Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube "Fala, M.R.". Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Precisamos falar sobre a suposta broxada que aconteceu essa noite no Big Brother Brasil. Psicológica e fisicamente, o fato do jovem Daniel não ter (aparentemente) conseguido uma ereção no meio de um reality show é mais que compreensível. Este é um daqueles casos em que o homem não estará mentindo se disser: “Isso nunca me aconteceu antes”. Estatisticamente, não são muitos os caras que têm a chance de broxar ao vivo num streaming de vídeo no reality mais assistido do País. O episódio ganha mais relevância porque acontece num BBB marcadamente didático em relação aos perigos da masculinidade tóxica e à importância do empoderamento feminino. Marcela, uma das duas médicas no BBB 20 e parceira sexual de Daniel (no momento que vai marcar a vida do rapaz e virar piada por muitos anos vindouros), começou o programa como uma unanimidade entre os progressistas, com tiradas divertidas mas didáticas como: “Autoestima de homem tinha que encapsular e vender”. Sororidade

Marcela não estava só nessa luta mais do que válida contra o machismo. Também de um jeito leve, meio debochado, bem ao gosto dos usuários de redes sociais, outras mulheres da casa, como a advogada Gizelly e a artista multimídia Manu Gavassi, deram verdadeiras aulas de feminismo aos brucutus da casa. E consequentemente, aos que estavam do outro lado da telinha. Em pleno paredão de terça-feira, Manu fez o Brasil procurar no Google o significado da palavra “sororidade”. Dias depois, trancafiada no quarto Branco com Gizelly e um dos últimos machões sobreviventes no jogo, Felipe Prior, as meninas transformaram o que seria um castigo monótono num curso de imersão sobre como se comportar com as mulheres. Quando Felipe contou, com certo orgulho, que já viveu a situação de não insistir e respeitar um “Não!” recebido de uma parceira já na cama, as garotas se apressaram em dizer que – é óbvio – ele não fez mais que sua obrigação. “Não” é “não”. E isso não se discute. No meu Twitter

Conversávamos sobre isso no Twitter quando eu, com a legítima intenção de ampliar o debate, postei o seguinte comentário: Eu entendo. E corro o risco de ser cancelado só por dizer isso. Mas nosso lado também não é fácil. Na mesma situação (polos invertidos) a menina diria pra todo mundo: “Mó brocha!”. Fora a expressão dela, na hora, te olhando com desprezo, tipo: “Como assim? Eu, linda de lingerie?”. Não fui feliz e admiti na hora. O comentário faz todo o sentido, mas enfiado numa conversa sobre mulheres dizendo “não” no momento do ato pode sugerir uma falsa equivalência que não tinha sido minha intenção. Afinal, se o homem insiste naquele momento, o resultado é a violação, incomparavelmente mais traumática do que o vexame. Machismo

Houve até quem lembrasse que broxar só é vexame sob uma ótica machista, o que não deixa de fazer sentido. Vinícius de Moraes já tentava nos tranquilizar com seu mantra: “Enquanto houver língua e dedo nenhuma mulher nos mete medo”. Analisada hoje, salta aos olhos na frase a palavra “medo” e o fato de que o ato de coragem não resolve um problema sério: o prazer masculino. Pedidas as devidas desculpas e feitos os devidos esclarecimentos, consegui sair dessa sem ser cancelado. Mesmo porque não seria justo: eu realmente acho que a fama de broxa não se compara ao trauma de um estupro. É grave

O que não quer dizer, entretanto, que o assunto não seja muito grave na sociedade brasileira do século XXI. Se é fato que o machismo no Brasil mata e fere, isso não quer dizer que as mulheres não tenham algumas coisas a aprender sobre como lidar com as fragilidades masculinas construídas ao longo de séculos, por essa mesma cultura machista. O BBB 20 tem sido ótimo para quem – como eu – vê nele um retrato vivo do Brasil do seu tempo, a cada edição. Marcela, a que dava aulas de empoderamento feminino, foi se apaixonar logo pelo homem mais infantilizado da casa. Daniel é incapaz de cumprir as regras mais básicas da boa convivência, vive sendo punido pela produção por desrespeitar as normas do jogo e está longe de demonstrar brilhantismo quando as conversas se tornam mais profundas. Lado sombrio

