Alguns atores ficam famosos pelo sotaque carregado e pela cadência muito particular de falar. Um deles é Tim Blake Nelson, que, embora tenha feito apenas dois filmes com Joel e Ethan Coen, parece ter seu sotaque de Oklahoma extraído diretamente do universo narrativo dos irmãos. A oratória de matuto cabe como uma luva na visão de mundo dos Coen, onde personagens controlados docemente pelo acaso não têm a menor noção da imensidão das coisas, embora se achem senhores de tudo.  

O Diabo de Cada Dia já começa com um tom familiar, parece um filme de Meio-Oeste dos Coen, muito por conta da narração em off. Com um sotaque carregado de Ohio, o narrador aponta no mapa as cidades de Knockemstiff, em Ohio, e Coal Creek, na Virginia, Estados vizinhos de predominância rural, e fala da duração das viagens entre um lugar e outro. É ali que se passará, em duas gerações, desde meados dos anos 1950, uma história de violência e coincidências trágicas envolvendo um veterano de guerra, seu filho, um pastor abusador e um casal de serial killers. 

A convite do diretor Antonio Campos, o narrador é o próprio autor do livro em que o filme se baseia, Donald Ray Pollock, que foi operário e motorista de caminhão na região de Knockemstiff até os 50 anos, quando então estreou como romancista com The Devil All the Time (publicado no Brasil em 2011 como O Mal Nosso de Cada Dia). Não apenas suas vivências, contadas no livro, mas também seu jeito de falar estão na base do filme, e desde os primeiros minutos ditam o tom da narrativa – que tem aquela cadência sem pressa e meio orgulhosa das histórias que estão tentando nos enrolar.

Ao longo de O Diabo de Cada Dia descobrimos que, sim, os acasos e as tragédias são o denominador comum da existência, e um elenco gabaritado, puxado por Tom Holland, Jason Clarke e Robert Pattinson, desfila com seus sotaques de Ohio e West Virginia muito bem treinados para emprestar uma almejada autenticidade a esses personagens-marionetes do destino. À visão de mundo meio irmãos Coen, Campos adiciona um gosto pela violência desafetada, desordenada e instantânea, que lembra outro romancista, Cormac McCarthy, cujas histórias de matanças à sombra da ausência de Deus já haviam também inspirado os Coen antes.

O que se percebe então, enquanto O Diabo de Cada Dia se desenrola tentando atribuir um peso a incidentes encenados friamente, é que todo esse esforço em busca de uma autenticidade (na adaptação do livro, na narração de Pollock, na suposta fidelidade da ambientação e dos sotaques, no registro cuidadoso da violência) pode estar sendo mais mimetizada de um molde muito bem sucedido (porque é inegável que os Coen e McCarthy sejam uma voz influente no retrato da América rural) do que brotando naturalmente do filme de Campos.

Que o diretor conduza esse épico fatalista com um trabalho de câmera engrandecedor, com zooms de panorâmica que lembram os épicos geracionais fatalistas de Paul Thomas Anderson, principalmente Sangue Negro, é o nó que faltava no embrulho de O Diabo de Cada Dia. No fim o que se tira do filme é realmente o que ele oferece desde o começo, aquilo que tem de superatuado e superencenado, com seus atores de prestígio enquadrados frontalmente em close-ups geométricos e claustrofóbicos, pensados como câmaras de ressonância para esses talentos gritantes de caracterização.

Há um esforço, sem dúvida,em curso aqui, de transformar uma sucessão de violências gratuitas em um relato cheio de gravidade, mas talvez seja afinal aquele caso clínico, clássico, de quando a pessoa se esforça um pouco demais.

Nota do Crítico

Comentários