Na avenida Paulista, em São Paulo, manifestantes de coletivos como Evangélicas pela Igualdade de Gênero, Central Sindical Popular e Mulheres do Sindicato dos Metroviários de SP começaram a se reunir às 14h no vão-livre do Masp e no parque Mario Covas.

Portavam tambores, bandeiras e faixas com dizeres em lembrança à vereadora Marielle Franco, cujo assassinato completa dois anos no próximo dia 14, a favor da democracia, contra o presidente Jair Bolsonaro e e em defesa das mulheres, como “em casa, na rua, no trabalho e no transporte: exigimos respeito! Basta de violência”.

“Fora Bolsonaro! Ele não, ela sim! Nenhuma a menos!”, repetiam os presentes em coro, ecoando fala de uma representante do Cabaré Feminista em uma caixa de som. “Ele não, ele nunca, nós sim!”, “Nós não queremos Doria governador!”, emendou ela.

Um tumulto ocorreu quando um homem foi expulso do agrupamento em frente ao parque Mario Covas após ofender uma das representantes do coletivo. Alterado, ele foi sendo empurrado para longe da reunião e foi embora pela alameda Ministro Rocha Azevedo.

A chuva não impediu a estudante Marina Pio, 23, de participar do ato. “É um dia muito simbólico, e as mulheres têm que se posicionar e mostrar que exigem um país com mais respeito e representatividade”, diz ela, para quem “o movimento feminista e o contra o governo Bolsonaro são paralelos.”

A técnica de segurança do trabalho Karine Goulart, 31, foi ao ato com um cartaz escrito “o que é coronavírus perto do feminicídio”. “As pessoas colocam mais energia no vírus do que no tanto de mulher que morre todo dia. Ninguém pensa em como parar isso, que também é muito importante”, diz.

“Marielle presente! O assassino dela é amigo do presidente”, cantava o coletivo independente formado por Claudia Silva. “Criei um grupo de WhatsApp com três amigas e ai começamos a divulgar”, diz ela. “Hoje temos aqui gente de São Paulo, Ubatuba, São José dos Campos, Campinase ABC.”

Sobre a coreografia, ela conta que cada uma ensinou por si própria em casa. “Aí hoje nos reunimos um pouco antes do começo da manifestação e ensaiamos umas 15 vezes”, segue ela, que afirma que cada uma das 150 integrantes ali presente contribuiu financeiramente como pôde. “Umas fizeram lenços, outras fizeram a faixa. Cada um fez o que pôde.”

A assessora parlamentar Iara Bento, 45, foi ao ato para lutar contra o governo Bolsonaro. “O processo de desconstrução de políticas públicas atinge mulheres e, sobretudo, as mulheres negras”, diz ela, que estava com a Marcha das Mulheres Negras.

A deputada federal e pré-candidata à prefeitura de São Paulo, Sâmia Bomfim, foi uma das participantes do ato. “O ato esse ano tem um novo significado. Temos um presidente que materializa tudo o que lutamos contra —é machista, misógino e autoritário”, diz ela.

Em São Paulo, o protesto envolve mais de 80 entidades (entre coletivos feministas, movimentos sociais e siglas de esquerda), as organizadoras pretendem atrair 60 mil pessoas, mesmo tamanho do público estimado no ano passado.

O ato começou a ser preparado em janeiro, já com o tema “Mulheres contra Bolsonaro”. Segundo líderes, a ênfase no nome do presidente se impôs por causa das ações contrárias a demandas históricas do movimento, como igualdade de gênero, combate à violência doméstica e descriminalização do aborto.

O protesto se soma a outros dois de oposição ao governo marcados para este mês: o do dia 14, que pedirá esclarecimentos sobre a morte de Marielle Franco na data em que o assassinato faz dois anos, e o do dia 18, organizado inicialmente por melhorias na educação e nos serviços públicos.

“O Estado opressor é um macho violador”, bradaram centenas de mulheres em protesto no Centro do Rio de Janeiro, neste domingo (8). O foco do ato, na Praça Mauá, foi o combate à violência sexual e a defesa da legalização do aborto. As manifestantes pediram mudanças na forma como o poder público lida com o estupro.

O protesto começou com a encenação de uma performance intitulada “Um Violador no seu Caminho”. As participantes ensaiaram ao lado do Museu do Amanhã a coreografia, que termina com todas de mãos cruzadas e elevadas. A inspiração vem do coletivo chileno La Tesis.