Daniel revelou um lado sombrio de Marcela, que começou o jogo como favorita: como namorada dele, a jovem médica mostrou que sua sororidade e sua crítica à masculinidade tóxica são seletivas. Desde o início do relacionamento ela já perdeu mais de 200 mil seguidores no Instagram. Marcela se revelou a típica lacradora de Internet que não vive o que prega. E está roubando do macho tóxico Felipe Prior o papel de vilã da casa.

Sem falsa equivalência. “Daniel Broxando” é o assunto mais comentado do momento no Twitter no momento em que eu escrevo este texto. De forma alguma o episódio se compara com a monstruosidade de uma violação, mas ele vai ter que lidar com o constrangimento por muito tempo.

Em muito menor escala que as mulheres, homens também sofrem os efeitos do machismo estrutural: carregamos a pressão de sermos provedores, infalíveis na cama e bravos defensores de nossas mulheres e crianças diante de um barulho estranho na madrugada ou uma barata no banheiro.

Se o que aconteceu sob o edredom foi o que pareceu ter acontecido, alguém já deveria ter ensinado à doutora Marcela que um irritadíssimo “P(*) que pariu!” é uma resposta muito cruel diante de uma broxada. O momento exigia carinho, beijos e solidariedade.

Não quero ser o chato que mata a piada: se um participante antipático broxa no BBB o público tem todo o direito do zoar. Linchamento virtual é cada vez mais parte deste jogo ao qual os participantes se submetem em troca de fama e da chance de ganhar R$ 1,5 milhão.

Pouco a pouco Jair Bolsonaro vem incorporando a caricatura que o humorista Márvio Lúcio, o Carioca, criou para o presidente antes das eleições. No programa Pânico na Band, Mitadas do Bolsonabo" – o quadro do Carioca – era basicamente uma sucessão de grosserias ao ar livre. No "cercadinho do Alvorada" a vida imita a arte. E hoje, ao trazer o próprio Carioca para "mitar" em seu lugar, cabe a pergunta aos que já vão às ruas pedir mesmo um golpe dia 15: se o presidente insiste em fazer humor, por que não deixar a presidência a cargo de um humorista profissional? Este é o tema do meu vídeo de hoje.

No clássico Roque Santeiro Regina Duarte viveu a fogosa viúva Porcina, a que "foi sem nunca ter sido". É mais ou menos a posição de Olavo de Carvalho no governo de Jair Bolsonaro: Olavo é membro importante do gabinete bolsonarista sem jamais ter ocupado qualquer cargo. Pior: negando qualquer ligação ou influência com o poder em Brasília.

Paulo Guedes não errou quando disse que muitas empregadas domésticas estavam indo para a Disney. Só erra ao dizer que, com o dólar alto, essa "festa" acabou. Acabou nada, ministro. As domésticas continuam indo. Acompanhando seus patrões milionários, para poupá-los do trabalho de correr atrás do filho que agarrou o rabo do Pluto ou garantir que eles não percam seu lugar na fila para trocar fraldas.

