Genival Lacerda e o futebol: torcedor ilustre do Treze, cantor jogou pelo clube há 70 anos | futebol

A música nordestina está de luto com a morte de Genival Lacerda. A lenda do forró morreu nesta quinta-feira, em Recife, em decorrência de complicações causadas pela Covid-19. Autêntico, dono de uma voz forte, que cantou músicas marcantes e bem-humoradas, o músico jamais negou as suas origens, deixando saudade no coração de muitos fãs. O que muitas pessoas não sabem é que, antes de enveredar pelo caminho musical, o paraibano tentou a sorte jogando futebol. Foi no fim da década de 1940, quando foi zagueiro do seu time do coração, o Treze Futebol Clube. A história é curtinha, mas ele jamais deixou de mencionar o Galo da Borborema nos seus 89 anos de vida.

Antes da música, Genival Lacerda foi zagueiro do Treze

Genival Lacerda nasceu em Campina Grande no ano de 1931. Foi na Rainha da Borborema em que ele cresceu, se apresentou para o mundo e, no futuro, cantou canções como “Severina Xique-Xique”, “Quem Dera”, “Mate o Veio”, dentre outros.

Foi no fim da década de 1940, mais precisamente no ano de 1949, que o jovem Genival decidiu seguir carreira como jogador de futebol. O Treze, o seu time do coração, acolheu o jovem franzino zagueiro, como detalha o professor e pesquisador Mário Vinícius.

– Ele foi jogador por um curto período: final da década de 40 e início da década seguinte (49-51). Foi do período de transição entre o amadorismo e o profissionalismo do Treze Futebol Clube. Ele era um atleta magro, era quarto zagueiro do Treze Futebol Clube – detalha o historiador.

2 de 4 Mário Vinícius é historiador do Treze — Foto: Acervo Pessoal / Mário Vinícius

Mário Vinícius é historiador do Treze — Foto: Acervo Pessoal / Mário Vinícius

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Em uma entrevista para a TV Globo, Genival Lacerda contou mais detalhes sobre a sua aventura como jogador de futebol. O cantor não chegou a ingressar na equipe principal do Alvinegro de Campina Grande, atuando numa espécie de time de aspirantes, chamado de segundo quadro.

– Eu tinha uns 48kg. Se ventasse forte, eu poderia ser levado para dentro da barra. Eu era um beque de usina. Quem tentasse passar por mim sofria. Eu não deixava o cara fazer gracinha na minha frente. Na época, eu tinha um amigo chamado Nelson, jogador. Ele vinha driblando todo mundo até chegar perto de mim. Aí eu lhe dei uma entrada e ele me chamou de ignorante e bruto. Mas eu disse que ele não passaria.

– Eu joguei no Treze Futebol Clube, mas jogava no segundo quadro, o time de aspirantes. Depois do nosso treino era que o time principal entrava em campo – contou Genival.

3 de 4 Genival Lacerda, zagueiro franzino nos tempos de Treze — Foto: Reprodução / TV Globo

Genival Lacerda, zagueiro franzino nos tempos de Treze — Foto: Reprodução / TV Globo

O fato é que a paixão pelo futebol não colocaria a comida na mesa do jovem Genival, que foi descobrindo o quão dura era a realidade da época, principalmente para jogar num clube que estava nesse processo de transição. Foi com receio de passar fome que o paraibano decidiu mudar de profissão. E, graças aos deuses do futebol e da música, o caminho escolhido foi mesmo o dos palcos e microfones.

Naquele tempo, Deus me defenda. A gente jogava futebol, mas recebia choro. Ganhava um bichinho mixuruca. Aí eu pensei: acho que vou deixar essa profissão e procurar outra. E fui! Eu fui cantar

— Genival Lacerda

E como o destino foi bom para Genival Lacerda e para o povo forrozeiro! Assim que deixou os campos, ele foi para a música. Se as quatro linhas não abraçaram o zagueiro franzino, os palcos sim foram acolhedores, transformando o ex-zagueiro numa das principais vozes da canção nordestina. Mas se engana quem pensa que o cantor esqueceu o futebol e o Treze. Foram diversas vezes que ele relatou essa história como jogador, também destacando o carinho que tinha pelo clube do coração.

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4 de 4 Genival Lacerda era torcedor ilustre do Treze — Foto: Reprodução / TV Globo

Genival Lacerda era torcedor ilustre do Treze — Foto: Reprodução / TV Globo

Nesta quinta-feira, o ilustre trezeano partiu. Genival não resistiu a um duro e lento tratamento contra o novo coronavírus. As complicações causadas pela doença que abalou o mundo foram fatais com uma das lendas da música brasileira. Hoje é o público que canta mais triste, mas sempre orgulhoso: “quem dera ter você de novo, chegando”.