Santa Catarina tem 39.202 processos de violência doméstica e 132 de feminicídio em andamento no estado. Os dados são do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) e levam em conta os casos em aberto até janeiro de 2020.

O Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CREMV), que oferece atendimento gratuito em Florianópolis, foi criado em 2009 para tentar reduzir as estatísticas. Cerca de 5,9 mil mulheres receberam assistência no local desde então.

A criação de locais como o CREMV é prevista na Lei Maria da Penha, em vigor no país desde 2006. Além de oferecer assistência psicossocial integrada, o espaço é destinado ao acompanhamento de denúncias e orientações gratuitas referentes à legislação.

O grupo Elo das Marias é um dos projetos mantidos pelo CREMV, em funcionamento desde julho de 2019. Mais que um espaço de acolhimento e reconstrução de vida, o grupo procura dar uma resposta coletiva ao enfrentamento da violência contra a mulher, conforme conta a psicóloga Soraia Araújo, uma das idealizadoras do projeto.

"O empoderamento tem dimensões políticas e sociais. O nosso é a partir da perspectiva de Paulo Freire. Não é o poder pelo poder, é o poder que permite elas se darem conta das desigualdades ao redor, além daquelas relacionadas à condição de ser mulher", explica.

O G1 participou de uma das reuniões, que ocorrem toda semana no Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência. No encontro, foram ouvidas histórias de mulheres que sobreviveram a violências físicas e psicológicas praticadas por seus companheiros.

"Nós já fomos vítimas, hoje somos sobreviventes", salienta Maria Vitória*, uma das cinco mulheres que atualmente participam do Elo das Marias. Ao lado dela, estão Maria Fernanda*, Maria Cláudia* e Maria Luiza* e Maria Julia* — essa última presente virtualmente, por meio de chamada de vídeo.

Elas se conheceram no CREMV, após buscarem atendimentos psicológico e jurídico. Foi lá também que elas se reconhecem enquanto Marias, assim como a Maria da Penha, como elas mesmas preferem se autointitular.

Maria Vitória* é exemplo de que nem toda agressão é visível a olho nu. Ela conta que nunca levou um tapa sequer do marido, mas até hoje se sente repleta de cicatrizes. Era chamada de louca quando questionava as ofensas que ouvia constantemente do companheiro.

Lembra bem do passado, com o devido distanciamento, e percebe que nunca pensou por si enquanto era casada. Após anos sofrendo abuso psicológico, a denúncia que ajudou a mudar sua vida foi feita em um simbólico 8 de março, o Dia Internacional da Mulher.

"Eu registrei o B.O. [boletim de ocorrência] e tive que ficar escondida até a noite. Ele foi atrás de mim, agachou do meu lado e perguntou o porquê de eu estar ali. Disse que me amava, o que em anos ele nunca tinha dito. Pediu para não denunciar. Depois, vim para Florianópolis e estou aqui até hoje", recorda.

A percepção de que vivia um relacionamento abusivo veio após ouvir uma frase do próprio irmão. "Ele perguntou 'o que te prende a esse cara?'. Na hora eu respondi, sem pensar, que era o medo. Foi quando eu me dei conta que era nisso que nossa relação era baseada, em medo", desabafa.

A violência dentro de casa não era a única enfrentada por Maria Fernanda. Do lado de fora, na convivência com o restante do mundo, recorda que a agressão física que sofria do então companheiro se refletia na falta de apoio.

"A gente não fala para as amigas por vergonha também. Porque você aparece andando de mãos dadas com ele na rua, mas ninguém sabe que na noite anterior você apanhou. Eu aguentei isso por 8 anos. Quantas vezes eu fui na delegacia […], depois ele dizia que me amava e eu rasgava o B.O.", conta.

Mesmo que suas marcas físicas já tenham sido curadas, a voz ainda embarga ao lembrar-se da vida que levava com o ex-marido. Os danos psicológicos permanecem quase uma década depois do fim do relacionamento.

"Eu descobri [que estava em um relacionamento abusivo] quando cheguei em casa e vi que não mandava em mais nada, que tinha perdido o controle de tudo", explica ao recordar do momento em que tomou a decisão de sair de casa.