O jornalista Alexandre Garcia disse num evento com todas as letras: se trocássemos a população do Brasil pela do Japão, todos os nossos problemas estariam resolvidos. Bolsonaro concordou e colocou no seu Twitter oficial. Um dia depois, a Secretaria de Comunicação do governo chamou a cineasta Petra Costa, diretora de "Democracia em Vertigem", de "Anti-Brasil" e fez um post oficial (e constrangedor) atacando uma cidadã brasileira no livre exercício de sua liberdade de expressão. O que o governo Bolsonaro pensa que é o Brasil? Seu governo (só mais um na história da República) ou o povo, com suas qualidades e imperfeições? O que Petra Costa está fazendo no exterior é oposição às políticas do atual governo, exageradas ou não. Se cabe a alguém espernear são seus adversários políticos. Não este ente, impessoal e de todos nós, chamado Brasil. O Brasil não é de esquerda, não é de direita e não é de centro. O Brasil não é ateu, não é católico e não é budista. E principalmente: o Brasil não é o Japão. O Brasil somos todos nós, nossa História e nossa Cultura. Povo A mim soa muito mais "anti-Brasil" a propagação da ideia de que o problema do País é o seu povo do que uma cidadã opinando lá fora sobre temas que incomodam o governo. É muito mais "anti-Brasil" um governo ferir o princípio da impessoalidade e encarnar arbitrariamente o espírito da Nação. Ironia maior, isso só prova que, por mais que possa ter equívocos em seu conteúdo, o título "Democracia em Vertigem" não poderia ser mais acertado quando se tenta entender o Brasil de hoje. Mais ainda agora que a Polícia Federal abriu inquérito contra Fábio Wajngarten, justamente o chefe da Secom, por suspeita de corrupção e peculato. Oposição é parte da Democracia. Mas corrupção… ah, isso é muito anti-brasil. Veja meu vídeo:

Regina Duarte tá mal de amigos. Ela pode até ter errado ao expor, numa colagem de fotos, os colegas que a parabenizaram e desejaram sorte à frente da pasta da Cultura no governo de Jair Bolsonaro. Mas se aqueles artistas – os que pediram para ela tirar suas imagens do post – não aprovam a atuação do chefe da Regina, parabenizaram-na por quê? A política cultural de Bolsonaro é clara. Regina Duarte foi contratada para implantá-la. O próprio presidente fez questão de dizer que não abre mão do poder de veto sobre nomes a serem escolhidos por sua nova secretária. Quando vemos alguém de quem gostamos entrando numa fria, a coisa certa a se fazer é alertar, tentar convencer a pessoa a não cometer o erro. Jamais parabenizar e desejar sorte. Muito menos parabenizar pelo cargo – que é obviamente uma manifestação política – sem a disposição de assumir o ato. A humilhação de ter que retirar os retratinhos do ar, e ainda ouvir um sermão constrangedor da atriz Carolina Ferraz "vazado", é um prejuízo muito maior para a imagem da nova secretária de Cultura do que a exposição pública de seus apoiadores. Esse é o tema do meu vídeo de hoje.

Já há alguns anos, para dar um verniz mais elitizado ao gênero sertanejo e se diferenciarem dos veteranos, as duplas mais jovens aceitaram de bom grado o rótulo de "sertanejo universitário". Se essa ligação entre os músicos e os estudantes for verdadeira, pelo visto tem gente aí esquecendo suas origens. Hoje, várias dessas duplas visivelmente "traíram o movimento", ao integrar a comitiva que foi a Brasília pleitear, junto ao presidente Jair Bolsonaro, o fim da meia-entrada. No mundo Essa história de dar descontos para estudantes não é invenção brasileira. A meia-entrada existe, de diferentes formas e em diferentes graus de abrangência, até nos países mais ricos do mundo. Oquei, dificilmente em concertos de música popular. Mas em museus, balés, teatros, trens e uma infinidade de produtos e serviços online, estudante paga meia ou tem descontos consideráveis. Até o Spotify, o lugar onde a maioria dos universitários consome a música, por exemplo, de Zé Neto & Cristiano, tem plano para estudante cobrando meia. Politização A verdade é que, ao contrário do ambiente universitário, a música sertaneja não é lá muito conhecida por sua politização. Muito pelo contrário. Por isso chama a atenção o fato de que uma comitiva cheia de vozes expressivas (em meio a outras nem tanto) tenha aberto mão de seus compromissos para ir manifestar apoio a um presidente que acaba de completar um ano de mandato. Eles têm todo o direito de torcer pelo Bolsonaro, claro. Mas que o evento foi atípico e deslocado não dá pra negar. Sério mesmo? Aqueles famosos todos foram a Brasília só para dizer que o governo vai bem e abraçar uma pauta impopular como o fim da meia-entrada? Por que? Equação A equação (cujo entendimento não exige nível universitário) ganha todo o sentido quando você descobre que quem juntou a galera toda foi a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), órgão que reúne os principais contratantes de shows do país. Aí sim dá para entender. É como cantar de graça em festa de aniversário da rádio. É como cantar na festa de confraternização de funcionários da emissora de TV que vai te colocar ao vivo nas tardes de domingo. Os caras contratam os shows. Você não vai querer se indispor com eles. Regra básica na indústria da música desde antes da invenção do LinkedIn, dos coachs e do termo "networking". Nem precisa de ajuda dos universitários, precisa?

