mais, e outras duas abaixo do quinto, gerando 5,4 de posição média. O Timão também esteve abaixo dos 60 pontos cinco vezes.

O São Paulo conquistou o Brasileiro três vezes seguidas (2006, 2007 e 2008) na década passad. Considerando toda a era de pontos corridos, tem ainda o melhor rendimento. Mas, nas últimas dez edições, o time vem perdendo espaço na briga pelo topo. Não que seja uma queda acentuada, mas o jejum de títulos e a subida da concorrência o deixa com a terceira melhor média de pontos neste recorte. O clube do Morumbi teve alguns breves embates contra o rebaixamento, mas, no fim, teve o 13º lugar de 2017 como sua pior colocação. O São Paulo ficou com a mesma pontuação do Flamengo, mas ganhou o desempate por vitórias.

É comum no futebol brasileiro utilizar a expressão ‘os 12 grandes’ ao se referir a um grupo de equipes, com quatro de São Paulo, quatro do Rio de Janeiro, dois do Rio Grande do Sul e dois de Minas Gerais. Mas uma o Athletico-PR também mostra nos pontos corridos o suficiente para quebrar com antigos paradigmas. Atual campeão da Copa do Brasil, o Furacão teve nove participações nos últimos dez anos e ficou na metade inferior da tabela apenas três vezes. Com 55,4 pontos, superou Vasco, Botafogo e Fluminense. Desta forma, obteve lugar na metade superior da tabela, ocupando a nona colocação.

Se há um estado ditando frequentemente a pauta do Brasileiro nos últimos dez anos, estamos falando de São Paulo. As equipes paulistas ocupam quatro postos entre os seis primeiros na classificação média. O Corinthians é segundo graças aos critérios de desempate, o São Paulo aparece em terceiro, o Santos é quinto e o Palmeiras sexto. Apenas Flamengo e Grêmio são ‘intrusos’. O único representante do estado que não aparece entre os primeiros é o Red Bull Bragantino, que disputou o Brasileiro nos últimos dez anos.

O recorte da última década do Brasileirão deixa clara a preocupante realidade para o futebol do Rio de Janeiro quando o assunto não é o Flamengo. O Fluminense, vejam só, campeão em 2010, terceiro em 2011 e novamente primeiro em 2012, mas sequer figurou acima do décimo lugar nos últimos cinco campeonatos. O Botafogo, sem jamais aparecer acima do quarto lugar, o Alvinegro tem 52.3 de média de pontos e está epenas em 12º. Uma posição atrás aparece o Vasco, que disputou oito campeonatos e esteve três vezes abaixo até do 15º lugar.

Defender ou atacar: qual a melhor conduta para somar pontos? A resposta depende de muitos fatores, mas a tendência estatística mostra que, nestes dez anos, sofrer menos gols deixou a equipe mais próxima da conquista.

Em sete edições dos últimos 10 Brasileiros, o campeão teve apenas a defesa menos vazada. O Fluminense de 2010 (36 gols sofridos), o Corinthians de 2011 (36 gols sofridos), o Fluminense em 2012 (33 gols sofridos) e o Corinthians de 2017 (30 gols sofridos). Também se juntam a esta lista o Corinthians de 2015 e o Palmeiras de 2016 e 2018. Acontece que os rivais paulistas terminaram suas grandes campanhas também com o sistema ofensivo mais produtivo.

No fim: somando esses títulos aos do Cruzeiro em 2013 e 2014 e ao do Flamengo em 2019, e o melhor ataque acabou levando seis taças. Quer dizer: a diferença não foi tão grande assim em número de taças na comparação ataque x defesa.

Porém, sofrer menos gols tem caminhado junto com marcar menos pontos. Os quatro campeões cujo ponto alto foi a solidez na retaguarda somaram, sempre, menos de 80 na classificação. Já dois dos três times que levaram a taça com base na artilharia passaram desta marca.

A média das melhores defesas do Brasileiro ficou em 31,1 gols sofridos. A melhor de todas foi a do Corinthians de 2013, com 22 gols contra, mas nesta temporada o time terminou a competição em décimo, com um ataque sofrível. A segunda melhor marca pertence ao Grêmio de 2014, com apenas 24 gols contra. O time gaúcho teve de se contentar com um sétimo lugar.

Independentemente das mudanças de perfil que ocorram com trocas de treinadores, crises financeiras e recuperações, surgimento de grandes jogadores e venda dos mesmos para mercados mais potentes, o DNA dos clubes muito provavelmente vai permanecer. São os casos de Corinthians e Atlético-MG.

O Galo se mostra preferencialmente um time ofensivo. Ainda que não tenha sempre o melhor ataque da competição, nos últimos dez Brasileiros, o time marcou 54,5 gols em média. Apenas em duas edições o time marcou menos de 50 gols. Em compensação, fez mais de 60 três vezes. Os mineiros estão em primeiro como melhor média ofensiva, seguidos pelo Santos, que tem 52.7.

Da mesma forma que o Atlético-MG se sobressai na frente, o Corinthians tem por identidade a defesa. O Timão ostenta a menor média de gols sofridos nos últimos dez Brasileiros entre todos os participantes da edição 2020 do torneio. Com picos de 22 gols sofridos em 2013 e 30 em 2017, a média ficou em 34,1. Nunca, no recorte citado, a rede corintiana foi balançada mais de 42 vezes. Em segundo ficou o Grêmio com a média de 37 gols sofridos.

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