Na rua o dia inteiro, eles jogavam futebol, brincavam de pique, corrida, vôlei, todos os esportes. Mais velho, Marcello era quem comandava a bagunça, criando os às vezes arriscados passatempos para ele e os dois irmãos. Um traço da inclinação pela aventura, que acabou inspirando dois medalhistas olímpicos – e irmãos de Marcello: Tande (ouro no vôlei de quadra em Barcelona 1992) e Adriana Samuel (prata em Atlanta 1996 e bronze em Sydney 2000 no vôlei de praia). Hoje, a escalada une ainda mais os irmãos Marcello, 55 anos; Adriana, 54; e Tande, 50. Aventura que teve origem no mais velho do trio.

Pouco antes do Dia do Irmão, celebrado neste 5 de setembro, os três escalaram uma rocha, ao ar livre, pela primeira vez. Foi no domingo passado. Adriana ainda não tinha experimentado. Para Tande, algo muito mais complexo que o vôlei.

– Verdade seja dita, um erro meu no voleibol, se eu perco ponto, sou substituído, lá não tem substituição, e o alpinista pode pagar com a vida – fala Tande sobre a escalada.

– Mas é muito difícil, impossível, tem que treinar muito. Eu subi quase nada e saí toda dolorida já. Ou seja, se formos comparar o Marcello no vôlei e a gente no esporte dele, ele foi um jogador de vôlei muito melhor do que eu tentei ser uma alpinista, e o Tande idem – brinca Adriana.

As recorrentes mudanças por causa da carreira militar de seu Álvares, que também jogou vôlei pelo Exército, tiveram grande influência na vida esportiva dos filhos. Enquanto Marcello começou a ter o Pão de Açúcar como quintal de casa e decidiu explorá-lo, Adriana começou a jogar vôlei na escolinha do Círculo Militar, da Praia da Vermelha. A Urca, bairro onde ficam o cartão-postal e o Círculo, tem uma instalação militar. Adriana acabou descoberta pelo Botafogo, time em que Tande também iria jogar. Ela migrou para as areias. Tande chegou a jogar na praia também durante a carreira no vôlei. Esporte que alçou os filhos mais novos da família Samuel ao pódio olímpico.

– O Tande teve uma projeção maior e mais cedo do que eu, a medalha olímpica dele veio em Barcelona 1992, então ele ficou muito famoso. Apesar de eu ser mais velha, fui conquistar as minhas medalhas olímpicas apenas em Atlanta 1996 e depois em Sydney 2000 – conta Adriana Samuel.

Aos 22 anos, Tande ajudou o vôlei masculino a conquistar o primeiro ouro olímpico. O caçula fez história em Barcelona 1992. Foi também a primeira vez que o esporte coletivo brasileiro atingiu o lugar mais alto do pódio. A seleção masculina venceu todos as partidas naqueles Jogos e faturou o ouro que abriu o tricampeonato olímpico – os outros vieram em Atenas 2004 e na Rio 2016.

Adriana faz parte do time das primeiras medalhistas olímpicas do Brasil. No dia 27 de junho de 1996, em Atlanta, quatro mulheres brasileiras subiram ao pódio. Não houve apenas a primeira medalha feminina do Brasil, mas duas: a prata de Adriana Samuel e Mônica Rodrigues; e o ouro de Sandra Pires e Jacqueline Silva, as primeiras brasileiras campeãs olímpicas do vôlei de praia. Logo de cara, foi o ano em que a modalidade estreou na competição.

– Em Atlanta, nós (seleção masculina de vôlei) ficamos em quinto lugar, um momento difícil pois seria o bicampeonato e, minha irmã chega à final. Eu estava vivenciando um lado da Olimpíada, que era a frustração de não ter conseguido a medalha, e pelo outro, a irmã numa final, medalhista de prata como as primeiras mulheres brasileiras medalhistas em Olimpíadas – diz Tande.

Em Sydney-2000, foram as segundas Olimpíadas juntas dos irmãos e as terceiras dele. Mas os horários não batiam, enquanto um estava jogando, às vezes o outro tinha que treinar ou comandar um treino. Marcelo ‘Alemão’, marido de Adriana, era assistente técnico da seleção masculina de vôlei.

– Volta e meia eu batia a bola lá para o fundo e corria para a TV, ficava uns 20 segundos olhando: “Vai, Nana! Boa!” e voltava. As pessoas começaram a tomar noção e começaram a vir comigo. Acabou o treino, todo mundo torcendo, olhando o jogo. Foi momento muito forte – completa Tande, lembrando como fazia para acompanhar a irmã em ação nas Olimpíadas também.

Marcello, o mais velho, já praticou asa-delta também. Ele começou a escalar em 1978, aos 14 anos. Abriu várias vias, como a primeira via de 10º grau de dificuldade (História Sem Fim) e participou do primeiro campeonato Sul-Americano, em Córdoba, Argentina – além da primeira edição da competição que aconteceu no Brasil.

A escalada estreia no programa olímpico nos Jogos de Tóquio 2020, ano que vem. Os irmãos medalhistas apostam que, se a modalidade já estivesse entre os esportes em Olimpíadas, Marcello já teria conquistado um pódio, assim como eles.

– É possível escalar em cidades que não tenham montanhas, uma parede artificial permite treinar com chuva, de noite, o que deu um impulso imenso ao esporte, democratizou – explica Marcello.

– Parece que a pessoa está assistindo ao Cirque du Soleil. Os atletas olímpicos de escalada são fantásticos. O esporte lá fora está muito evoluído, esses formatos que eles estão trazendo para a Olimpíada já estão bem definidos. Foi estudado como reduzir o esporte para o tamanho da competição de modo que não fique cansativo e quais são os estilos mais interessantes – afirma Marcello.

Mesmo sem ter vivenciado o ambiente olímpico como atleta, Marcello, agora, divide uma de suas paixões com os irmãos. Uma paixão pelo esporte que vem do pai, seu Álvares, e da mãe, dona Maise. Do vôlei à escalada.

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