Sem querer desmerecer a importância do solo de trompete em "Penny Lane" dos Beatles, o saxofone do Supertramp ou a flauta do Jethro Tull, justiça precisa ser feita: o edital da Funarte que "proíbe o rock" não existe. Dessa vez, pelo menos dessa vez, o que houve foi um erro gigante de leitura por parte de jornalistas, parlamentares e torcida organizada.

Se o seu objetivo é obter verbas federais para o município, ter o irmão do presidente, Renato Bolsonaro, morando na região equivale ao mesmo que poder contar com quase sete deputados federais. Esse é o número que se chega quando se divide o total repassado com a ajuda de Renato ao Vale do Ribeira (SP) e região pelo valor destinado no orçamento federal de 2019 às emendas parlamentares. Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, que foi manchete do UOL ao longo do dia, o primeiro-irmão intermediou R$ 110 milhões em repasses. Quase sete vezes o valor de R$ 15,4 milhões destinados às emendas, e mais próximo do valor que bancadas inteiras – com sorte – podem conseguir através das emendas impositivas, que tiveram um teto de cerca de R$ 170 milhões. Se Renato ainda estiver atuando como empresário do comércio varejista, fica a dica para os prefeitos com pouca representatividade: oferecer benefícios fiscais para ter uma loja de Renato Bolsonaro em sua cidade. Dica para prefeitos Com a sensibilidade dele às demandas políticas, e um prestígio junto ao presidente comparável ao de outro empresário famoso, Luciano Hang, uma loja de movéis de Renato seria uma boa ponte entre prefeitura e presidência da República. Em área e volume de empregos a loja não seria nenhuma Havan, claro. Mas teria uma vantagem: em vez de uma réplica brega e perigosamente inflamável da estátua da Liberdade, o primeiro irmão pode trazer – quem sabe? – uma ponte, uma escola… (Veja mais no meu vlog:)

Regina Duarte disse sim ao convite de Jair Bolsonaro e será a nova secretária da Cultura do Brasil. Mas antes mesmo de assumir, tudo indica que ela escorregou na "casca de banana" que custou o cargo de seu antecessor. Num post de Instagram (que virou piada na Internet), Regina falou sobre os seus novos desafios e festejou o dia de São Sebastião. Nada demais se não tivesse trocado a imagem do santo padroeiro do Rio de Janeiro por um desenho de… São Expedito. Santo Google Bastou uma pesquisa rápida para descobrir a razão mais provável: ao digitar "São Sebastião" no Google, a imagem que apareceu em primeiro lugar foi exatamente a que Regina Duarte usou no post. Secretária, você mesma disse que tem muito aprender. Comece aprendendo com os erros de Roberto Alvim. Embora o mestre dele, Olavo de Carvalho, acredite numa conspiração "comuno-lulista", Alvim garante que citou Goebells por culpa do Google, que mostrou a frase sem citar a fonte. É. Não dá pra gerir a Cultura de um país confiando só na Inteligência Artificial. Confira no meu vlog:

Se "Olavo tem razão", amigo bolsolavista, é hora de admitir com a hombridade que se espera dos intelectuais sinceros o que todo o mundo já sabe, menos os revisionistas históricos da extrema-direita: o nazismo é uma ideologia "direitista". Opa! Segure as pedras! É o próprio Olavo de Carvalho quem faz essa afirmação, em vídeo, ao criticar o livro "Dicionário Crítico do Pensamento da Direita" (Editora Mauad), um compêndio que reúne 300 verbetes assinados por 120 autores. "Eles citavam aqui", diz Olavo, brandindo o livro, "apenas seis autores direitistas, dentre os quais, dois nazistas". Apenas para esclarecimento do ministro da Educação, Abraham Weintraub, e de algum outro eventual olavista pouco íntimo com a língua portuguesa, vale lembrar que o único significado da palavra "dentre" é: "do meio de" (Dicionário Houaiss).

Ele perdeu o emprego, perdeu poder, ficou indelevelmente associado ao nazismo, mas a única coisa que o entristece é a reprovação de seu mestre. O escândalo envolvendo Roberto Alvim, o ex-secretário Especial de Cultura do governo Bolsonaro, aponta o holocausto cultural e político que os aloprados do olavismo têm o poder de causar. Alvim citou não uma, mas várias palavras de Goebells, o ministro da Propaganda Nazista, no lançamento de seu Prêmio Nacional das Artes. Conceitos emblemáticos e descolados da nossa realidade, como "arte heroica", que tinha algum sentido nos tempos sombrios que antecederam a Segunda Grande Guerra, mas só cabe no Brasil de hoje se os heróis forem os desempregados que se equilibram 14 horas por dia numa moto entregando iFood. Puro Goebells Alvim falou que a proposta bolsonarista de Cultura para os próximos dez anos é "imperiosa" (outra fala de Goebells) e ainda tascou no discurso uma citação literal do ministro de Hitler ao afirmar que será isso "ou então não será nada". Mesmo assim, relutou em se desculpar. Em seu primeiro post no Facebook depois do escândalo – e antes da demissão – minimizou a influência nazista no discurso mas, curiosamente, não perdeu a chance de elogiar a retórica de Goebells: "Houve uma coincidência com UMA frase de um discurso de Goebbles (sic)… não o citei e JAMAIS o faria. Foi, como eu disse, uma coincidência retórica. mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na Arte nacional." Li sem escrever Diante disso, fica difícil acreditar, como Roberto Alvim quer nos fazer crer, que tudo não passou de coincidência. Covardemente, o ex-secretário Especial de Bolsonaro culpou os subalternos: ele afirmou ter escrito 90% do que disse, mas não a parte que julgou comprometedora. Confessou, entretanto, que o discurso foi uma colcha de retalhos a partir da busca no Google dos termos: "Arte" e "Nacionalismo". Mal começo quando a identidade nacional nas artes é um copy e cola. Ao se justificar, Alvim errou mais e mais. Pra começar, é um show de autocomplacência resumir os equívocos no seu discurso a meros 10%. Todo o vídeo é um horror: a brilhantina no cabelo; a composição retrô do cenário; a canastrice da interpretação do texto em tom de vilão; o trecho sinistro da música de Wagner (o compositor símbolo do nazismo), escolhido como trilha sonora. E claro: o conteúdo! O