Maria Cláudia* passou anos sem poder cortar o cabelo, usar batom e vestir o que tinha vontade, porque o marido “não deixava”. Ela ressalta que situações como essas, vivenciadas por ela durante o casamento, são sinais que indicam uma relação abusiva.

"Primeira coisa é o sentimento de posse. Quando você só faz as coisas da forma que ele quer, não trabalha, não corta o cabelo, não sai de casa. Se ele fica dizendo sempre que você é louca […] , sinalização de posse, cai fora".

Mas esses comportamentos abusivos não acontecem o tempo todo. Maria Cláudia explica que eles são intercalados com gestos de carinho, que geram nas vítimas um sentimento de culpa pela violência sofrida.

"Você percebe que ele é ruim, mas aí ele fez algo de bom, e você começa a pensar que a errada deve ser você e se sente culpada. É uma verdadeira lavagem cerebral. Quando você está em um relacionamento assim, não consegue pensar, não raciocina. Ele fala e você acredita. Ele diz que você disse algo, que você sabe que não disse, mas ele te manipula até você acabar acreditando."

Aos quatro meses de gestação, ela foi estuprada pelo próprio marido. As marcas físicas da violência sexual se estenderam até o fim da gravidez, quando mal conseguia caminhar. Anos depois, foi no filho mais velho que encontrou forças para dar fim ao relacionamento.

E foi graças ao filho mais novo que Maria Claudia escapou de fazer parte das estatísticas de feminicídio. "Se estou aqui hoje é por causa dele. Meu caçula, com 12 anos, entrou e viu o pai me estrangulando. Ele saiu correndo e foi chamar o tio. Eu já estava desmaiada, quase morri", conta.

Toda a sociedade tem um papel fundamental no enfrentamento à violência doméstica, inclusive os familiares. Foi a partir do apoio dentro de casa que Maria Luiza* conseguiu sobreviver à violência.

Maria Luiza conta que já ouviu uma delegada dizer que mulheres usam a violência doméstica para “tirar dinheiro dos maridos”. "É o argumento que ele tem usado para negar as agressões [perante a Justiça]", disse.

Mulheres que sobrevivem a relações abusivas têm um longo caminho após o término do relacionamento. Entre os desafios enfrentados pelas mulheres que passam por programas de acompanhamento está a inclusão no mercado de trabalho.

Das sete Marias do Elo, seis fazem parte dos milhões de desempregados que existem hoje no país. A psicóloga Soraia Araújo, uma das idealizadoras do projeto, conta que muitas delas dependiam financeiramente de seus companheiros, seja por serem impedidas de trabalhar ou mesmo por não terem tido incentivo para estudar.

Por isso, além do amparo psicológico e jurídico, o projeto busca proporcionar autonomia financeira, criando oportunidades de capacitação profissional, emprego e empreendedorismo. Atualmente, o grupo busca parceria com entidades públicas e privadas que dêem suporte a essa ação.

"Nosso propósito é sensibilizar e implicar a necessidade de políticas públicas e mecanismos privados que compreendam a questão da inserção desta mulher em situação de violência no mundo do trabalho, da sua independência financeira como parte do processo de empoderamento da mulher. Essas mulheres no mundo do trabalho, com uma renda digna, não é só a condição delas que muda, é a do país", ressalta.

"É como se existisse para servir e não para ser. Este comportamento junto com o sentimento de culpa da vítima funcionam como o grande empecilho para que esta mulher possa se sentir capaz de trabalhar. Gera um estado psicológico de muita insegurança. Muitas acabam se dedicando quase que exclusivamente ao trabalho doméstico, novamente pelos traços abusivos da relação, pois ela acaba ficando isolada no espaço doméstico devido ao comportamento de posse do abusador, resultando na falta de qualificação profissional", explica a psicóloga.

Foi no Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência que essas vítimas enfim se sentiram acolhidas. O local é o único do Estado que oferece esse tipo de assistência específica às mulheres e a ideia é ser um lugar onde elas possam ouvir e serem ouvidas e, eventualmente, serem encaminhadas a outros serviços, como o de assistência jurídica.

Atualmente, trabalham no Centro três assistentes sociais, duas psicólogas, uma técnica administrativa e uma pessoa responsável pelos serviços gerais. O Centro funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h, e a visita não precisa ser previamente agendada.

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