O Brasil ainda é, por excelência, o país resultadista onde a avaliação sobre um time ou um técnico pode mudar da água ao vinho em uma semana. Ainda é o país que joga treinadores na fogueira em um mês, que valoriza pouco os processos de construção de time. Enfim, ainda é o lugar em que ganhar de qualquer forma suplanta a noção de que, para ganhar, escolher uma forma é o passo primordial.

Mas há campeonatos que deixam marcas. E o Brasileirão de 2020 será jogado, a partir de sábado, à sombra do torneio de 2019. Ao atropelar os rivais, o Flamengo de Jorge Jesus colocou em evidência, mais do que os resultados, a opção por um estilo que impactou o país. Agora, ao substituir Jesus, o clube entrevistou treinadores, pesquisou, colocou no noticiário o debate sobre a forma, sobre o modelo. No lugar de tentar contratar um currículo, uma taça, pareceu escolher uma ideia. Os resultados ainda são protagonistas, mas aos poucos o público exige mais qualidade, discute mais sobre as diferentes formas de fazer futebol. E, neste aspecto, o torneio parece promissor. Tendência iniciada no ano passado, estamos diante de uma disputa plural.

Caso de fato siga em direção ao “Jogo de Posição”, escola na qual se formou, Domènec Torrent chega ao Flamengo para compor um grupo que tem em Jorge Sampaoli, agora no Atlético-MG, outro representante. Ainda que com conceitos menos ortodoxos, surgem outros treinadores empregando modelos posicionais de ataque, como Dorival Júnior no Athletico-PR e o recém-chegado Ramon Menezes, no Vasco. O “Jogo de Posição” privilegia a ocupação racional de zonas no ataque para fixar marcadores, movê-los e abrir espaços. A grosso modo, a bola deve ir ao atacante. O que está longe de significar um time estático.

Há outros adeptos da ofensividade, da troca de passes e da posse. Mas com times mais móveis, com jogadores procurando a bola para se agrupar e dialogar. É o jogo de que gosta Fernando Diniz, hoje no São Paulo, e também Renato Gaúcho, do Grêmio.

Ao menos dois trabalhos deverão chamar atenção pela pressão intensa e a tentativa de chegar rapidamente à área adversária: o Internacional de Eduardo Coudet e o RB Bragantino de Felipe Conceição. Este último, aliás, nos apresentará a outra novidade: uma “franquia de futebol”, ou seja, a busca por um estilo de jogo que é marca da Red Bull em todos os clubes de que é proprietária, seja na Alemanha, Áustria ou Estados Unidos.

Mas a disputa — ou a falta dela — de 2019 coloca outras questões sobre a edição que se aproxima. Passamos a ser uma liga de 90 pontos? Como na Europa, o campeão vai precisar ganhar 80% dos pontos?

Aí entramos na habitual instabilidade de um mercado periférico. As disparidades já se constroem aqui, mas o processo é mais recente, menos maduro. Clubes mais poderosos se reestruturaram há pouco tempo, outros sequer o fizeram. E a perda de figuras centrais em projetos segue sendo um risco.

Em tese, poucos movimentos de mercado abalam a noção de favoritismo do Flamengo. Talvez a agressividade do Atlético-MG em contratações sob encomenda para Jorge Sampaoli crie expectativa, mas a dúvida ainda é saber se alguém acompanhará o ritmo rubro-negro. Ocorre que hoje é menos fácil cravar que ritmo será esse. O clube, apesar do poderio financeiro, perdeu Jorge Jesus e inicia um novo trabalho, traço habitual em países exportadores. Além disso, os 90 pontos de 2019 são um marco inédito numa liga que jamais vira um campeão somar mais de 81.

Para completar, este será um torneio sem público, num ano pandêmico e com calendário alucinante até fevereiro de 2021. O Flamengo ainda é claro favorito, mas há peculiaridades demais neste novo mundo.

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