Prêmio Nacional das Artes, como anunciado, é um atentado à liberdade de criação e um cuspe na cara da belíssima e plural cultura brasileira. Futuro da arte A pretensão de ditar, de cima para baixo, a partir de premiações polpudas, qual será o tom da "arte brasileira da próxima década" é Goebells em estado bruto. Só faltou dizer que o que o Brasil produz hoje é "arte degenerada", como fez Hitler nos anos 30 com sua exposição montada para achincalhar o modernismo de gênios como Picasso e Matisse. Um vexame histórico, que só não é mais lembrado porque o terror do Holocausto fez todas as bizarrices do nazismo parecerem menores. Bizarrice, aliás, é a palavra que melhor define a política cultural do governo Bolsonaro em seu primeiro ano. Vale lembrar que Alvim era só o líder de uma trupe folclórica que ainda ocupa cargos no governo, como Dante Montovani, da Funarte ("o rock está a serviço do marxismo e do satanismo") e Rafael Nogueira, da Biblioteca Nacional, aquele que associou Caetano Veloso ao analfabetismo.Também é atribuída a Alvim a escolha de Sérgio Sampaio para a presidência da Fundação Palmares: Sampaio, aquele que não assumiu porque foi impedido pela Justiça e se autodefine como um "negro de Direita", chamando de "afromimizentos" os que lutam pela igualdade racial. Seita Mas o grupo não nasceu do acaso. Todo ele é parte da fraternidade olavista, que tem (nunca é demais lembrar) vários outros nomes ocupando cargos-chave no governo. Inclusive o ministro da Educação Abraham Weintraub e o chanceler Ernesto Araújo. Olavo de Carvalho, como o Brasil aprendeu na marra, é autor de um "curso online de Filosofia" que não termina nunca. E responsável por algumas das teses mais absurdas e nocivas sustentadas pela extrema Direita brasileira, misturando anticiência e revisionismo histórico numa fórmula única e perigosa para a democracia. O próprio Olavo disse uma vez que não assume responsabilidade alguma sob o que seus alunos dizem e fazem. O "Professor", como é chamado pelos seguidores, frequentemente destrata seus pupilos, chamando-os de burros ou "cancelando-os" ao primeiro aborrecimento ou inconveniente. Castigo Para os membros deste grupo que não raramente é comparado a uma seita, ser reprovado por Olavo, o guru supremo, é o pior dos castigos. E a reação de Roberto Alvim após a demissão prova isso. Primeiro Alvim recusou-se a pedir desculpas. Acuado, mudou de ideia e pediu perdão à comunidade judaica. Em um segundo post no Facebook, disse que "entregou o cargo" a Bolsonaro e reduziu o incidente ao que chamou de "uma casca de banana". Driblando estoicamente todas essas desventuras em série, só se sentiu mesmo punido (veja só!) ao ter sua sanidade mental questionada por Olavo, que tuitou: "É cedo para julgar, mas o Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça. Veremos." Depois do tuíte, Alvim teria dito, em entrevista à Rádio Gaúcha, que a reprovação do "mestre" foi a "única coisa" que lhe entristeceu neste episódio. A única coisa! Quanto a Olavo de Carvalho, continua incensado pela família Bolsonaro mesmo sendo (diretamente através de suas postagens ou através de seus alunos aloprados) uma constante fonte de constrangimento.