“A questão da violência sexual é para nós um ponto muito sensível em toda a luta feminista. Isso porque diz respeito ao controle sobre nossos próprios corpos”, disse Flávia Prata, do movimento Corteja 8M, que reúne representantes de blocos do carnaval de rua carioca.

Também participou do ato o Nossa Hora de Legalizar o Aborto RJ. Segundo a representante do grupo Consuelo Bassanesi, mesmo com a abertura legal de interrupção da gravidez em caso de estupro no Brasil, ainda há dificuldades para as mulheres exercerem esse direito. Ela defende a legalização para os demais casos.

“Quem tem condições financeiras procura uma clínica, mas quem não pode se arrisca e pode até vir a óbito. Temos que reafirmar o Estado laico. O Estado não pode determinar a orientação moral das pessoas”, diz Bassanesi.

Prata também criticou a proposta de criação de um auxílio para mulheres estupradas que optem por não abortar. O projeto em tramitação no Congresso, que recebeu apoio da ministra Damares Alves (da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), prevê a chamada “Bolsa Estupro”.

A performance também incluiu críticas ao presidente Jair Bolsonaro. Em homenagem a Marielle Franco, assassinada há dois anos, entoou-se: “O assassino dela é amigo do presidente”. Acusado da morte da vereadora, o policial reformado Ronie Lessa era vizinho de Bolsonaro e chegou a postar foto ao lado do presidente.

As manifestantes começaram a se concentrar por voltas das 10h e ao meio-dia iniciaram um cortejo pelo Boulevard Olímpico, na Zona Portuária. A militante de esquerda Eliete Ferrer, 73, diz que não desiste da luta. “Estive na manifestação dos 100 mil em 68, fui exilada e lutei por democracia. Nunca esperava nessa idade estar fazendo mesmo de novo”, afirmou ela.

A professora de história Pollyana Labre, 28, diz que ocupar as ruas é uma forma de conquista de espaço por parte das mulheres. “Há alguns anos tocar em baterias ou bandas de carnaval não era comum para nós e hoje vemos muitos blocos feministas ou só de mulheres no carnaval. Temos que buscar visibilidade também”, disse.

Neste ano, o movimento feminista do Rio decidiu realizar atos espalhados pela região metropolitana no Dia Internacional da Mulher e promover uma manifestação unificada nesta segunda (9), às 17h, em frente à Igreja da Candelária, no Centro. O objetivo é concentrar maior número de participantes num dia de trabalho, quando os transportes públicos estão funcionando normalmente.

Em Brasília, grupos de mulheres e organizações sociais saíram em marcha na região central da cidade na manhã deste domingo (8). A caminhada passou pelo Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal, e a Funarte (Fundação Nacional de Artes).

Junto ao grupo, estavam participantes do Encontro Nacional de Mulheres Sem Terra. De acordo com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), este foi o primeiro encontro organizado exclusivamente por mulheres camponesas.

Em Curitiba, as manifestantes lembraram do assassinato, na quarta (20), da escrivã da Polícia Civil Maritza Guimarães de Souza, 41, e de sua filha Ana Carolina, 16 —o delegado Erick Busetti, marido de Maritza, está preso por suspeita de autoria do crime.

Em Salvador, houve uma caminhada até o Farol da Barra. Cartazes traziam a frase “Parem de nos matar”, um protesto contra o crescimento do crime de feminicídio. O ato teve música e protestos também contra o presidente Jair Bolsonaro.

Em Belo Horizonte, a convocação criticava o convite de Bolsonaro para os protestos do dia 15, dizendo que o presidente “avança de novo contra a democracia”. Na passeata, uma faixa dizia “Contra Bolsonaro seremos Marielle”.

Em Porto Alegre, as mulheres se reuniram para atividades culturais na orla do rio Guaíba, área de lazer que reúne os moradores nos fins de semana. Assim com no Rio, o protesto foi marcado para esta segunda (9), no largo Glênio Peres, no centro da cidade.

Dia 8 (domingo)  Mulheres irão às ruas em atos pelo Dia Internacional da Mulher, com ênfase nas críticas a Bolsonaro, associado pelos movimentos a retrocessos nas questões femininas

Dia 14 (sábado)   Manifestações pedirão esclarecimentos sobre o assassinato da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, que completará dois anos na data

Dia 15 (domingo)   Simpatizantes do governo Bolsonaro farão atos em apoio ao presidente, mas também são esperados ataques ao Congresso e ao Supremo, com pedidos de fechamento de ambos

Dia 18 (quarta-feira)  Ato convocado inicialmente em defesa da educação pública ganhou o reforço de centrais sindicais e envolverá paralisações de servidores e pressão por impeachment de Bolsonaro

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