Um clássico oitentista, “O Enigma da Pirâmide” (1985), de Barry Levinson, trazia as aventuras de um jovem Sherlock Holmes se descobrindo como detetive. Indicado a um Oscar, o filme foi o primeiro contato de uma geração com o personagem criado por Arthur Conan Doyle no final do século 19. De lá para cá, Sherlock teve altos e baixos; foi trazido para os dias de hoje pela boa série da BBC, levado para os EUA em outra nem tão boa, e transformado em herói de ação interpretado por Robert Downey Jr. nos filmes de Guy Ritchie. O personagem agora vira coadjuvante em “Enola Holmes”, filme que seria lançado nos cinemas, mas acabou adquirido pela Netflix em virtude da pandemia, e chega nesta quarta (23) ao serviço de streaming.

Dirigido por Harry Bradbeer (“Fleabag”), o filme se baseia nas histórias de Nancy Springer, que criou a irmã mais nova do detetive, personagem nunca citada nas histórias de Arthur Conan Doyle. Criada pela mãe (Helena Bonham Carter) sem a presença do finado pai ou dos ocupados irmãos, Sherlock e Mycroft, Enola (Millie Bobby Brown) é uma mulher diferente para a época; ela sabe lutar,  conhece literatura, filosofia, soluciona mistérios, enfrenta autoridades, ou seja, não depende de ninguém para dizer o que ela pode ou não fazer.

Sua vida muda quando sua mãe desaparece deixando algumas pistas – ela parte então em uma jornada para encontrá-la. Sua aventura ganha novos contornos à medida que outras pessoas cruzam seu caminho e a trama ganha ares mais grandiosos. A presença de Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Claflin) apenas acrescenta outra camada ao roteiro.

Millie Bobby Brown é um espetáculo de carisma em cena. A narrativa do filme tem uma constante quebra da quarta parede, com a protagonista conversando diretamente com a câmera em diversos momentos – a experiência do diretor com “Fleabag” deve ter ajudado bastante nessa condução. A atriz, famosa por “Stranger Things”, desfila pela tela, sempre seguida de perto pela câmera, o que coloca o público sempre dentro da ação e não oferece a ele muito espaço para pensar. O recurso funciona bem na maior parte do tempo, mas pode irritar pelo excesso de didatismo em certos momentos.

Apesar de uma ambientação supostamente grandiosa, a Londres do século 19, “Enola Holmes” é um filme simples. Há, claro, os grandes salões vitorianos e roupas luxuosas, mas a maior parte do filme é situada em ambientes urbanos e de pouca pompa, o que possibilita também um filme mais barato.

O roteiro faz um trabalho interessante ao inserir de forma natural alguns temas históricos, como a luta das sufragistas pelo sufrágio universal, a discussão sobre o voto das mulheres. A mudança do plot também funciona bem, com a jornada de Enola em busca da mãe se transformando em outra aventura. O texto derrapa apenas em algumas sequências totalmente previsíveis, mas deve-se entender o público alvo do filme.

É interessante notar como o roteiro depende pouco do que poderia ser seu grande chamariz, Sherlock Holmes. A versão de Henry Cavill para o personagem icônico é charmosa e mais simpática do que as encarnações anteriores do personagem. Sua presença, porém, funciona para ressaltar as potências de Enola – o detetive se diverte, com orgulho, ao ver a irmã solucionando casos e fazendo a diferença. O público cria a expectativa de que, ao fim, Sherlock apareça para salvar o dia, aquelas aparições bem convenientes, ex-machina, mas o filme não é sobre ele.

Millie Bobby Brown mostra que tem força para conduzir um filme sozinha e sua presença em tela nunca se torna cansativa, pelo contrário. Apesar disso, o roteiro se beneficiaria com uma variação de dinâmica que poderia vir de e mais cenas da atriz com Cavill, algo que provavelmente deve acontecer em uma sequência – o filme adapta apenas o primeiro dos seis livros lançados por Nancy Springer sobre as aventuras de Enola.

“Enola Holmes” não é um filmaço, mas é divertido e um ótimo entretenimento. O início das aventuras da jovem Enola é correto e tem pegada de literatura para jovens adultos, com o despertar para o amor e a busca por um lugar de pertencimento. Ao fim, fica a curiosidade de saber o que pode vir a ser explorado nesse universo à medida que Millie Bobby Brown e a personagem envelheçam (ambas têm 16 anos); poderemos ver mais Sherlock? Será que teremos um jovem Moriarty? As possibilidades são inúmeras.

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