Pelo poder das imagens e depoimentos, o recorte em primeira pessoa do impeachment de Dilma Rousseff, feito pela diretora Petra Costa em "Democracia em Vertigem", merece mesmo concorrer ao Oscar de Melhor Documentário. Mas de forma alguma a indicação deveria ser encarada como uma espécie de desagravo. Muito menos contar pontos naquela outra disputa mais antiga: a que procura definir se foi golpe ou não. Explico em vídeo:

Depois da ação dos EUA no Iraque, que culminou com a morte do general Soleimani, líder iraniano, o governo Bolsonaro apressou-se em divulgou uma longa e confusa nota oficial. Chama a atenção o fato dela ser mais alinhada com os interesses e com o discurso de Donald Trump do que as notas de outras potências como a Inglaterra (velha aliada de sua ex-colônia), França, Alemanha e China. O governo iraniano, em consequência, convocou um representante do Brasil para explicar a declaração. Ouso dizer que é por não tê-la entendido mesmo.

Jair Bolsonaro se equivocou ao dizer que jornalistas brasileiros são espécie em extinção. Mas a ideia de vincular a categoria ao Ibama, observação feita por ele em mais um daqueles infames encontros relâmpagos com claque, pode ser uma boa. Imagine um monte de jornalistas soltos por lá, investigando os cantos obscuros do órgão? Diminuição na fiscalização, concessão de autorização para desmatamento da Mata Atlântica… fora, claro, o sempre intrigante ministro Ricardo Salles. Veja o vídeo:

Não é notícia nova, mas é verdade: Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, anunciou no seu Twitter que detentos do sistema prisional em seu estado produziram chocolates, que foram distribuídos gratuitamente em creches e escolas no Dia das Crianças.

Ontem o youtuber Felipe Neto cantou a bola no Twitter e muita gente endossou: depois de um ano acompanhando o modus operandi dos Bolsonaro, não restava a menor dúvida de que um factoide bem idiota seria lançado pela família hoje, para desviar a atenção das denúncias contra Flávio e Queiroz.

Um dia ainda descobriremos se a bizarra fábrica de factoides do mundo bolsonarista era uma bem engendrada estratégia política diversionista ou só incontinência verbal mesmo. Por enquanto, entre risos e lágrimas, apenas nos fascinamos. Hoje é dia de riso. Para seu deleite, reproduzo aqui um tuíte postado essa manhã pelo deputado federal e filho 03 do presidente, Eduardo Bolsonaro: "Turistas por ano (milhões) /território (km quadrados): – Velha Jerusalém: 12/1km – Bahrein: 9/750km – Brasil: 6,6/8.500.000km Óbvio que turismo não se resume à área do país, mas os números assustam, ainda mais sabendo-se do nosso potencial em belezas naturais, ambientes e culturas."

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM) bugou meu cérebro. Pra justificar o aumento absurdo no fundão partidário ele afirmou: "A sociedade não vai ficar satisfeita nunca. Mas é preciso financiar a democracia".

Quando alguém quer menosprezar minha capacidade de comentar política costuma dizer que eu sou só "aquele ex-chargista do BBB". Para mim nunca foi ofensa: sempre vi similaridades entre as máscaras e os jogos da "casa mais vigiada do Brasil" e os do Congresso. O que eu nunca imaginei é que, três anos depois de deixar de deixar o programa, o BBB viesse até mim através dos tresloucados deputados do PSL.

A baixaria no Congresso já não causa estranhamento. Palavreado chulo, como o usado na surpreendente discussão sobre as intimidades sexuais entre Carlos Jordy (PSL) e Alexandre Frota (PSDB), também não espanta mais.

A indicação do olavista, maestro e youtuber, Dante Mantovani, para a presidência da Funarte (Fundação Nacional das Artes) trouxe de volta aos noticiários uma das mais infames teorias conspiratórias espalhadas por Olavo de Carvalho, o guru da família Bolsonaro: a de que os Beatles conspiraram com a Escola de Frankfurt (grupo de filósofos marxistas alemães do século passado) para disseminar no mundo o comunismo. Foi pensando nos brasileiros que ainda não foram cooptados por essa teoria conspiratória absurda que listei cinco fatos que comprovam que os Beatles nunca foram comunistas:

Hoje amargamente "Jair I Love You Bolsonaro" descobriu que, para Donald Trump, ele e "Alberto Esquerdopata Fernández" são farinha do mesmo saco: o saco destinado às republiquetas de banana da América do Sul.

Vendo Heloísa Bolsonaro dizer que "passa perrengue" com o salário de deputado do marido (cerca de R$ 33 mil, mais os polpudos penduricalhos), só posso levantar as mãos pros céus e agradecer pelo estilo espartano da minha família.

O que um governo deve fazer se tiver como principal base de sustentação a família conservadora cristã e mesmo assim a oposição estiver dando trabalho? Ora, como os antigos cruzados, é só promover a conversão de infiéis e… ampliar o eleitorado!

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